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Januário Garcia (RJ)

Nos últimos 40 anos tem fotografado afrodescendentes nas dimensões social, política e cultural de suas vidas no Brasil, em outros países da América do Sul e na África. Formado em Comunicação Visual pela International Cameraman School, atuou como presidente do IPCN – Instituto de Pesquisas das Culturas Negras, e é membro do Conselho Memorial Zumbi.

A anticomemoração de um centenário

Figuras centrais do ativismo e da formulação do pensamento antirracista brasileiro, Lélia Gonzalez e Abdias Nascimento foram fotografados diversas vezes por Januário Garcia, tanto em ambientes de luta e mobilização pública como de informalidade própria da amizade que nutriam.

Conheça um pouco das trajetórias de Abdias e Lélia.

Abdias Nascimento, 2004. Foto produzida para a exposição Passado e Presente.

ABDIAS NASCIMENTO

 

Abdias Nascimento (1914-2011), fundador do Teatro Experimental do Negro, é personagem central na formulação intelectual do movimento negro brasileiro. Foi teatrólogo, ator, artista plástico, curador, professor universitário, pesquisador, escritor e político. Nasceu em Franca, SP, filho de José Ferreira do Nascimento, sapateiro e músico, e de Georgina Ferreira do Nascimento, doceira.

Em 1929 completa a formação em contabilidade e alista-se no serviço militar, transferindo-se para São Paulo, capital. Ao longo da década de 30 integra a Frente Negra Brasileira (FNB). Colocava-se publicamente contra o recém instaurado Estado Novo e resistia energicamente no cotidiano à discriminação racial, o que acabaria resultando em sua expulsão do Exército. Para escapar da perseguição policial, transfere-se em 1936 para o Rio de Janeiro, então distrito federal. Trabalha como repórter freelancer na imprensa carioca e para o jornal do movimento integralista, ao qual chega a aderir brevemente. Cursa ciências econômicas na Universidade do Rio de Janeiro (atual UERJ). Nesta fase trava contatos que ele posteriormente consideraria fundamentais na sua trajetória: com o samba do morro da Mangueira, onde vive inicialmente, e com diversos artistas e com a religiosidade de matriz africana em Duque de Caxias, onde passa a morar. Consegue reingressar no Exército, onde faz curso para oficiais da reserva.

Por conta das agitações de protesto contra o Estado Novo, é sentenciado pelo Tribunal de Segurança Nacional e mandado para o presídio Frei Caneca; e, por consequência, novamente expulso do Exército. Consegue se formar graças ao apoio de colegas, no início de 1938. Ao sair da prisão segue para Campinas, convidado a participar da organização do Congresso Afro-Campineiro, que discutiu as relações raciais em Campinas, SP, cidade que ainda mantinha segregação racial no espaço público. De volta ao Rio, junta-se a um grupo de seis artistas, entre argentinos e brasileiros, apelidado de Santa Hermandad Orquídea. Com recursos próprios, partem em viagem de residência artística itinerante pela América do Sul.

Em Lima, assistem a uma montagem de O Imperador Jones, de Eugene O’Neill, que impactaria Abdias profundamente; o choque em ver atores brancos representando os personagens negros com black face marcaria em definitivo sua produção. Em Buenos Aires frequenta os ensaios do Teatro del Pueblo, companhia de teatro experimental responsável pela encenação vista em Lima, envolvendo-se intensamente com o objetivo de aprender na prática.

Parte do grupo da Hermandad volta ao Brasil pelo sul, e ao chegar a São Paulo, em 1941, Abdias é imediatamente detido. Havia sido condenado à revelia pelo envolvimento em quebra-quebra de um bar, ainda na sua temporada de morador fixo da cidade. A irregularidade da forma de acusação se mantém na pena: o alegado crime contra o patrimônio é suficiente para seu encarceramento por dois anos na Penitenciária do Carandiru. Ainda instigado pelo desejo de formar artistas negros, cria em 1943, com apoio do diretor do presídio, o coletivo de internos Teatro do Sentenciado.

Em 1944, no Rio de Janeiro, cria e assume como diretor o Teatro Experimental do Negro (TEN), grupo empenhado em conectar a luta pelos direitos de negras e negros à valorização da ancestralidade africana. Além da prática dramatúrgica e oficinas artísticas, o TEN oferecia diversos cursos de cultura geral e de conhecimentos básicos, incluindo alfabetização. Em maio de 1945 o TEM estreia com O imperador Jones. O Teatro Experimental do Negro seria decisivo para a história do teatro, mas também para a da representatividade de negros, no Brasil; arte e política eram vertentes indissociáveis na militância.

Já no momento de sua formação o TEN cria o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, inicialmente focado em reivindicar a libertação dos presos pelo regime do Estado Novo. O CDAF entendia que a restituição dos direitos fundamentais no país era condição primária da luta contra o racismo. Aberto a qualquer participação, passa a contar inclusive com jovens brancos ligados à União Nacional dos Estudantes (UNE), cuja sede era emprestada para atividades do TEN. Pressionado pela promulgação de eleições livres e de uma nova assembleia constituinte, o governo do presidente Getúlio Vargas acaba aprovando a anistia, ainda em 1945.

A vitória liberava Abdias e seus aliados para se dedicarem à razão de ser do Comitê, mas não sem oposição de seus próprios pares: a facção que se tornara majoritária discorda dos fundadores por defenderem pautas específicas do movimento negro, consideradas divisórias da causa operária, e a ala minoritária se vê obrigada a sair (o “CDAB sem negros” acabaria se dissolvendo pouco tempo depois). Como estratégia de fortalecimento, os membros do núcleo fundador se filiam ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), provocando a criação do Diretório Negro do PTB. Já nos seus primeiros cinco anos, o TEN organiza a Convenção Nacional do Negro (Rio e São Paulo, 45-46, em colaboração com a Frente Negra), que propôs à Constituinte de 1946 a tipificação da discriminação racial como crime de lesa-pátria; a Conferência Nacional do Negro (Rio, 1949), e o 1ºCongresso do Negro Brasileiro (Rio de Janeiro, 1950)¹. Promoveu ainda concursos de beleza, exposições e, até 1968, desenvolveu o projeto do Museu de Arte Negra.

Abdias passa a ser convidado para diversos congressos sobre cultura negra na África e nas Américas, estabelecendo intercâmbios com movimentos dos direitos civis nos Estados Unidos e de libertação africanos. Passa a filiar suas reflexões teóricas ao movimento intelectual do pan-africanismo. Em 1954 se lança candidato a vereador. Conclui o curso de sociologia no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) em 1956. Em 1962 concorre a vaga de deputado estadual.

Esteve à frente do TEN até 1968, quando o acirramento da ditadura militar torna impossível seu retorno de uma viagem aos EUA. Passaria 13 anos no exílio.

Entre 1969 e 1982, foi conferencista da School of Drama na Universidade de Yale; professor-visitante da Wesleyan Center of the Humanities; professor da Universidade do Estado de Nova York, em Buffalo, e diretor do Centro de Pesquisas e Estudos Porto-Riquenhos da instituição (1970-82); e professor-visitante da Universidade de Ifé, na Nigéria (1976-77). Sem nunca deixar de atuar no Brasil, participou da fundação do Movimento Negro Unificado contra o Racismo e Discriminação Racial (posteriormente Movimento Negro Unificado – MNU), em 1978; em 1980, do estabelecimento do Conselho Deliberativo do Memorial Zumbi e da fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT), criando o Movimento Negro PDT. Em 1981 é escolhido vice-presidente do partido. No mesmo ano cria o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), na PUC-SP. É neste período também que desenvolve uma carreira paralela de artista plástico e curador de arte, para a qual a temporada em solo norte-americano foi fundamental.

Em 1982 retorna definitivamente ao Brasil. Concorre à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro e obtém suplência da legenda, assumindo em seguida a vaga deixada por um deputado que é empossado secretário da administração Leonel Brizola, recém-eleito governador. A atuação legislativa de Abdias do Nascimento foi centrada na defesa sistemática dos direitos humanos e civis dos negros brasileiros, com foco na universalização do combate ao racismo. Propôs um feriado nacional no dia 20 de novembro, aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, e apresentou projeto de lei que previa a criação de uma cota de 20% de vagas para mulheres negras e 20% para homens negros na seleção ao serviço público. Iniciativas como estas tiveram repercussão nacional. A nova Constituição, promulgada em outubro de 1988, determinou a prática de racismo como crime inafiançável e, pela primeira vez, a demarcação das terras quilombolas. Abdias foi um dos responsáveis pelo estabelecimento da Comissão do Centenário da Abolição, que se desdobraria na Fundação Cultural Palmares.

Em 1991 ocupa a Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Negras-SEDEPRON (mais tarde denominada das Populações Afro-Brasileiras – SEAFRO) da gestão Brizola, reeleito governador. Mas já em agosto precisa deixar o cargo: como suplente de Darcy Ribeiro no Senado, assume a vaga de forma interina quando Darcy é convocado para ser secretário estadual especial em Brasília. Abdias Nascimento torna-se assim o primeiro senador afrodescendente brasileiro. A cerimônia de posse contou com a presença dos embaixadores de Nigéria, Angola, Senegal, Gana e Líbia, evidenciando a importância simbólica do momento.

Com a morte de Darcy em 97, assume o cargo em caráter definitivo, passando a integrar as comissões de Educação e de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Exerce o mandato até janeiro de 1999. Em fevereiro, assume como secretário de Direitos Humanos e da Cidadania no governo de Anthony Garotinho (1999-2002). Com a extinção da pasta no ano seguinte, preside provisoriamente o Conselho de Direitos Humanos e depois passa a se dedicar às atividades de escritor e pintor.

Faleceu no Rio de Janeiro em maio de 2011. Teve três filhos.

Abdias Nascimento é Doutor Honoris Causa da UERJ, das universidades Estadual e Federal da Bahia, da UNB e da Universidade Obafemi Awolowo em Ilé-Ifé, Nigéria. Recebeu do Centro Schomburg de Nova York o Prêmio da Herança Africana Mundial (junto de Katherine Dunham, Dorothy Height, Amadou-Mahtar M’Bow, Billy Taylor e Gordon Parks. 2001), da Unesco, o prêmio da categoria “Direitos Humanos e Cultura” (2003); o Prêmio Comemorativo da ONU por Serviços Relevantes em Direitos Humanos; em 2004, Ano Internacional de Celebração da Luta contraa Escravidão e de sua Abolição, em ocasião do Bicentenário da Revolução do Haiti, dividiu com Aimé Cesaire o prêmio da Unesco para intelectuais ativistas dedicados à luta contra o racismo. Completava então 90 anos de idade. Como homenagem, o Ipeafro produziu uma exposição retrospectiva de itinerância nacional e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe concedeu a Ordem do Rio Branco, a mais alta honraria outorgada pelo governo do Brasil.

É tema de uma biografia, Abdias do Nascimento (2009), escrita pela jornalista Sônia Almada.

 

¹ Os anais do 1º Congresso do Negro Brasileiro estão parcialmente publicados em “O Negro Revoltado”, de 1968 (2ª edição em 1982), com organização de Abdias Nascimento. Disponível em formato Issuu no acervo digital do Ipeafro.

 

Fontes

Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós-1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001.

Verbete Abdias Nascimento no banco de dados do CPDOC-FGV, por Daniela Cândido e Luís Otávio de Sousa.

Nascimento, Elisa Larkin. Grandes Vultos que Honraram o Senado - Abdias Nascimento. Editora do Senado Federal. Brasília, 2013-2014.

 

Visite:

Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros

Portal Geledés Instituto da Mulher Negra

Movimento Negro Unificado

Catálogo da Ocupação Abdias Nascimento, Itaú Cultural, São Paulo, 2016. Curadoria de Elisa Larkin Nascimento. Disponível para download em
https://issuu.com/itaucultural/docs/publicacao_ocupacaoabdias

Por conta das agitações de protesto contra o Estado Novo, é sentenciado pelo Tribunal de Segurança Nacional e mandado para o presídio Frei Caneca; e, por consequência, novamente expulso do Exército. Consegue se formar graças ao apoio de colegas, no início de 1938. Ao sair da prisão segue para Campinas, convidado a participar da organização do Congresso Afro-Campineiro, que discutiu as relações raciais em Campinas, SP, cidade que ainda mantinha segregação racial no espaço público. De volta ao Rio, junta-se a um grupo de seis artistas, entre argentinos e brasileiros, apelidado de Santa Hermandad Orquídea. Com recursos próprios, partem em viagem de residência artística itinerante pela América do Sul.

Em Lima, assistem a uma montagem de O Imperador Jones, de Eugene O’Neill, que impactaria Abdias profundamente; o choque em ver atores brancos representando os personagens negros com black face marcaria em definitivo sua produção. Em Buenos Aires frequenta os ensaios do Teatro del Pueblo, companhia de teatro experimental responsável pela encenação vista em Lima, envolvendo-se intensamente com o objetivo de aprender na prática.

Parte do grupo da Hermandad volta ao Brasil pelo sul, e ao chegar a São Paulo, em 1941, Abdias é imediatamente detido. Havia sido condenado à revelia pelo envolvimento em quebra-quebra de um bar, ainda na sua temporada de morador fixo da cidade. A irregularidade da forma de acusação se mantém na pena: o alegado crime contra o patrimônio é suficiente para seu encarceramento por dois anos na Penitenciária do Carandiru. Ainda instigado pelo desejo de formar artistas negros, cria em 1943, com apoio do diretor do presídio, o coletivo de internos Teatro do Sentenciado.

Em 1944, no Rio de Janeiro, cria e assume como diretor o Teatro Experimental do Negro (TEN), grupo empenhado em conectar a luta pelos direitos de negras e negros à valorização da ancestralidade africana. Além da prática dramatúrgica e oficinas artísticas, o TEN oferecia diversos cursos de cultura geral e de conhecimentos básicos, incluindo alfabetização. Em maio de 1945 o TEM estreia com O imperador Jones. O Teatro Experimental do Negro seria decisivo para a história do teatro, mas também para a da representatividade de negros, no Brasil; arte e política eram vertentes indissociáveis na militância.


Já no momento de sua formação o TEN cria o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, inicialmente focado em reivindicar a libertação dos presos pelo regime do Estado Novo. O CDAF entendia que a restituição dos direitos fundamentais no país era condição primária da luta contra o racismo. Aberto a qualquer participação, passa a contar inclusive com jovens brancos ligados à União Nacional dos Estudantes (UNE), cuja sede era emprestada para atividades do TEN. Pressionado pela promulgação de eleições livres e de uma nova assembleia constituinte, o governo do presidente Getúlio Vargas acaba aprovando a anistia, ainda em 1945.

A vitória liberava Abdias e seus aliados para se dedicarem à razão de ser do Comitê, mas não sem oposição de seus próprios pares: a facção que se tornara majoritária discorda dos fundadores por defenderem pautas específicas do movimento negro, consideradas divisórias da causa operária, e a ala minoritária se vê obrigada a sair (o “CDAB sem negros” acabaria se dissolvendo pouco tempo depois). Como estratégia de fortalecimento, os membros do núcleo fundador se filiam ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), provocando a criação do Diretório Negro do PTB. Já nos seus primeiros cinco anos, o TEN organiza a Convenção Nacional do Negro (Rio e São Paulo, 45-46, em colaboração com a Frente Negra), que propôs à Constituinte de 1946 a tipificação da discriminação racial como crime de lesa-pátria; a Conferência Nacional do Negro (Rio, 1949), e o 1ºCongresso do Negro Brasileiro (Rio de Janeiro, 1950)¹. Promoveu ainda concursos de beleza, exposições e, até 1968, desenvolveu o projeto do Museu de Arte Negra.

 

 

¹ Os anais do 1º Congresso do Negro Brasileiro estão parcialmente publicados em “O Negro Revoltado”, de 1968 (2ª edição em 1982), com organização de Abdias Nascimento. Disponível em formato Issuu no acervo digital do Ipeafro.

Abdias passa a ser convidado para diversos congressos sobre cultura negra na África e nas Américas, estabelecendo intercâmbios com movimentos dos direitos civis nos Estados Unidos e de libertação africanos. Passa a filiar suas reflexões teóricas ao movimento intelectual do pan-africanismo. Em 1954 se lança candidato a vereador. Conclui o curso de sociologia no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) em 1956. Em 1962 concorre a vaga de deputado estadual.

Esteve à frente do TEN até 1968, quando o acirramento da ditadura militar torna impossível seu retorno de uma viagem aos EUA. Passaria 13 anos no exílio.

Entre 1969 e 1982, foi conferencista da School of Drama na Universidade de Yale; professor-visitante da Wesleyan Center of the Humanities; professor da Universidade do Estado de Nova York, em Buffalo, e diretor do Centro de Pesquisas e Estudos Porto-Riquenhos da instituição (1970-82); e professor-visitante da Universidade de Ifé, na Nigéria (1976-77). Sem nunca deixar de atuar no Brasil, participou da fundação do Movimento Negro Unificado contra o Racismo e Discriminação Racial (posteriormente Movimento Negro Unificado – MNU), em 1978; em 1980, do estabelecimento do Conselho Deliberativo do Memorial Zumbi e da fundação do Partido Democrático Trabalhista (PDT), criando o Movimento Negro PDT. Em 1981 é escolhido vice-presidente do partido. No mesmo ano cria o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), na PUC-SP. É neste período também que desenvolve uma carreira paralela de artista plástico e curador de arte, para a qual a temporada em solo norte-americano foi fundamental.


Em 1982 retorna definitivamente ao Brasil. Concorre à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro e obtém suplência da legenda, assumindo em seguida a vaga deixada por um deputado que é empossado secretário da administração Leonel Brizola, recém-eleito governador. A atuação legislativa de Abdias do Nascimento foi centrada na defesa sistemática dos direitos humanos e civis dos negros brasileiros, com foco na universalização do combate ao racismo. Propôs um feriado nacional no dia 20 de novembro, aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, e apresentou projeto de lei que previa a criação de uma cota de 20% de vagas para mulheres negras e 20% para homens negros na seleção ao serviço público. Iniciativas como estas tiveram repercussão nacional. A nova Constituição, promulgada em outubro de 1988, determinou a prática de racismo como crime inafiançável e, pela primeira vez, a demarcação das terras quilombolas. Abdias foi um dos responsáveis pelo estabelecimento da Comissão do Centenário da Abolição, que se desdobraria na Fundação Cultural Palmares.

Em 1991 ocupa a Secretaria Extraordinária de Defesa e Promoção das Populações Negras-SEDEPRON (mais tarde denominada das Populações Afro-Brasileiras – SEAFRO) da gestão Brizola, reeleito governador. Mas já em agosto precisa deixar o cargo: como suplente de Darcy Ribeiro no Senado, assume a vaga de forma interina quando Darcy é convocado para ser secretário estadual especial em Brasília. Abdias Nascimento torna-se assim o primeiro senador afrodescendente brasileiro. A cerimônia de posse contou com a presença dos embaixadores de Nigéria, Angola, Senegal, Gana e Líbia, evidenciando a importância simbólica do momento.

Com a morte de Darcy em 97, assume o cargo em caráter definitivo, passando a integrar as comissões de Educação e de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Exerce o mandato até janeiro de 1999. Em fevereiro, assume como secretário de Direitos Humanos e da Cidadania no governo de Anthony Garotinho (1999-2002). Com a extinção da pasta no ano seguinte, preside provisoriamente o Conselho de Direitos Humanos e depois passa a se dedicar às atividades de escritor e pintor.

Faleceu no Rio de Janeiro em maio de 2011. Teve três filhos.

Abdias Nascimento é Doutor Honoris Causa da UERJ, das universidades Estadual e Federal da Bahia, da UNB e da Universidade Obafemi Awolowo em Ilé-Ifé, Nigéria. Recebeu do Centro Schomburg de Nova York o Prêmio da Herança Africana Mundial (junto de Katherine Dunham, Dorothy Height, Amadou-Mahtar M’Bow, Billy Taylor e Gordon Parks. 2001), da Unesco, o prêmio da categoria “Direitos Humanos e Cultura” (2003); o Prêmio Comemorativo da ONU por Serviços Relevantes em Direitos Humanos; em 2004, Ano Internacional de Celebração da Luta contraa Escravidão e de sua Abolição, em ocasião do Bicentenário da Revolução do Haiti, dividiu com Aimé Cesaire o prêmio da Unesco para intelectuais ativistas dedicados à luta contra o racismo. Completava então 90 anos de idade. Como homenagem, o Ipeafro produziu uma exposição retrospectiva de itinerância nacional e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe concedeu a Ordem do Rio Branco, a mais alta honraria outorgada pelo governo do Brasil.

É tema de uma biografia, Abdias do Nascimento (2009), escrita pela jornalista Sônia Almada.


Fontes

Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós-1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001.

Verbete Abdias Nascimento no banco de dados do CPDOC-FGV, por Daniela Cândido e Luís Otávio de Sousa.

Nascimento, Elisa Larkin. Grandes Vultos que Honraram o Senado - Abdias Nascimento. Editora do Senado Federal. Brasília, 2013-2014.

Visite:

Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros

Portal Geledés Instituto da Mulher Negra

Movimento Negro Unificado

Catálogo da Ocupação Abdias Nascimento, Itaú Cultural, São Paulo, 2016. Curadoria de Elisa Larkin Nascimento. Disponível para download em
https://issuu.com/itaucultural/docs/publicacao_ocupacaoabdias


Lélia Gonzalez no 1º Ato Público do MNUCDR no Rio. Cinelândia, 1978.

LÉLIA GONZALEZ

 

Por Raquel Barreto

 

Lélia Almeida (1935 - 1994) foi antropóloga, intelectual e ativista do movimento negro brasileiro. Nasceu em Belo Horizonte, em uma família grande com poucos recursos econômicos, composta por 13 filhos/filhas, sendo ela a penúltima. Seu pai, um homem negro, foi ferroviário. Sua mãe, de ascendência indígena, dedicou-se ao cuidado da família. Em 1942, seu irmão Jaime de Almeida, jogador de futebol, ingressou no Flamengo e trouxe a família para o Rio de Janeiro.

Lélia teve a oportunidade de estudar muito mais do que seus irmãos, o que não a isentou de precisar trabalhar, ainda muito nova, como babá. Graduou-se em História e Geografia em 1958, e em Filosofia em 1962, na antiga Universidade do Estado da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O sobrenome Gonzalez veio do casamento com Luiz Carlos Gonzalez, sobrenome que manteve após a viuvez. Foi professora universitária de instituições de ensino como a Pontifícia Universidade Católica do Rio.

Foi uma liderança do movimento negro, fundou e atuou no Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), no Movimento Negro Unificado (MNU), no Coletivo de Mulheres Negras N'Zinga. Integrou a primeira composição do Conselho Nacional de Direitos da Mulher, CNDM, entre 1985 e 1989. Foi do Partido dos Trabalhadores/PT, pelo qual foi candidata a deputada federal, em 1982. Depois filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista/PDT e por essa legenda candidatou-se a deputada estadual, em 1986. Autora de artigos, ensaios e livros, que abordaram temas como cultura popular, filosofia, psicanálise, história e arte. É teórica essencial e pioneira para a elaboração do pensamento feminista negro brasileiro.

Publicado em 18/1/21

Projeto realizado a convite da área de Fotografia e acompanhado por Sérgio Burgi, da equipe do IMS

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