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Um artista popular

20 de fevereiro de 2020

No mesmo dia (19 de fevereiro), duas notícias tristes: a morte de José Mojica Marins, aos 83 anos, e o fechamento de uma das salas de cinema mais tradicionais de São Paulo, o Cinearte. Talvez haja uma “injustiça poética” conectando essas duas perdas. Mojica foi um dos grandes nomes de um cinema brasileiro verdadeiramente popular – justamente o cinema que agonizou e morreu junto com as salas exibidoras de rua das metrópoles e das cidades do interior. As duas mortes se entrelaçam simbolicamente.

Falar José Mojica é dizer Zé do Caixão. Apesar de ter dirigido dezenas de filmes que nada tinham a ver com seu personagem mais famoso (e atuado em outros tantos), foi ao encarnar o coveiro iconoclasta e demoníaco que Mojica ganhou o Brasil e, até certo ponto, o mundo. Criador e criatura se tornaram indissociáveis, num processo de simbiose cultivado pelo próprio artista.

 José Mojica Martins interpreta Zé do Caixão em O Despertar da Besta (1969).

 

Tradição oral

O Zé do Caixão se entranhou no imaginário brasileiro porque Mojica, com recursos modestos e uma criatividade desconcertante, mobilizou como ninguém elementos da tradição oral e iconográfica popular, sobretudo da religiosidade sincrética que Darcy Ribeiro chamava de “nosso catolicismo macumbeiro”.

Neto de espanhóis, nascido e criado numa família de tradição circense em Vila Anastácio, então um bairro suburbano de uma São Paulo ainda provinciana, Mojica cresceu ouvindo histórias de assombração e vendo filmes no cineminha em que seu pai trabalhava de zelador e sua mãe na bonbonnière. Aos doze ou treze anos ganhou sua primeira câmera, aos catorze fez seu primeiro curta.

Antes de aparecer pela primeira vez na pele do Zé do Caixão, em À meia-noite levarei sua alma (1964), já havia realizado um faroeste (A sina do aventureiro, 1958) e um melodrama (Meu destino em tuas mãos, 1963). Mas foi o Zé do Caixão que, começando com uma transgressão hoje risível (comer carne numa Sexta-feira Santa), desencadeou na tela uma série de fenômenos, sortilégios e aberrações – exorcismos, tortura, canibalismo, reencarnação – que assombraram e divertiram gerações. “O estranho mundo do Zé do Caixão” viraria título de um programa de televisão.

Desprezado de início pela maior parte da nossa intelligentsia, que torcia o nariz diante do que considerava “mau gosto popularesco”, Mojica conquistou prontamente o público mais popular e, aos poucos, o interesse e o apreço da classe média. Em 1968, seu longa de episódios O estranho mundo de Zé do Caixão deu origem a um programa de grande sucesso da TV Tupi.

Se o cinema novo praticamente o ignorou, a partir do final dos anos 1960 Mojica foi abraçado com entusiasmo pelos cineastas ditos “marginais”: Rogério Sganzerla, Carlos Reichenbach, Ivan Cardoso, Andrea Tonacci, Jairo Ferreira, todos o reverenciavam como mestre inspirador. Intelectuais e artistas de primeiro escalão, como o poeta Haroldo de Campos, o físico Mario Schenberg e o artista visual Helio Oiticica passaram a louvar sua força e sua originalidade.

Entre os membros do cinema novo, mais voltados para uma perspectiva político-militante influenciada pelo neorrealismo e pela nouvelle vague, uma exceção notável foi Glauber Rocha, que era grande admirador de Mojica e chegou a lhe propor fazerem juntos um filme ou uma série, unindo Zé do Caixão e Antonio das Mortes “contra o dragão da maldade”. É uma lástima que tal ideia não tenha vingado.

 

Cult internacional

Ao mesmo tempo em que conquistava respeitabilidade nos círculos intelectuais, Mojica viu-se obrigado, a partir dos anos 1970, a realizar filmes sob encomenda – e muitas vezes sob pseudônimo – de teor sexual cada vez mais explícito. O pornô marcou a última e melancólica fase dos cinemas populares, que logo virariam templos evangélicos, estacionamentos ou supermercados.

Mas com o advento do videocassete, nos anos 1980, o personagem Zé do Caixão se internacionalizou, conquistando um público jovem de aficionados nos Estados Unidos e na Europa. Rebatizado de Coffin Joe, virou cult.

Nos anos 2000, sobretudo com a revalorização do gênero horror entre nós, Mojica virou ícone de uma nova geração de realizadores. Dois deles, Dennison Ramalho e Paulo Sacramento, foram diretamente responsáveis (o primeiro como co-roteirista e assistente de direção; o segundo como produtor e montador) pela volta em grande estilo do personagem Zé do Caixão em A encarnação do demônio (2008), encerrando a trilogia iniciada com À meia-noite levarei sua alma e Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967).

A volta do Zé do Caixão depois de quatro décadas (no filme, ele é libertado da prisão) acabou sendo a única obra de Mojica com bons recursos de produção, além de um elenco de primeira linha (Jece Valadão, Adriano Stuart, Helena Ignez, Zé Celso Martinez Corrêa etc.). O filme completo está aqui:

Numa entrevista no festival de Tiradentes, quando A encarnação... estava em pré-produção, Mojica disse que já dispunha de R$ 500 mil, mas que “os meninos” queriam captar mais R$ 1 milhão. “Falei pra eles: ora, com quinhentos mil eu faço três fitas.” E faria mesmo, todos sabemos.

 

Um parto anormal

Em tempo: as informações sobre a admiração mútua entre Glauber e Mojica, bem como sobre seu projeto de parceria, eu colhi ao testemunhar, durante um festival de Brasília, uma conversa entre o próprio Mojica e dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber, num encontro promovido por Ivan Cardoso, amigo de ambos os cineastas.

A certa altura, dona Lúcia contou que, na maternidade, na hora do parto, o médico disse que a situação era crítica e que teria que optar entre o bebê e a mãe. Um dos dois seria sacrificado. Ela disse que então se enfureceu e gritou: “Eu não vou morrer e meu filho não vai morrer. Ponto final”. Impressionado com a história do nascimento de Glauber, mas sem querer ficar para trás, Mojica murmurou, para o espanto de todos: “É... e eu nasci de onze meses”. Vai ver que é verdade. Vai ver que é esse o mistério de Mojica.

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