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Contraste

Diego Grando (RS)

Nascido em Porto Alegre, é autor de quatro livros de poemas: Desencantado carrossel (2008), 25 Rua do Templo / Palavra Paris (2010), Sétima do singular (2012) e Spoilers (2017), que recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura 2018 – Poesia. É professor de literatura na PUCRS e integrante do Sarau Elétrico.

(Foto de Theo Tajes)

Edifício Farroupilha (III)

No tempo das visitas
diziam parecer um hospital.
Comigo foi assim
eu vi e disse: é parecido.
Isso ainda antes dos rumores
e outros parece-que de várias fontes.

Os corredores dão o que pensar:
vetustos bulevares verde água
a faixa musgo na altura dos olhos
os cento e oitenta e oito passos necessários
para entrar em casa
no fim do fundo.

Também as duas escadarias
uma em cada extremidade
e num dos vãos o casulo
do elevador de outro poema.

E o passa-prato que não passa nada
feito janela cega na parede da sala.

Existe a hipótese do asilo,
que eu mesmo fiz para estender o assunto.
A hipótese do sanatório,
carente de indícios porém
e sem apoiadores e entusiastas.

Meu último aniversário foi no início
do que viria a ser dois mil e vinte.
Faz trinta e nove anos que estou vivo.
Uso máscara para espantar o futuro
que me embaça os óculos
e me vejo às voltas com um passado
que ninguém – se envelheço
ou enlouqueço – ninguém pode confirmar.

Publicado em 17/8/20


Edifício Farroupilha (II)

Na contramão de pintassilgos, cochichos, curicacas,
os silvos do motor do elevador não cantam nada:
são guinchos entre idas e freadas,
em tom menor, de superego,
e ouvi-los sempre é o que me cabe
se estou ainda vivo e não sou surdo.

Não passam de assobios oblíquos,
resmungos, maldições mecânicas:
a caixa vertical a contrapelo,
pairando sobre um poço de perguntas
pendentes, no contrapeso
cacofônico da vida.

Nisso nos entendemos: o impossível
gorjeio, o aconchego de gaiola
sem vista para o movimento,
entre botões sanitizados, luzes impermeáveis,
com leveduras, guiñazus, sopranos
comichando nas veias.

Publicado em 17/8/20


Edifício Farroupilha (I)

A cidade é sorvida como um gole d’água
junto aos resquícios na garganta
de uma noite de escolhas erradas

Indiferente à posição das basculantes
o sol profere solilóquios
em seu pendor para dias difíceis

O estoque de sonhos se renova
com lisergias de almoxarifado
para assombro da nossa pouca prática –

mas logo nos calamos sobre a bancarrota
que se declara nas noites seguintes

E se erguêssemos barricadas
com rolos de papel higiênico
E se mudássemos os móveis de lugar
se atribuíssemos a cada cômodo
o nome de um continente
os corredores por oceanos –

ainda que incomode andar em círculos
ou que a Europa mostre-se um cubículo
se o mundo estiver inteiro é porque somos ricos

Estoico ou estatístico
o amanhã também começa entorpecido
à espera da falta de tempo
que nos resta

Publicado em 11/8/20

Mais sobre o Programa Convida
Artistas e coletivos convidados pelo IMS desenvolvem projetos durante a quarentena. Conheça os participantes:

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