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Álbum de família

16 de novembro de 2023

Neste momento em que o cinema brasileiro, por diferentes vias, busca retomar seu contato com o público depois de um período de trevas e afastamento, Tia Virgínia, de Fabio Meira, merece uma atenção especial.

Trata-se, na superfície, de um drama familiar com rasgos de um humor perverso. A sexagenária Virgínia (Vera Holz), solteirona que vive num casarão com a mãe entrevada (Vera Valdez), recebe no dia de Natal as irmãs Vanda (Arlete Salles) e Valquíria (Louise Cardoso), além do cunhado Tavares (Antonio Pitanga) e dos sobrinhos Bernardo (Iuri Saraiva) e Ludmila (Daniela Fontan).

 

Tragédia doméstica

Mediante a concentração de tempo e espaço – tudo se passa num único dia na velha casa da família – e um encadeamento sagaz de diálogos e situações, esse punhado de personagens viverá uma tragédia doméstica quase rodrigueana, em que o horror e a loucura brotam do cotidiano mais prosaico.

Vêm à tona rancores e ressentimentos antigos, rivalidades, desejos reprimidos, frustrações, toda uma vida que poderia ter sido e que não foi. Mas isso não é narrado de modo grave e sombrio, à maneira de um Bergman ou de um Eugene O’Neill, mas sim modulado por um humor e um descomedimento bem brasileiros, ou pelo menos latinos.

Do ponto de vista da composição do drama, há um elemento sutil e essencial: a presença da matriarca muda, paralisada, espectadora silenciosa da azáfama de seus descendentes. Estes últimos não sabem até que ponto a anciã percebe o que se passa à sua volta, e na maior parte do tempo a ignoram por completo, como se fosse um móvel ou um objeto inanimado. Mas a câmera chama a atenção do público para sua presença ali, como uma instância moral, crítica e julgadora.

 

Atmosfera de segredos

Outro recurso frequente é o de compor as cenas com uma parte do quadro bloqueada por uma porta, uma parede ou um móvel, de tal maneira que sempre fica a sensação de que nossa apreensão dos acontecimentos é parcial, incompleta. Os diálogos elípticos, remetendo a coisas que, de início, só os próprios personagens conhecem, ampliam essa atmosfera de segredos que se revelam aos poucos, num crescendo de exasperação.

Todo esse mecanismo dramático e expositivo só tem eficácia graças à competência extrema do elenco, em especial de Vera Holz, no que parece ser o papel de sua vida. Depois de ler na ficha técnica do filme nomes habitualmente associados à comédia (Vera, Louise, Arlete), o espectador desavisado talvez tenha uma boa surpresa ao constatar que essas atrizes extraordinárias conseguem em qualquer registro transmitir a complexidade do humano, desatinado humano.

Em tempo: Tia Virgínia conquistou no recente festival de Gramado o prêmio da crítica e os kikitos de melhor atriz (Vera Holz), roteiro, atriz coadjuvante (Vera Valdez), direção de arte e som. No Los Angeles Brazilian Film Festival conquistou os prêmios de atriz (Vera Holz), atriz coadjuvante (Louise Cardoso) e direção de arte (Ana Mara Abreu).

 

França e Itália

Por falar em festivais, estão ocorrendo ao mesmo tempo em dezenas de cidades brasileiras o Festival Varilux de Cinema Francês e o Festival de Cinema Italiano. São oportunidades únicas de conhecer a produção recente de cada uma dessas cinematografias tão fundamentais. Vale a pena conferir a programação.