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Ponto fora da curva

11 de junho de 2019

Texto lido na exibição de Estrada da vida seguida de debate com Milionário, José Raimundo, Dora Sverner e Ney Santanna, no IMS Paulista, em 8 de junho de 2019, como parte da mostra Nelson Pereira em cartaz. O filme será exibido no IMS Rio nos dias 20 e 29 de junho.

 

Ao longo dos últimos meses, em ordem mais ou menos cronológica, exibimos as obras do Nelson Pereira dos Santos até chegarmos ao filme que acabamos de ver. Muitas pessoas, não sem um certo preconceito, consideram Estrada da vida uma espécie de “ponto fora da curva” na carreira do Nelson: afinal, por que um realizador de renome internacional voltaria seu olhar para uma dupla sertaneja?

O que de início parecia incoerente se torna mais claro à medida que observamos que, nessa trajetória filmada de Milionário e José Rico, se apresentam alguns dos temas mais caros ao cinema de Nelson: a música como possibilidade/impossibilidade profissional em Rio, Zona Norte, de 1957 (também baseada livremente na trajetória de Zé Kéti), a migração interna em busca de trabalho e melhores condições de vida, questão central em Vidas secas, de 1963, as manifestações religiosas nas classes populares, como a umbanda em Amuleto de Ogum e o candomblé em Tenda dos milagres, realizados nos anos 1970.

Estrada da vida é também um ponto de chegada na trajetória do cineasta, marcada por uma curiosidade sincera pelas diversas formas de manifestação da cultura brasileira, que é seu traço fundamental. Assim, há no filme que acabamos de ver uma extensão de um método de trabalho visível, sobretudo em Amuleto de Ogum, em que Nelson realizou uma imersão no universo da umbanda, de forma a fazer um filme sem teses prévias, mas sim junto com aqueles que eram objeto de sua pesquisa.

 

Cena de Estrada da vida, de Nelson Pereira dos Santos

 

Em Estrada da vida, Nelson não se coloca à distância da história que ele está a rodar. Pelo contrário, a opção do diretor é filmar com seus personagens principais, improvisar com eles para retratar o sucesso comercial e também o fenômeno social que foi (e continua sendo) a música sertaneja. De maneira despretensiosa, Estrada da vida é uma comédia musical biográfica e acaba por ser também a crônica da vida de um migrante em São Paulo, que desembarca na cidade via estação da Luz, que anda com o rádio colado ao ouvido para trabalhar de manhã cedo.

Quem são esses migrantes que Nelson resolveu retratar? Milionário, o Romeu Januário de Matos, e José Rico, o José Alves dos Santos, se conheceram no final dos anos 1960 aqui em São Paulo, no Ponto Chic.

Com um estilo que misturava rancheiras paraguaias e mariachis mexicanos, e cantando principalmente canções de amor, a dupla de fato pintou muitas paredes até emplacar. Faziam música para pessoas que nem eles, como diz José Rico em matéria de O Globo em 1981 e reproduzida no livro Cowboys do asfalto, de Gustavo Alonso: “Gente simples, que nem nós dois. Essa gente também compra disco, não é o mendigo que muito estudioso pensa. A maioria desse povo está na cidade grande, pra onde fugiu em busca de trabalho. Mas por mais que fiquem na cidade grande, que envelheçam ali, serão sempre sertanejos. [...] Se trata da saudade gostosa de pessoas que tiveram que cumprir sua sina e venceram, mesmo com o preço de não terem voltado às origens.”

Alguns anos depois do primeiro encontro, em 1975, o LP Ilusão perdida vendeu 200 mil cópias. Em 1977, foi o estouro com Estrada da vida, quando ganharam também a alcunha de “As gargantas de ouro” no Brasil.

E, pouco tempo depois, foi o encontro com Nelson. O resultado foi o Estrada da vida, que lotou cinemas pelo Brasil. Distribuído em 15 países, o filme levou inclusive a dupla e José Raimundo até a China, em apresentações lotadas pelo país.

 


 

O texto acima foi feito para introduzir um debate. Por conta disso optei por omitir algumas fontes, para não deixar a apresentação maçante e não revelar informações que os convidados trariam. Afinal, como diz um querido amigo, ninguém vai a um debate para ouvir a mediação. Deixo então algumas breves notas adicionais. 

Sobre a recepção crítica de Estrada da Vida (de modo geral bem negativa), recomendo a pesquisa feita por Helena Salem em seu livro Nelson Pereira dos Santos: o sonho possível do cinema brasileiro. Talvez o único a falar bem do filme tenha sido José Carlos Avellar, em resenhas no Jornal do Brasil, como a publicada em dezembro de 1981
   
Para aqueles que se interessarem por música sertaneja, recomendo a leitura do livro Cowboys do asfalto, de Gustavo Alonso. Foi a minha fonte principal para o contexto histórico e social do momento da emergência de Milionário e José Rico. 

Como complemento à informação da viagem da China, recomendo vivamente a leitura da reportagem de Ricardo Kotscho para o Jornal do Brasil, a partir de uma conversa com a dupla, feita logo após a volta ao Brasil em 1986.

Há ainda a música "Mensagem de amor", composta por José Rico após a viagem, em homenagem ao povo chinês.

 

 


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