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Contraste

Deusa Poetisa (SP)

Paulista, é poeta, slammer, performer, apresentadora, arte educadora, oficineira, artesã e atriz. Foi uma das finalistas do Slam BR 2016 e integra o Coletivo Alcova e Sma Diversos. Afro-empreendedora da marca Pretart e idealizadora, organizadora e apresentadora do Sarau Alcova da Deusa. Como parte de seu trabalho na literatura marginal, lançou o fanzine Afronte.

Teu hoje é o meu amanhã guardado no bolso

Hoje não abri os olhos
E ninguém sentiu minha ausência
Ninguém reparou nos dentes
Que vêm amarelando com o tempo
Com os crespos confusos
Digladiando-se entre os dedos logo cedo
Hoje ninguém ouviu os segredos cotidianos
Que geralmente conto
Ninguém sentiu o peso das minhas mãos sobre os ombros
E nem o abraço apertado que tira os pés do chão
Hoje ninguém ouviu meu não
Um isolamento imerso no anseio
Um vão entre um metro e meio
Hoje ninguém sentiu minha presença ao lado
Ninguém ouviu minha voz
Nem meu bradar entre um soluço e outro
Do choro contido
Ninguém desfez os nós da garganta
Nem eu
Eu não consigo
Aos poucos, minha mente flagela meu corpo
Espalmo minhas mãos nos ouvidos
Não suporto mais tanta notícia
Mídias quentes, histórias frias, ruas vazias
E ao mesmo tempo que promovem nosso desespero
O medo generaliza
Notícias
A esperança se renova
“Maria saiu dos aparelhos”
“João está de alta”
Apesar de nos colocarem números nas costas
Muitas coisas tomaram uma proporção gigantesca
E como grotescas tornaram-se as futilidades
Um banho de sol e uma brisa fresca
É motivo de privilégio à humanidade
A lua nunca esteve tão linda
E nunca se olhou tão profundamente
Nos olhos uns dos outros
Estamos a seco
Engolindo um novo normal
Aos poucos
Se tivesse que ensinar algo que aprendi esse ano
É que hoje eu tô aqui
Amanhã é o engano
Nunca se sabe da vida
Por isso que hoje
Antes que eu me esqueça
E não possa mais
Só quero dizer
Eu te amo

Publicado em 8/10/2020

Infortúnio

Você sabe quantos barulhos guardo
No silêncio do meu quarto?
Quantos sussurros estão fadados
Aos meus travesseiros?
Quantas lágrimas tenho me afogado?
Quantos soluços me tiraram o fôlego
O dia inteiro?
Quantos choros presos inundaram minha alma?
Já perdi as contas
Ou melhor, acho que nem contei.
Não sabia que deveria de ter exatidão
De tudo que já passei
Não achei que teria que mensurar minha sofreguidão
E o quanto eu desaguei
O quanto a boca amargou
E o quanto se tornou árido tudo aqui dentro.
Eu não me preocupei
Mas sei que perdi muito tempo com sofrimento.
Que a lágrimas caiam e meu corpo não padeça
Que a lágrimas caiam e meu corpo não padeça
Que a lágrimas caiam e meu corpo não padeça
É erguendo a cabeça
Que a dor liquefeita vai escoar
Eles dizem:
Tu tens que ser forte, vai passar
E eu digo:
Não faz sentir melhor
Mas eu já sei.

Publicado em 28/8/2020

Guerreira também cansa

Eu decidi que hoje
Ficarei aqui de joelhos
Sentindo sobre as pernas
O peso do meu corpo
Segurando os meus receios
Entre meus dedos
Fui a lugares que não esperava
Mas esperei até cessar
Percorri caminhos
Fui esteio
Fui ninho para os seus anseios
Meus braços foram aconchego
Nunca, nunca me neguei
Uni mãos, corações
Muitas vezes laços
Aqueles que abençoei
Me fiz nó
Pra não desatar os elos
Coloquei-os no topo
Ciente de que para o apoio
Abaixo fiquei
Fui alicerce sem disfarce
Fui transparente, translúcida
Pra que sua sensibilidade me atravessasse
E ainda assim não veria o que reservo
Dentro de mim
Fiz até mais do que poderia
Usando todos os recursos
Ficando em débito comigo mesma
E vivendo a esmo
Sem registro no tempo
Captados apenas pelos olhares atentos
E agradecidos de quem ajudei
Fui força bruta
A mão que ampara o suor frente à labuta
Vi esvair forças
Frente ao que me dediquei
Espero que saiba
Que guerreira também cansa
E depois de sobrepujar tantas lutas
Me cansei
Mas jamais, jamais desisti
Ao que me lancei
O corpo padece
Mas o tempo é rei
E eu ao momento
Sim desdenho
Sou a rainha
Do meu próprio reino

Publicado em 26/8/2020

Mais sobre o Programa Convida
Artistas e coletivos convidados pelo IMS desenvolvem projetos durante a quarentena. Conheça os participantes:

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