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Contraste

Mulambö (RJ)

Artista visual, vive em São Gonçalo. Trabalha a partir da restituição de potências, buscando a valorização de símbolos do existir suburbano no Rio de Janeiro. Explora pintura, objetos e a internet como plataforma de trabalho e, assim, faz arte para afirmar que não tem museu no mundo como a casa da nossa avó.

(Foto de Lucas Sá)

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Maria Carlota da Motta, minha vó

Corrente de retorno

mulambö

Quem diria né, que a saudade que quebra tanto a gente ia ser também o que nos faz ter força pra passar por isso. Porque ao mesmo tempo que ficamos pra baixo lembrando das coisas, são essas mesmas coisas que nos fazem seguir.

Esse trabalho é sobre olhar para trás para poder andar para frente.

Nesse período tão complexo em que vivemos, precisamos de alguns respiros. No meu caso, por exemplo, além de manter contato com quem eu amo, revisitar fotos antigas, ver desfiles de escola de samba, pegar um sol no quintal e um filminho de samurai de vez em quando – porque ninguém é de ferro né – é o que me dá força para entender que tudo isso vai passar, e digo mais, que tudo isso tem que passar porque eu preciso pegar uma praia e um churrasco lá no canto da Vila.

Lembrar desses momentos nos possibilita uma perspectiva de futuro. Um olhar pra frente que, por ser o que nos resta, é o que nos torna, sei lá, tipo criança.

Lembra quando tu era pequeno e escrevia de lápis ainda na escola e só queria escrever de caneta porque era mais maneiro? Sei lá, é meio assim que eu tô hahaha.

E essa vontade é o que tem me protegido, confesso. No trabalho ‘Corrente de retorno’ podemos ver isso através dos búzios que surgem a partir da relação com as máscaras de proteção que usamos agora pensando no futuro. Eles nos protegem através da ancestralidade, da família e da memória e nos leva ao ontem, ao hoje e ao amanhã.

E isso sempre nos protegeu – tivemos que aprender a nos reinventar e reaprender a desenvolver novas sociabilidades e criar laços desde que começaram a construir nessa terra uma nação em cima de nossas costas – e vai continuar protegendo.

A ancestralidade nos protege, assim como minha vó me protege e eu protejo a minha vó. Assim como protegemos nossas crianças e elas nos protegem – e perturbam também, né, não dá pra negar hahaha.

E é por aí que olhamos pra frente. Toda vez que levo as crianças na praia elas me contam do futuro. Nossos pés sabem mesmo é se firmar na areia e não no concreto, afinal… ser criança é meio que isso, né?

Tô com saudade, mas não tenho medo da corrente de retorno, porque nós somos o mar.


Banco de areia, meu pai


Um chinelo em um dia e o outro no outro, minha afilhada


Amanhã o mar deve subir, minha perspectiva


Um de cada, minha casa

O movimento de vai e vem ou Observatório de baleias
meu amor

Esse trabalho foi todo desenvolvido em conjunto com minha família pela internet.
Agradeço a minha Vovó Carlota e minha afilhada Juju pelas palavras, a Ana Bia pelo vídeo e todo suporte, a Biel pela ajuda com a carta de vovó e também a meu pai Julio, minhas tias Márcia e Lúcia, Carmem, Janine, minha prima linda Mariani e aos cagalhões Gianlucca, Luiz, Lipe, Yayá e Nicolau King pelos desenhos.

Obrigado.

Publicado em 11.5.2020

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Artistas e coletivos convidados pelo IMS desenvolvem projetos durante a quarentena. Conheça os participantes:

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