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João Silvério Trevisan (SP)

Paulista de Ribeirão Bonito, nasceu em 1944. É jornalista, dramaturgo, tradutor. Comprometido com a defesa dos direitos dos homossexuais. Ganhador do Prêmio Jabuti por mais de uma vez e do Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

Mefisto tinha uma faca

 

No meio da multidão, a faca
Foi a notícia sensação da mídia mundial quando aquele braço se levantou em meio à euforia geral e a faca penetrou nos intestinos predestinados. O candidato João Faustino, vulgo J.F., urrou de dor. Sangue. Gritos de socorro. Corre corre. Estava traçado o caminho, como se fazia na antiguidade, quando os sacerdotes abriam e interpretavam, no altar da deusa, as tripas ainda quentes das vítimas. Um novo Mito brasileiro instaurava-se ali.

O pequeno imperador
O mito fáustico não se restringe aos fatos imediatos. É preciso remetê-lo às circunstâncias que o geraram. Desde criança, J.F. se estapeava com os irmãos, em busca do posto central, ele que era o filho do meio, apertado no sanduíche familiar de sete rebentos – e todos, inclusive o pai, o desprezavam por fracote. Fazia parte do seu sonho um pacto de coragem com o diabo, para alcançar o poder imperial que J.F. fantasiava desde então.

Nosso Mefisto entra em cena
No princípio, um bruxo excêntrico, de nome Ovo Curalho, postou nas redes sociais: “Tive um sonho: J.F. torna-se profeta da nova Moralidade da Gloriosa Tradição”. Levado até J.F., Ovocu – apelido carinhoso dado por seus discípulos – aprovou a ideia do pacto e se dispôs a negociar seus termos com o capeta. O oráculo decidiu: “Dá-me um rasgo nas tripas, e te darei o Poder”. Arranjou-se uma faca e um homenzinho de miolos fracos, chamado Mefistevo. Em troca de uma pensão vitalícia, ele seria o instrumento do Mefisto que consagraria J.F. num atentado público e o elevaria ao patamar de Nero moderno.

Como realizar a profecia
Mefistevo deveria usar a faca com moderação. Mas, segundo Ovo Curalho, satanás levava os pactos a sério e ordenou que a faca entrasse fundo, mesmo porque outros buracos sofriam graves interditos morais e físicos. J.F. quase experimentou um orgasmo ao receber nas tripas o objeto que o penetrou com um rasgo.

Finalmente, o grande poder
Favas contadas. Um vagalhão de comoção nacional elegeu o mártir patriota J.F. ao posto máximo da nação. Uma vez em seu trono, ele restaurou a patente de Marechal, sob a qual se fez nomear chefe do Poder Militar e Executivo.

Os intestinos impõem-se
J.F. passou a sofrer de prisão de ventre. Diziam que resultava de pânico anal, ou medo atávico de se abrir. Detestava demorar tanto sentado no vaso sanitário: “Se dependesse de mim, nem comia, pra não precisar cagar”. Em dias menos conturbados, arrotava laivos de filosofa barata: “Tem coisa mais idiota do que comer e cagar, todo santo dia? A vida não pode se desperdiçar na privada”.

A Faca Sagrada
O governo mandou construir um Museu que ilustrava a epopeia do Salvador da Pátria. A faca da consagração mereceu lugar de destaque, mas sem jogar luz sobre os bastidores O Marechal julgou que, com o passar dos anos, os detalhes do juramento deviam ser esquecidos. Para tanto, dispensou Ovo Curalho aos pontapés, alegando que o furo quase lhe custara a vida.

Tempos messiânicos
Desde que um psicanalista foi preso por escrever que J.F. sofria de C.P.P. (complexo de pau pequeno), o ensino e a prática de psicanálise foram banidos no país. Já a produção artística se reduziu a um realismo de teor patriótico-teocrático. Uma cançãozinha obscura do passado, que louvava a caneta Bic do presidente, ascendeu à condição mítica com seu único refrão: “Caneta azul, azul caneta”. Tornou-se quase um hino informal de J.F., precedendo seus eventos públicos, televisivos ou virtuais. Os colégios militares instituíram a moda da cor azul-caneta nas roupas masculinas, para diferenciar das moças, obrigadas a usar o famoso rosa-damares.

Tempos mefistofélicos #1
Em seus longos anos de presidente, J.F. cavou um buraco onde havia uma nação. A bancada governista se inflou, num Congresso composto majoritariamente por religiosos e policiais. O Mercosul se extinguiu. Argentina e Uruguai passaram à condição de “países não amigáveis”. Bolívia e Paraguai se tornaram estados associados ao território brasileiro. Várias nações mundo afora excluíram o Brasil de suas agendas econômicas e culturais. O Ministério da Educação se esvaiu. Inscritos na alçada do Ministério da Defesa, os colégios militares se replicaram de norte a sul. Nos primeiros dez anos do governo J.F., milícias policiais se acoitaram em cada estado e passaram a combater facções rivais vizinhas. O país viu-se à beira da guerra civil. Depois de reeleito para o quinto mandato consecutivo, o Marechal J.F. institucionalizou as milícias na condição de exército particular da presidência, gozando de disciplina hierárquica e soldos altíssimos.

Tempos mefistofélicos #2
Após anos de incêndios incessantes, as terras do Pantanal, da Amazônia e de outros biomas antes férteis se tornaram semidesertos, com secas quase permanentes. Os rios minguaram. Exauridas, as terras só produziam com trabalho redobrado, o que levou agricultores e pecuaristas a buscar terras férteis agora escassas, provocando lutas políticas acirradas. Conta-se que o Marechal J.F. quis fazer inspeção aérea e, deliciado ante a vastidão de pastos disponíveis, celebrou com uma festa a bordo, tocando sanfona.

Tempos de apocalipse
À boca pequena, a oposição perseguida apelidou J.F. de “três vezes meia”. O sentido remetia ao Apocalipse de João, que constava na mesma bíblia reverenciada por J.F., em que se narrava como, no final dos tempos, surgiria o Anticristo, chamado de Besta ou 666. Daí o cognome “três vezes meia”, que se popularizou.

A lombriga diabólica
No auge do poder como presidente, fazendeiro e empresário da indústria de armamentos bélicos, certo dia o Marechal levou um susto. Após esvaziar o difícil intestino, viu no vaso sanitário uma lombriga enorme como anaconda. Ficou perplexo quando a lombriga saiu de dentro do vaso, levantou voo, atravessou a janela e subiu aos céus, até se perder no infinito. J.F. ouviu uma gargalhada terrífica que ecoou por toda parte e lhe provocou calafrios. Suspeitando que tinha parido o capeta por via intestinal, ele foi tocado pela visão epifânica e caiu de joelhos, em adoração de corpo e alma. Quando o encontraram na posição catatônica, já não falava nem comia. Os médicos do Hospital Militar tentaram diferentes métodos para destravá-lo. Colegas exibiram-lhe os cem tipos de armamentos das suas fábricas. Nem assim J.F. se reanimou. Passados meses de vãs tentativas, uma comissão de notáveis decidiu metê-lo num manicômio, por decrepitude. Sem o título de Marechal.

Pacto rompido, fim súbito
Sem entender o incidente, políticos consultaram o então obscuro Ovo Curalho, que usava o pseudônimo de Novo Evo. Para surpresa geral, o bruxo revelou que a desgraça de J.F. foi ter dobrado os joelhos ao Anjo das Trevas. Quando da facada mítica, sua contrapartida no pacto consistia em jamais se ajoelhar perante nada nem ninguém, até o fim dos tempos.

Presente
No dia da morte de J.F., um inesperado carnaval levou o povo às ruas, dançando e cantando canções obscenas. No velório, um mistério: o corpo do ex-presidente estava sem a cabeça, nunca encontrada. Comentava-se que belzebu a levara consigo, para gozar eternamente no inferno. Em celebração, bandos de populares incendiaram seu museu. Pouco depois, o Tribunal de Justiça Ambiental das Nações condenou postumamente o Marechal J.F. por grave crime contra o planeta. Os noticiários de todo mundo repetiram contra ele o apelido “Besta do Apocalipse”.

Passado e futuro
Foi nos arquivos da extinta produtora Netfox que este escriba conheceu a mirabolante história de J.F., tema da série de terror Mefisto tinha uma faca, “baseada em fatos reais” de um período nefasto do século 21. Foram 15 temporadas de tanto sucesso que se criou um novo gênero: o filme-desastre KaKaKa, que provocava gargalhadas no público. Como isso aconteceu 50 anos atrás, a série caiu no esquecimento, tanto quanto a Netfox e o mítico Marechal João Faustino, vulgo J.F. Assim, no intuito de reavivar a memória do mundo atual, decidi contar esta saga de mais um tiranete com pretensões a grande ditador, que acabou na lata de lixo da História.

Publicado em 4/11/20

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