A fotografia através das ciências humanas

Curso

4 aulas com Lilia Moritz Schwarcz

Parte de Histórias da fotografia II

Quando

4, 5, 25 e 26 de setembro de 2018
Terças e ​​quartas, das 19h às 21h.

Vagas esgotadas

Ainda é possível colocar o nome na lista de espera.

IMS Rio

Rua Marquês de São Vicente, 476
Gávea – Rio de Janeiro - RJ

Retrato de três índios com cocar e arco e flechas, São Paulo, c. 1905. Vincenzo Pastore/Acervo IMS.

Sobre o curso

O objetivo deste curso é mostrar como as ciências humanas – antropologia, história e sociologia – podem entender a fotografia não como um produto do seu contexto, mas como produtora de imagens, representações e hábitos. Se, por muito tempo, representações visuais foram entendidas como ilustrações ou anexos, neste programa objetiva-se tirá-las do segundo plano para que ganhem o papel de protagonistas. Fotografias comportam-se como documentos poderosos que, muitas vezes, ajudam a construir a realidade que pretendem apenas reproduzir.


Inscrição

Inscrições até a primeira aula.

4 aulas, R$ 200. Vendas pelo Eventbrite.
50% de desconto para estudantes, professores e maiores de 60 anos.


Sobre Lilia Moritz Schwarcz

Professora de antropologia na USP e curadora adjunta do Masp. Organizou exposições como Um olhar sobre o Brasil (com Boris Kossoy) e Histórias mestiças (com Adriano Pedrosa), ambas no Instituto Tomie Ohtake. É autora de Brasil: uma biografia (com Heloisa Starling) e Lima Barreto: triste visionário, entre outros.


Programa

1) O intervalo da foto e seus fantasmas
Vários especialistas têm mostrado como existe uma diferença importante entre a pintura e a fotografia. No caso da pintura, toda representação visual é basicamente controlada pelo artista. Já no exemplo da fotografia, há sempre a possibilidade da agência dos “modelos”, os quais, no pequeno hiato entre a ordem do profissional e o clichê da máquina, podem “negociar" e agenciar o seu lugar. Explorar essa especificidade da fotografia e vinculá-la a seus contextos históricos, sociais e políticos são os objetivos desta primeira aula.

2) Séries e repetições
O antropólogo Franz Boas afirmou que “o olho que vê é órgão da tradição”. Somos todos, pois, e de maneiras diferentes, míopes culturais; vemos a partir de certas convenções, as quais delimitam e condicionam as nossas percepções. E nada mais exemplar do que analisar séries e reiterações de cenas fotográficas – amas de leites, escravizados transportando em seus corpos seges e liteiras, a exposição dos corpos de vendedoras, carregadores, meninos de recado afro-brasileiros e escravizados – que não respondem à lógica da mera coincidência. Na insistência elas conformam verdadeiras retóricas do olhar. Pensar nas pretensas repetições fotográficas e problematizá-las é a meta desta segunda seção.

3) A fotografia nasceu para mentir (e assim dizer a verdade)
Desde o seu início, em meados do século XIX, a técnica da fotografia revelou sua capacidade de reproduzir mas também de recriar. Documentos visuais que se apresentam teoricamente como produtos, retratos “verdadeiros” da realidade, muitas vezes cumprem o papel de produzir costumes, conceitos e estereótipos. Nessa aula, vamos observar algumas “trucagens” da fotografia, que sempre soube fazer da noite o dia, da tensão uma grande tranquilidade, do desequilíbrio social uma tremenda paz.

4) Fotografia e nacionalidade: o monarca e o presidente
Imagens mostraram-se fundamentais na construção de “comunidades de imaginação” e na produção de projetos de identidade nacional. No Brasil, dois elementos destacaram-se: a natureza e “seus naturais”. Porém, enquanto a paisagem foi sempre idealizada e eternamente tropical, já seus “naturais” demandavam atenção e apareciam em documentos científicos e policiais. Mas falta outro elemento nesta história fotográfica da nacionalidade: o chefe de Estado. Desde Pedro II (que gostava de se definir como o primeiro imperador fotógrafo) até os presidentes Vargas, Juscelino Kubitscheck ou mesmo, mais recentemente, FHC, Lula e Dilma, nossos representantes políticos fizeram uso da técnica, e de maneira crescente. Não por acaso, passamos a “enquadrar” as nossas imagens pessoais e a lembrar por meio de fotografias.