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A hora da estrela

19 de novembro de 2020

É preciso falar de Sophia Loren. Aos 86 anos ela está de volta em Rosa e Momo, depois de uma década ausente das telas. Dirigido por seu filho, Edoardo Ponti, o filme está disponível na Netflix.

 

 

Trata-se de uma nova versão do romance Momo ou A vida à sua frente, de Romain Gary. A primeira, dirigida em 1977 pelo judeu nascido no Egito Moshé Mizrahi, foi exibida aqui como Madame Rosa – A vida à sua frente e ganhou o Oscar de filme estrangeiro.

O enredo continua basicamente o mesmo: Madame Rosa, uma ex-prostituta judia, sobrevivente de Auschwitz, cuida em seu apartamento de filhos de outras prostitutas. A história começa quando ela acolhe a contragosto um menino órfão de origem muçulmana, o Momo do título (apelido de Mohammed).

O mais interessante talvez esteja nas mudanças. No filme de 1977, estrelado por Simone Signoret, Momo era um garoto argelino de pele clara; na nova, é um senegalês retinto – refletindo um deslocamento contemporâneo do tema da imigração e realçando o estranhamento inicial entre os dois protagonistas. A primeira versão era ambientada em Paris; a atual, numa cidade litorânea da Itália. A vizinha e amiga mais próxima de Rosa é agora uma mulher transexual (Abril Zamora) – outro signo de nossa era.

 

Fera acuada

Além disso, o personagem Momo se tornou muito mais arredio, insubmisso, antissocial. Interpretado com brio impressionante por Ibrahima Gueye, o novo Momo é uma pequena fera acuada, que traduz em fúria seu desamparo e sua vulnerabilidade.

Num interessante jogo de espelhos, encontramos a mesma oscilação entre vigor e fragilidade na Madame Rosa vivida por Sophia Loren. Simone Signoret era, por certo, uma atriz de maiores recursos, mas é comovente ver a coragem da octogenária Sophia ao compor uma personagem em processo de deterioração física e mental. É possível que só tenha topado o desafio por estar sob a direção protetora do próprio filho. É possível também que seja o último papel de sua carreira.

Terá sido, de todo modo, uma trajetória notável. Filha de uma professora de piano e de um engenheiro de linhagem nobre que era casado com outra mulher e nunca foi um pai presente, Sophia começou sua carreira de atriz aos 15 anos. Sua beleza exuberante e a mera intensidade de sua presença na tela ofuscaram quase sempre seus recursos dramáticos.

Por conta disso, é vista geralmente mais como uma diva do que como uma atriz – ainda que tenha sido a primeira a ganhar um Oscar da categoria atuando num filme em língua estrangeira, Duas mulheres (1960), de Vittorio de Sica, pelo qual foi premiada também em Cannes. O curioso é que naquele filme Sophia, então com 25 anos, encarnava a mãe de uma garota de 13.

Depois disso ela fez uma carreira internacional de sucesso, no mais das vezes em filmes sem grande personalidade. Salvo engano, nunca trabalhou com os três maiores cineastas italianos de seu tempo: Fellini, Visconti e Antonioni. Mas teve atuações notáveis em comédias e melodramas de Vittorio De Sica, Ettore Scola e Lina Wertmüller. Contracenou com astros como Marlon Brando, Charlton Heston e Gregory Peck, mas sua parceria mais bem-sucedida foi com Marcello Mastroianni, com quem atuou nada menos que onze vezes – a mais memorável delas em Um dia muito especial, de Scola, em que ela vivia uma dona de casa frustrada e ele um gay solitário.

Tudo somado, Rosa e Momo é um drama eficiente e bastante convencional, que tem o mérito de abordar o tema cada vez mais urgente da tolerância e da convivência entre diferentes. Por vias tortas, lembra outros filmes em que uma mulher madura, “cansada de guerra”, é forçada a conviver com um menino ameaçado pelo mundo do crime, desenvolvendo por ele sentimentos maternais. Pense-se, por exemplo, em Gloria, de John Cassavetes, Pixote, de Hector Babenco, e Verônica, de Mauricio Farias.

Mas o valor maior do filme de Edoardo Ponti talvez esteja em combinar essas duas forças contrárias (e complementares): a velha atriz no ocaso e o ator mirim cujo talento floresce. Uma passagem de bastão, ainda que salte várias gerações. Rosa e Momo vale pelos dois, e é justo que estejam em seu título.

 

Espanha no coração

Uma mostra compacta e substancial de filmes espanhóis está em cartaz na plataforma Belas Artes à la carte. Nesta primeira etapa estão disponíveis os “clássicos”, isto é, obras realizadas entre os anos 1950 e 1980. Em dezembro devem vir as produções mais recentes.

O cinema espanhol nunca teve a força e o prestígio do italiano, do francês ou mesmo do alemão, talvez devido à ditadura franquista que oprimiu o país por quase quatro décadas. No exterior, a cinematografia espanhola é conhecida por alguns pontos altos surgidos em diferentes gerações: Luis Buñuel, Carlos Saura, Pedro Almodóvar. Significativamente, o maior de todos eles, Buñuel, realizou grande parte da sua obra na França e no México.

Por sorte, estão na mostra os dois filmes que Buñuel dirigiu na Espanha depois de décadas de exílio: Viridiana (1961) e Tristana (1970). O primeiro, estrelado por Silvia Pinal e Francisco Rabal, é uma parábola cômica e amarga sobre a caridade cristã e a vocação religiosa. O segundo, protagonizado por Catherine Deneuve e Fernando Rey, explora relações de poder e perversão sexual. Duas obras-primas que driblaram engenhosamente a censura franquista.

Outros filmes da mostra são de grande interesse, como A morte de um ciclista (Juan Antonio Bardem, 1955), misto de drama amoroso e suspense noir, e O carrasco (Luis García Berlanga, 1963), tragicomédia amarga sobre um homem transformado a contragosto em executor da pena de estrangulamento por garrote vil. Há ainda Os santos inocentes (Mario Camus, 1984), retrato das relações feudais de dominação ainda presentes no interior da Espanha durante o franquismo.

 

Olhos de menina

Mas a joia mais preciosa do ciclo talvez sejam os dois filmes de Victor Erice, O espírito da colmeia (1973) e O sul (1983). Ambos mostram a descoberta do áspero e doloroso mundo dos adultos pelos olhos de uma menininha (o primeiro) e de uma adolescente (o segundo). De quebra, O espírito da colmeia lançou a extraordinária atriz mirim Ana Torrent, que conquistaria o mundo três anos depois no belo Cria cuervos (Carlos Saura, 1976), também presente no ciclo.

Vistos em conjunto, os filmes da mostra compõem um quadro vívido dos traumas e cicatrizes provocados na Espanha pela guerra civil e pela ditadura franquista, com seu obscurantismo religioso e sua aversão à arte, ao pensamento e à alegria de viver.

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