Boleiros, Sábado, Festa, O príncipe, Cara ou coroa...: poucos cineastas brasileiros podem ostentar uma filmografia tão sólida, tão múltipla e ao mesmo tempo tão coerente. Com exceção de Festa, todos esses e mais outros cinco longas-metragens estarão na mostra “O cinema de Ugo Giorgetti”, que começa nesta quinta-feira, 28 de maio, no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo.
Além disso, a mostra trará em primeira mão o inédito Alberto Dines – Vínculos de liberdade. Mais que um documentário vibrante sobre um dos maiores jornalistas que este país já teve, o filme serve como um réquiem por uma imprensa que não existe mais. Dines (1932-2018) desafiou a ditadura militar quando era editor-chefe do Jornal do Brasil, o que lhe fechou por um tempo as portas de todos os grandes veículos e o levou a se tornar o maior crítico de mídia que já tivemos, primeiro com a coluna “Jornal dos jornais”, na Folha de S. Paulo, depois no Observatório da imprensa, atuante por décadas no impresso, na internet e na televisão.

Jornalismo em questão
No documentário, um rico material de arquivo se entrelaça a depoimentos de colegas de profissão e amigos íntimos de Dines (incluindo sua viúva, Norma Couri) e a cenas argutamente escolhidas de filmes sobre jornalismo, como Adorável vagabundo, de Frank Capra, A embriaguez do sucesso, de Alexander Mackendrick, Todos os homens do presidente, de Alan J. Pakula, e A hora da vingança, de Richard Brooks.
Com o devido destaque é abordada também a atuação de Dines como pesquisador e professor (ele criou, por exemplo, o Labjor, laboratório de jornalismo da Unicamp) e como escritor – escreveu as biografias de Stefan Zweig, autor austríaco de Brasil, país do futuro, que se suicidou em Petrópolis em 1942 (Morte no paraíso), e de Antônio José da Silva, o Judeu, dramaturgo luso-brasileiro queimado na fogueira pela Inquisição em 1739 (Vínculos de fogo).
Além da crônica
O cinema de Ugo Giorgetti costuma ser associado imediatamente à cidade de São Paulo. De fato, sua obra pode ser vista como uma longa e diversificada crônica da metrópole, com suas transformações vertiginosas e sua riqueza de tipos, sotaques, culturas, contradições e violências. Poucos autores, no cinema e na literatura, têm olhos tão atentos e ouvidos tão aguçados para captar as diversas facetas da vida paulistana. Isso é evidente sobretudo em filmes como Sábado, Boleiros, O príncipe e Cara ou coroa. Este último, uma abordagem original e indireta do período da ditadura militar, não recebeu a atenção e o louvor que merecia. Aqui, a entrevista do diretor a Antônio Abujamra, por ocasião do lançamento do filme, em 2012:
É um erro crasso, porém, reduzir a obra de Giorgetti ao retrato social realista ou verista. A par da exposição das fraturas sociais e culturais, retratadas no mais das vezes com um humor quase cruel que remete às comédias de Mario Monicelli ou Dino Risi, o olhar do diretor vai sempre além, buscando algo de inefável no hiato entre o real e o imaginário, o que é e o que poderia ter sido. Esse, no fundo, é o tema central de filmes tão diversos quanto Boleiros, Festa e O príncipe.
Raras vezes a arte brasileira chegou tão perto da fórmula machadiana (ou antes “brascubiana”) de unir “a pena da galhofa” com “a tinta da melancolia”. Os finais dos filmes de Giorgetti costumam deixar um travo de amargura que se contrapõe ao riso até então predominante.
Salto poético
O que geralmente desconcerta a crítica mais acomodada são os filmes de Giorgetti que se afastam da abordagem realista para alcançar uma poesia mais filosófica, na falta de adjetivo melhor: A cidade imaginária (2014), ambientada num barco que traz imigrantes italianos ao Brasil no final do século 19; Uma noite em Sampa (2016), em que os membros de uma trupe teatral ficam paralisados junto ao ônibus que devia levá-los para casa; Solo (2009), monólogo de um septuagenário que repassa com sarcasmo suas derrotas e ressentimentos contra um mundo que já não compreende; Dora e Gabriel (2020), diálogo entre dois desconhecidos jogados por acaso num porta-malas durante um assalto.
Uma característica peculiar do cinema de Giorgetti é a mistura, em seus elencos, de atores consagrados (Lima Duarte, Antônio Abujamra, Otávio Augusto, Marisa Orth, Adriano Stuart, Denise Fraga) com não-atores que se revelam surpreendentemente perfeitos para seus papéis: Jorge Mautner em Festa, Tom Zé e Décio Pignatari em Sábado, Júlio Medaglia em O príncipe etc. Sem falar dos craques verdadeiros que aparecem em Boleiros 1 e 2: Sócrates, Zé Maria, Luiz Carlos etc.
Boa parte do encanto dos filmes do cineasta vem dessa porosidade ao fluxo da vida, desse trânsito entre o elevado e o banal, o aristocrático e o popular. Malandros, intelectuais, músicos, futebolistas, professores, publicitários, moradores de rua, políticos, jornalistas, mestres da sinuca – toda essa fauna variada se entrechoca de modo cômico e trágico na filmografia desse cineasta imenso que é Ugo Giorgetti.
Até um dia
O papo está bom, mas tem que acabar. Este é o último texto desta coluna semanal, publicada em sites do IMS nos últimos quinze anos. Agradeço primeiramente aos leitores que me aturaram ao menos por uma parte desse tempo. E também aos editores com quem trabalhei aqui e que sempre me deram total autonomia e apoio: Flávio Moura (que foi quem me convidou para o Blog do IMS, em 2011), Luiz Fernando Vianna, Alfredo “Tutty” Ribeiro e Marília Scalzo. Foi bom estar com vocês.
