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Tango argentino

03 de dezembro de 2020

É famosa a frase de Ivan Lessa: “A cada quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos quinze anos”. Na Argentina é o contrário: o passado pesa mais que o presente, os mortos embaraçam o movimento dos vivos, ninguém esquece nada. Gardel, Evita, Perón e agora Maradona parecem tão presentes quanto nos tempos em que respiravam sobre a terra. Não é à toa que a música mais característica do país é o tango, esse lamento por aquilo que passou e não volta mais. “Gardel está cantando cada vez melhor”, costumam dizer os portenhos.

Todo esse estado de espírito parece se concretizar exemplarmente em Sul (1988), de Fernando Solanas, que morreu aos 84 anos no último dia 6 de novembro. O filme, disponível na plataforma Belas Artes à la carte, ganhou o prêmio de direção em Cannes e pode ser definido como uma alegoria política e moral que lança mão do chamado realismo fantástico, tão influente décadas atrás no país e no continente.

Conta-se ali, na superfície, a história de um homem, Floreal Echegoyen (Miguel Ángel Solá), que sai da prisão depois de cinco anos, em plena ditadura militar argentina. Antes de voltar para casa, para sua bela Rosi (Susú Pecoraro) e o filhinho que mal conheceu, ele se encontra com personagens do passado, alguns dos quais vivos, outros mortos, e a narrativa se constrói nesse entre-lugar entre o real e a memória, o sonho e a vigília.

 Cena de "Sul", de Fernando Solanas

 

Atmosfera de sonho

A ambientação predominantemente noturna, entre névoas e sombras, a cenografia desolada (uma estação ferroviária em ruínas, galpões abandonados, cais e becos escuros, ruas desertas), a contraluz que transforma os seres em vultos e silhuetas, os acordes plangentes do onipresente bandoneón, a voz rouca do cantor Roberto “Polaco” Goyeneche (que faz o papel de pai de Rosi), tudo contribui para essa atmosfera densa de recordações, fantasmas, ciúme, remorso e culpa.

O mundo do trabalho, a militância política, a dor de corno e, obviamente, o tango se entrelaçam de modo inextricável na acidentada odisseia de Floreal de retorno ao lar. As sequências, entretanto, não obedecem a um único tom, parecendo às vezes pertencer a gêneros distintos. Por exemplo: toda uma parte satírica sobre a censura a obras artísticas e intelectuais (entre as quais ouvimos os nomes de Paulo Freire e Darcy Ribeiro), ambientada numa repartição enorme e kafkiana, lembra uma comédia musical. Em outras, predomina o melodrama, a crônica histórica ou a tragédia.

Há quem critique Solanas, com certa razão, por sua poética política meio datada, que frequentemente resvala para o didatismo e para o discurso militante e sentimental. Mas talvez tudo isso combine com o espírito portenho mencionado no primeiro parágrafo, em contraste com a ânsia novidadeira e a tendência a descartar o passado que caracterizam a nós outros, brasileiros.

Tem robustez e autenticidade essa militância, assim como, em outro registro, há robustez e autenticidade na militância mais estritamente realista de um Ken Loach, por exemplo. Solanas tem mais a ver com o projeto de uma poética revolucionária latino-americana, personificada em Glauber Rocha, a quem seu filme é dedicado. Ele não chega lá, a meu ver, mas não deixa de ser bela a tentativa. E de quebra ouvimos lindos tangos de Anibal Troilo e Astor Piazzola – e uma “canja” de Fito Páez cantando um rock.

 

Gênese de um gênio

Na mesma plataforma Belas Artes à la carte encontra-se outra preciosidade: o primeiro longa-metragem de Roman Polanski, A faca na água (1962), o único que ele realizou ainda na Polônia, aos 28 anos. Nesse drama de suspense concentrado em três personagens (um casal e um rapaz desconhecido) que passam um dia e uma noite num veleiro num grande lago, o cineasta já mostrava um domínio absoluto do enquadramento, do ritmo e da atmosfera, orquestrando de modo admirável as tensões no interior desse triângulo inesperado.

 

Estava já ali o talento de Polanski para retratar as relações pessoais de dominação, sobretudo nos ambientes restritos (como em Repulsa ao sexo, O bebê de Rosemary, O inquilino, Lua de fel, O deus da carnificina, A pele de Vênus), bem como, ainda contida, a sensibilidade para a loucura e a perversão latentes em cada indivíduo.

 

Dois brasileiros

Chegam ao cinema dois filmes nacionais de primeira linha, coincidentemente ambos dirigidos por baianos. O veterano Geraldo Sarno está de volta com o extraordinário Sertânia, épico político que atravessa várias décadas, articulando cangaço, seca, misticismo, migração e industrialização paulista, tendo como fato crucial e fundador o massacre de Canudos, no final do século 19. A república, afinal, surgia ali sob o signo da violência e da exclusão. (Soa familiar?)

 

Tudo é narrado como num misto de memória e delírio de um cangaceiro (Vertin Moura) que se arrasta moribundo pela caatinga depois de ferido em combate. Com essa estratégia narrativa, Sarno passa em revista de modo crítico e pessoal a iconografia e a mitologia do sertão, incluindo, evidentemente a abordagem da região pelo cinema novo, presente de modo ostensivo na fotografia em preto e branco com luz estourada.

Guerra de algodão, de Marília Hughes e Claudio Marques, é um singular romance urbano de formação: a adolescente Dora (Dora Goritzki), que foi criada com a mãe na Alemanha, volta a Salvador e vai morar com a avó (Thaia Perez), uma ex-atriz libertária cuja carreira foi sufocada pelo conservadorismo moral de seu tempo. Os conflitos de geração e os choques culturais se mesclam com as descobertas pessoais da garota, num filme de observação sensível e delicada, distante do olhar turístico e da simplificação moral.

 

 

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