O filme Orwell: 2 + 2 = 5, de Raoul Peck, está em cartaz em fevereiro nos cinemas do IMS Paulista e IMS Poços.
Se Kafka transfigurou em grande literatura a perplexidade do homem diante das engrenagens sinistras do mundo contemporâneo, George Orwell (1903-50) expôs com tintas fortes o funcionamento dessas engrenagens ao longo do século 20, completando o pesadelo. O grande feito de Orwell: 2+2=5, o novo filme de Raoul Peck, é mostrar as formas assumidas hoje pelo pesadelo, atestando que, oitenta anos depois de escrito, 1984 está mais vivo do que nunca.
Tendo como fio condutor textos do próprio Orwell (na locução offscreen de Damian Lewis), a obra é uma vertiginosa colagem de registros documentais, trechos de filmes de ficção, depoimentos, animação, dados estatísticos, reportagens televisivas etc. Não é propriamente um documentário, mas um brilhante ensaio político audiovisual cujo eixo é a atualidade pulsante – e apavorante – das ideias e intuições do escritor britânico.
Por meio dessa configuração ao mesmo tempo sutil e incisiva, nos é dada a ver de modo cristalino a continuidade entre o totalitarismo da primeira metade do século 20 (fascismo, nazismo, stalinismo), retratado literariamente em obras orwellianas como A revolução dos bichos e 1984, e as ameaças à liberdade humana e aos direitos sociais representadas hoje por figuras como Trump, Putin e Netanyahu, bem como pelo poder desenfreado das big techs e dos multibilionários.
Da Birmânia à Espanha
O próprio Orwell nos relata – em livros, cartas e trechos de diário – a trajetória pessoal que o levou ao esclarecimento, ou melhor, a uma lucidez quase insuportável. Na juventude, o escritor – nascido Eric Arthur Blair na Índia ocupada pelos britânicos – serviu durante cinco anos como policial do império na então Birmânia (hoje Myanmar), reprimindo desordens e revoltas locais. A experiência o marcou profundamente, desvelando a perversidade do colonialismo e despertando um senso inabalável de indignação moral.
Em contraste com essa atuação nas forças opressoras, nos anos 1930 o escritor se engajou nas brigadas internacionais que combateram o exército franquista na Guerra Civil Espanhola, experiência que relatou no livro Homenagem à Catalunha. Durante a Segunda Guerra Mundial, Orwell trabalhou por um tempo nas transmissões radiofônicas da BBC, ocupação que abandonou para se dedicar integralmente à literatura. Foi então que produziu suas obras mais influentes, A revolução dos bichos (1945) e 1984 (1949), aquelas em que, segundo o próprio autor, ele conseguiu aliar empenho político e empenho estético.
No filme de Raoul Peck, intercalados aos registros documentais e depoimentos, vemos trechos das várias versões cinematográficas desses dois grandes livros. Tudo é encadeado de maneira a iluminar a coerência entre vida e obra de Orwell, e mais ainda, entre os totalitarismos de ontem e de hoje.
Opressões de ontem e de hoje
Assim como Orwell, o próprio Peck também teve uma formação conturbada e diversificada. Nascido no Haiti em 1953, aos oito anos exilou-se com a família na então República do Congo (hoje República Democrática do Congo). Como o pai, agrônomo, trabalhava para a FAO e a Unesco, Raoul frequentou escolas nos EUA e na França, antes de se formar em engenharia industrial em Berlim. Só depois disso, culto, poliglota e cosmopolita, passou a se dedicar ao cinema.
Com esse retrospecto, não admira que tenha criado uma filmografia vigorosa e plural, com documentários como Eu não sou seu negro (2016) e Ernest Cole: achados e perdidos (2024), ficções como O jovem Karl Marx (2017), minisséries como Extermine todos os brutos (2021) e este indefinível Orwell: 2+2=5.
Por trás da variedade de gêneros, formatos e enfoques, persiste uma notável coerência: a investigação implacável dos mecanismos de opressão social e política de ontem, hoje e sempre. É isso que irmana Raoul Peck a George Orwell.
