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Roda de samba do Bip Bip (RJ)

Apesar de seus 18m², o Bip Bip é um patrimônio da cidade do Rio de Janeiro em matéria de música, boemia e solidariedade. Inaugurado em 1968, foi adquirido por Alfredo Jacinto Melo em 1984, tornando-se ponto de encontro dos maiores nomes do samba carioca com as novas gerações. Com a morte de Alfredinho, em março de 2019, as rodas se mantiveram graças ao empenho de artistas e frequentadores.

Roda de Samba no Bip Bip - Album Completo
Roda de Samba no BIP BIP em Copacabana

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(Foto de Eduardo Sarmento)

Roda de samba do Bip Bip festeja os 90 anos de Mauro Duarte

O compositor Mauro Duarte é um caso clássico do samba: talento imenso, inspiração inesgotável e o nome bem menos conhecido do que os sambas que fez. Como “Lama”, “Meu sapato já furou” (com Elton Medeiros), “Menino Deus” e “Portela na avenida” (essas duas com Paulo Cesar Pinheiro), só para citar composições suas que estouraram na voz de Clara Nunes, nas décadas de 1970 e 80.

Assim como Clara, Mauro era mineiro. Nascido em Matias Barbosa (distrito de Juiz de Fora), em 1930, tinha seis anos quando chegou ao Rio de Janeiro, indo morar na Rua Marquês de Abrantes com os pais, D. Silvina e Seu João, motorista de profissão. Para ajudar em casa, precisou trabalhar desde cedo (como entregador de farmácia), assim como os irmãos – que eram, ao todo, 14.

Já adulto, trabalhou como ourives (com banca no Centro do Rio) e, depois, funcionário do Banco da Cidade do Rio de Janeiro. Mas foi nas horas vagas que se fez carioca honorário, nos botequins e blocos carnavalescos do bairro de Botafogo, como Foliões, Gaviões e o Estrela, entre outros. Compondo para eles, firmou-se entre os grandes sambistas do bairro, como Adélcio de Carvalho, Zorba Devagar e o grande amigo Walter Alfaiate.

Paulinho da Viola, que foi criado em Botafogo nas décadas de 1940 e 50, foi um que cresceu aprendendo a admirar Mauro, de quem se tornaria parceiro, nos sambas “Reclamação” e “Foi demais”. Coube a Paulinho gravar em 1970 o primeiro sucesso do amigo, “Lamentação”: “Meus olhos, água / Meu peito, mágoa / Minha boca vazia igual minhas mãos / E meus ouvidos cheios de lamentação...”

Parceiro mais constante de Mauro, o poeta Paulo Cesar Pinheiro é também um de seus maiores admiradores. No texto que escreveu para o programa impresso do show de lançamento do LP “Cristina e Mauro Duarte” (1985), definiu o amigo como “um dos quatro grandes do samba”, ao lado de Elton Medeiros, João Nogueira e Paulinho da Viola. O rosto redondo fez com que recebesse do cantor Cyro Monteiro o apelido de Mauro Bolacha, pelo qual ficaria conhecido no meio do samba.

Falecido em 1989 (vítima de câncer no fígado, aos 59 anos), seu legado segue vivo nas inúmeras regravações de sua obra, como no CD “O samba informal de Mauro Duarte”, feito em 2008 pela cantora Cristina Buarque com o grupo Samba de Fato, formado por Alfredo Del-Penho, Paulino Dias, Pedro Amorim e Pedro Miranda. O lançamento foi
com uma roda de samba numa simpática pracinha de Botafogo, localizada entre as ruas General Polidoro e São Manuel: a Praça Mauro Duarte.

Mas fica a seis quilômetros dali o local das maiores e mais frequentes homenagens a Mauro: o Bip Bip, tradicional botequim no bairro vizinho de Copacabana, conhecido como ponto de encontro de músicos – amadores e profissionais – que fazem uma das rodas de samba mais concorridas da cidade. Entre as tradições do bar diminuto (18m 2 ) está, por exemplo, o encerramento das noites musicais com o samba “A paixão e a jura”, parceria de Mauro com Paulo Cesar Pinheiro proclamada “o hino do Bip”.

O espírito do bar se completa com bandeiras políticas progressistas e o apoio financeiro a projetos sociais, entre outras paixões de seu dono, Alfredo Jacinto Melo, o Alfredinho – carioca da zona oeste (nascido em Santa Cruz, criado em Cosmos) que deixou pra trás a vida profissional no mercado de câmbio para, em 1984, comprar o Bip Bip, que já existia desde 1968 e era famoso pelas batidas que servia. Só no fim da década de 80 o chamariz passou a ser o samba, com as primeiras reuniões musicais lideradas pelos já citados Cristina Buarque (então vizinha do bar) e Elton Medeiros, além do grupo Dobrando a Esquina, entre outros músicos.

As rodas de samba e choro se consolidaram no botequim do Alfredo e, se o amigo Mauro Duarte não viveu a tempo de participar delas, seus filhos logo marcaram presença: Eliane, Márcia, Maurinho e Marquinhos. Como eles, outros se chegaram à confraria boêmia que se formou no Bip Bip, onde os músicos sempre tocaram de graça e contaram com o dono do bar para garantir (ou pelo menos tentar) o silêncio no ambiente, nem que para isso ele precisasse espinafrar os fregueses com os palavrões mais cabeludos. “Vocês querem me f...?!”, bradava o carismático barbudinho – católico fervoroso, socialista convicto e, assim como Mauro, botafoguense de coração.

A morte de Alfredo, aos 75 anos, em pleno carnaval de 2019, resultou numa das cerimônias de despedida mais inusitadas e memoráveis de que se tem notícia. Depois de ser velado no próprio botequim, com uma grande roda de samba, o corpo seguiu para o Cemitério São João Batista, onde foi levado à sepultura pelos apaixonados frequentadores do bar – muitos deles fantasiados – num cortejo ao som de sambas e marchinhas de carnaval.

Como não poderia deixar de ser, o Bip Bip continuou aberto (comandado pelo argentino Matias Bidart, braço-direito de Alfredo), permanecendo com a programação musical e o apoio a projetos sociais. De porta arriada desde o início da pandemia do coronavírus, mesmo assim o botequim seguiu em atividade: o caixa foi socorrido por uma campanha de financiamento coletivo organizada pelos amigos. Já o samba, o choro e as homenagens a grandes nomes da música brasileira – outra tradição do bar – continuam à toda no Instagram, através do perfil @rodadobip, que recebe canjas dos frequentadores nas noites de segunda, quinta e sexta-feira.

Assim, nada mais natural que, para comemorar os 90 anos de nascimento de Mauro Duarte (completados em 2 de junho de 2020), a roda de samba do Bip Bip se reunisse de maneira virtual como uma das atrações do Programa Convida – criado pelo IMS como uma forma de fomento à criação artística em tempos de quarentena.

O resultado foram duas gravações emocionantes capitaneadas pelos violonistas Tiago Prata (que idealizou e dirigiu os vídeos) e Maurício Massunaga (que fez a direção musical), ambos responsáveis pela convocação aos discípulos de Alfredinho e Mauro Duarte. Outra figura fundamental nos trabalhos foi o jornalista – e também violonista – Pablo Carrilho, responsável pela edição dos vídeos.

O primeiro deles traz a roda de samba do Bip Bip interpretando dois sambas de Bolacha recorrentes no repertório do botequim: “Reserva de domínio” (parceria dele com Paulo Cesar Pinheiro) e “Sorri de mim” (com Walter Alfaiate).

No segundo vídeo, os violões de Tiago Prata e Maurício Massunaga se juntam ao tamborim de Marco Basílio para acompanhar Cristina Buarque – diretamente da ilha de Paquetá – na interpretação do samba “A paixão e a jura” (Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro), o hino do Bip Bip, encerrando esta homenagem, como nas noites do bar do Alfredinho.

* Pedro Paulo Malta é jornalista, cantor e pesquisador musical, editor do site Discografia Brasileira, do IMS.

Publicado em 24/8/20

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