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Furacão Marcélia

26 de novembro de 2020

Chega aos cinemas, depois do sucesso em festivais nacionais e estrangeiros, o original e surpreendente Pacarrete, primeiro longa-metragem do cearense Allan Deberton. Protagonizado por Marcélia Cartaxo, o filme conta a história de uma ex-bailarina clássica e ex-professora de dança que tem dificuldade em conviver com os outros moradores da cidade de Russas, no interior do Ceará.

 

 

Deberton diz ter-se inspirado numa mulher que existiu de verdade e que era vista em Russas como uma espécie de louca da aldeia. O filme, de certa forma, é um mergulho na substância dessa loucura, uma tentativa de compreender sua gênese e seu mecanismo.

Pacarrete, o apelido da personagem, é uma corruptela sertaneja da palavra francesa pâquerette, margarida branca do campo. Resumida numa palavra, essa colisão entre uma almejada (e idealizada) delicadeza francesa e a realidade agreste da cidadezinha sintetiza o espírito do filme.

Quem dá corpo, alma e voz a essa criatura singular é uma atriz igualmente extraordinária. E aqui cabe um parêntese. Marcélia Cartaxo surgiu para o mundo ao encarnar Macabéa, a infeliz protagonista de A hora da estrela (1985), de Suzana Amaral, atuação que lhe deu o prêmio de melhor atriz no festival de Berlim. Tinha 22 anos e ficou marcada para sempre pelo papel. Talvez por isso tenha sido desde então subaproveitada pelo cinema, limitada no mais das vezes à posição de coadjuvante, ainda que sempre atuando de modo impecável e não raro roubando a cena.

 

Inadequação ao ambiente

Fecha o parêntese. Três décadas e meia depois, Marcélia volta a ser protagonista, compondo uma personagem que é o inverso simétrico de Macabéa. Se esta era uma moça acanhada do sertão perdida numa metrópole indecifrável, Pacarrete é a cosmopolita que supostamente respirou os ares sofisticados da alta cultura e que se ressente da rudeza e da ignorância do entorno provinciano para o qual regressou. Uma se sentia humilhada e oprimida por todos; a outra se vê como superior a seus conterrâneos. O que há em comum entre ambas é a inadequação ao ambiente, mas em sentidos opostos.

Em consequência disso, a atuação de Marcélia Cartaxo também se inverteu, atestando seus imensos recursos de atriz. Se Macabéa se encolhia ao ponto do apagamento e da invisibilidade, Pacarrete se expande, busca fazer-se ver e ouvir. Uma murchava para dentro; a outra é puro transbordamento, é “fora de si” – expressão associada à loucura.

O primeiro grande mérito do diretor Deberton foi ter compreendido que seu filme deveria ser todo construído para fazer Marcélia brilhar, e que ela deveria compor seu personagem uma ou várias oitavas acima, fora do tom, agindo quase como se estivesse sempre num palco, em contraste com o prosaísmo da vida provinciana à sua volta. Pacarrete não fala; ela discursa ou declama.

Pacarrete se erige nessa fronteira entre a realidade bruta e a fantasia da protagonista, entre seu passado de glória (real ou idealizado) e o presente de dissabores banais: o penico que ela leva de madrugada para a irmã inválida, a secretária de cultura do município que a evita, a costureira que não tem plumas para fazer o seu tutu, os pés que doem durante o exercício, o bêbado que a chama de doida na bodega em frente.

Ora na cenografia, ora na iluminação, o filme compõe visualmente o trânsito entre real e fantasia, passado e presente. Já na primeira cena, com uma vassoura na mão, Pacarrete dança sob uma luz feérica na calçada diante da sua casa como se estivesse num musical de Hollywood, alheia à vulgaridade dos transeuntes e aos ruídos da cidade. Vemos logo que ela vive num mundo à parte.

 

Museu da glória

Pelo comprido corredor interno de sua casa, penetramos em outros tempos, como quem visita um museu. Ao cultuar as glórias passadas e sonhar com um retorno triunfal, Pacarrete é uma espécie de Norma Desmond do sertão, para quem se lembra da protagonista de Crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder. O uso da luz para transcender o tempo-espaço presente fica evidente na notável sequência final, em que o triunfo da fantasia se iguala à morte.

Também a trilha sonora contribui para essa dialética entre mundos díspares, com a música de Saint-Saëns abafada ocasionalmente por um carro de som, pelo vozerio na rua ou por um forró genérico.

As relações entre Pacarrete e as pessoas mais próximas – a irmã (Zezita Matos), a empregada (Soia Lira), o dono da bodega (João Miguel) – são tecidas de modo delicado, a um tempo cômico e afetuoso, graças em grande parte à extrema qualidade do elenco e da direção de atores.

Os achados de mise-en-scène são inúmeros. Destaco um, com o risco de cometer um spoiler: quando morre inesperadamente a irmã, ao som de Tina Turner cantando We don’t need another hero no rádio, é do alto, de cima para baixo, que vemos Pacarrete mover-se atarantada pela casa, como uma encarnação da falta de sentido de tudo.

No mais, o filme é Marcélia Cartaxo, seu corpo franzino, fibroso e elétrico gesticulando diante de um mundo que não a compreende, vociferando contra a injustiça fundamental do destino.

 

Outras estreias

Entram em cartaz dois outros filmes brasileiros dignos de registro, ambos dirigidos por mulheres. Sobre Mulher oceano, de Djin Sganzerla, já falamos recentemente. O outro é o documentário Babenco - Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, de Bárbara Paz, que acaba de ser escolhido para tentar uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro.

 

 

Viúva de Hector Babenco, Bárbara realizou o que, à primeira vista, poderia parecer um home movie recheado com trechos de filmes do cineasta argentino-brasileiro. Mas seu documentário, muito mais do que isso, é um corajoso e comovente retrato de um homem que, sabendo-se próximo do fim, reflete sobre sua trajetória e sobre sua finitude, com o narcisismo e, ao mesmo tempo, a autoironia que sempre marcou sua postura. O mais interessante, no caso, é que o próprio Babenco praticamente codirige o filme, dando instruções técnicas, sugerindo e questionando opções.

Vem à mente Nick’s film – Lightning over water (1980), de Wim Wenders e Nicholas Ray, que registra o esforço de Ray para fazer um último filme antes que o câncer o liquide. Se o documentário de Wenders rendeu-lhe acusações de oportunismo ou morbidez, o de Bárbara Paz é uma declaração de admiração e amor da parte de quem esteve ao lado do retratado durante todas as horas do fim.

 

Maradona

Para quem, como eu, ama o cinema e o futebol e se comoveu com a morte de Maradona, um consolo possível é ver ou rever o documentário Maradona by Kusturica (2008), de Emir Kusturica, que está inteiro no YouTube, com legendas em português. O craque, o homem, o mito, tudo misturado no tributo de um artista maluco a outro artista maluco.

 

 

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