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Tem gente no Vaticano

12 de dezembro de 2019

Dois papas, de Fernando Meirelles, que está em cartaz nos cinemas por pouco tempo antes de se tornar exclusivo da Netflix a partir do próximo dia 20, atualiza de modo interessante uma linhagem de filmes empenhados em bisbilhotar os bastidores do Vaticano.

Nos últimos anos, tivemos Habemus Papam (2011), de Nanni Moretti, em que um pontífice recém-eleito (Michel Piccoli) entra numa crise de pânico e quase não toma posse, e a minissérie The Young Pope (2017), de Paolo Sorrentino, que imagina o primeiro papa norte-americano da história (Jude Law). Há meio século, em As sandálias do pescador, de Michael Anderson, um papa polonês (Anthony Quinn), uma década antes de Karol Wojtyla, espantava o mundo ao doar todos os bens da Igreja aos pobres.

A diferença em relação a esses ilustres precedentes é que o filme de Fernando Meirelles retrata dois papas reais, o alemão Joseph Ratzinger ou Bento 16 (Anthony Hopkins) e seu sucessor, o argentino Jorge Bergoglio ou Francisco 1º (Jonathan Pryce), atualmente no cargo.

 

Dois cristianismos

Com base num roteiro eficiente de Anthony McCarten, um especialista em cinebiografias (Chrchill, Freddie Mercury, Stephen Hawkins), a narrativa se equilibra em três pilares dramáticos: o drama pessoal (e transformação interior) de cada um dos papas; as questões espinhosas da Igreja católica no mundo de hoje (corrupção no Banco do Vaticano, acusações de pedofilia); e o confronto entre duas concepções do cristianismo, uma austera e disciplinadora (Bento), a outra solar e amorosa (Francisco).

No aparente afã de não deixar descoberta nenhuma dessas três linhas de força, Meirelles acaba por não ir fundo em nenhuma delas, mantendo seu tratamento numa confortável e agradável superfície. Para não correr nenhum risco de perder o interesse e a compreensão do espectador, o filme enfatiza, até as raias da redundância, as características marcantes de seus protagonistas, em especial de Francisco: e tome tango, e tome futebol, de modo a forçar a identificação do espectador com esse papa “gente como a gente”.

Com isso, a questão que me parece mais fecunda, a dos dois cristianismos contrapostos – abordada, por exemplo, no encantador Francisco, arauto de Deus (1950), de Rossellini –, fica a meio caminho, inibida pela ênfase na personalidade dos protagonistas, abordada por sua vez com os cuidados e clichês dos dramas convencionais.

Os próprios dilemas de consciência que os dois atravessam – Ratzinger por sua incapacidade de interagir alegremente com seus semelhantes; Bergoglio por sua atuação ambígua diante da ditadura sanguinária argentina – são tratados de modo um tanto ligeiro, quase indolor.

Também do ponto de vista formal, especificamente cinematográfico, há quase sempre a opção pelo recurso seguro, comprovado. Os flashbacks da juventude de Francisco, entre a vocação religiosa e a atração por uma namorada, dão uma sensação de déjà-vu no tratamento fotográfico estilizado, nos enquadramentos aproximados, nos diálogos explicativos.

Que não haja mal-entendido aqui: é um filme de entretenimento de alta qualidade, com o talento narrativo habitual do cineasta na manutenção do ritmo, na direção de atores (e que atores!), na clareza de exposição, no sentido do espetáculo. O que falta, a meu ver, é a centelha do risco, a “deformação autoral”, o lance inesperado que torna algumas obras inesquecíveis.

 

Inspiração fugaz

Em Dois papas há momentos específicos em que essa inspiração se insinua. Por exemplo, na cena em que Francisco entra na Capela Sistina deserta e às escuras e o ambiente vai se iluminando à medida que ele avança, revelando toda a sua beleza esplendorosa. Ou os instantes em que o diálogo entre os dois papas é comentado, na montagem, pela inserção rápida de imagens da iconografia cristã: quando se fala das finanças do Vaticano, vemos o “bezerro de ouro”; uma afirmação de Francisco sobre a condição humana de Jesus suscita um plano aproximado da mão ferida do Cristo do Juízo Final de Michelangelo.

Belo também é o plano breve, filmado do alto, em que os dois protagonistas se embrenham pelo labirinto verde dos jardins da residência papal em Castel Gandolfo.

São passagens em que a arte cinematográfica brilha fugazmente, mostrando potencialidades não aproveitadas no restante da narrativa. Diferentemente de O irlandês, que parece ter sido concebido para a tela grande e o tempo especificamente cinematográfico, com seus silêncios e variações drásticas de ritmo e escala, Dois papas talvez se saia melhor mesmo no formato domesticado e confortável da televisão.

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