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Contraste

Edimilson de Almeida Pereira (MG)

Nascido em Juiz de Fora, é poeta, ensaísta e professor na Faculdade de Letras da UFJF. Publicou Entre Orfe(x)u e Exunouveau: análise de uma epistemologia de base afrodiaspórica na Literatura Brasileira (2017), Guelras (2017), E (2017), Poesia + antologia 2015-2019 (2019).

(Foto de Prisca Agustoni)

Confinamento

I. ANÚNCIO

A mão faz o gesto de girar a chave,
não arrasta mala ou sonho
em direção a outra paisagem.
Lá fora um rastro de espuma
entre arestas. Ninguém se arranha
no que ama, tudo se afasta
no campo. Algo com a saúde fóssil
burlou a divisa do município.
À revelia dos antúrios fechou estradas.
Ninguém entra, sair apenas
sob névoa e susto. Algo mineraliza
o contato e – insidioso incêndio –
percorre a casa dos pés à cabeça.
Lá fora, entre revistas indevidas
e devassas sem razão, explode
o que amadureceu seus esporos.

A mão insiste, arruma os cabelos,
puxa da gaveta o dia de ontem,
não há sopro, exceto pelos táxis
em relevo imaginado. Não se ouve
o tiro na vidraça, a compaixão
digitada, um negócio às custas
de alguém, o trator roendo o viaduto
– a feroz indústria. Algo se adivinha
no entanto, e detém o que havia antes.

 

¹ “Algo se adivinha”. Do poema homônimo de Iacyr Anderson Freitas. In: Oceano coligido. São Paulo: Viramundo, 2000, p. 98.

 

II. CONCHA

O que dizíamos (metáfora) agora
é bicho na parede, esterco, planta
adaptada à sombra –
intimidade ardente convertida em cera.
Agora é
ante a ignição cortada.
Agora é
vingança ao que havíamos recusado.
Opostos em tudo, tardios para a colheita
somos sob a grade fiera.
O que fizemos e se desfez é menor
que a macega.
Outra viagem sem valise se inicia:
não há território à vista,
mas e a floresta
o açude
subtraído às pupilas – essa orquídea
salva do saque
aterrando no teto em que morríamos?
E o rito liberto de nossa fome?
Quem se imaginara seguro no cofre
entre apólices,
vendendo a argila aos cascos,
está só e nada pode contra os resíduos
do próprio corpo.

O mundo dentro da casa inferniza
e acolhe – franja que é do ipê branco,
da horta
distante,
do magma anterior aos turistas.
O catre e o aparelho de emergência
provam
que sorrimos apesar de nós mesmos.
A metáfora se enflora
outra vez para o ato e a vertigem, outra
vez vencida quando se enuncia.
Outra, porém,
nessa hora
que não acaba quando termina.

III. VIA ESTREITA

Tua mão sobre as coisas busca a força
que por faltar
nos ajudou a chegar até aqui.
Acumulas retratos, certa página de jornal,
um osso,
a interna cor de um fruto,
algo além da casca que nos tornamos.
Em breve as rodoviárias
serão abertas
e os mercados,
a rota final para o Himalaia.
Iremos a Tânger
e Catas Altas da Noruega. O extremo
continente,
os canais conectados nos pulmões
nos tirarão de casa
e o risco terá outro nome:
– De onde vens? O que pretendes aqui?
Não há lugar, retorna ao barco,
ao teu país.
A mão já não faz um gesto, mas dança
em palavras¹ – o ar

lá fora

aqui dentro

conspira pela folhagem.

Lê-se enfim o aviso no corredor
(há sempre um – urgente)
: não era questão de sorte o remédio
nem de herança.
Quem não soterrou a cabeça flagra ainda
o sol sobre Dakar.

 

¹ “mas dança em palavras”. Fragmento de Arlindo Barbeitos. In: Angola angolê angolema. Lisboa: Sá da Costa, 1976, p. 70.

Publicado em 11/8/20

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