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O cinema de Larisa Shepitko

IMS Paulista, agosto a setembro de 2026

O Cinema do IMS em São Paulo apresenta em agosto e setembro uma seleção especial da obra de Larisa Shepitko, cineasta de origem ucraniana-soviética. Esta mostra é parte do projeto Mulheres Pioneiras do Cinema.

Shepitko estudou no VGIK, primeira e mais antiga escola de cinema do mundo, na Rússia, onde foi aluna de Alexander Dovzhenko. Desde seus primeiros filmes deixou marcas incontornáveis no cinema soviético do pós-guerra, com abordagens críticas do conflito armado, de estereótipos de gênero e questões sociais, chegando a enfrentar problemas com a censura estatal.

Asas, seu segundo longa-metragem, trata de uma ex-pilota de guerra lutando para se readaptar à vida civil. O filme, hoje considerado uma de suas obras mais importantes, gerou controvérsia na URSS por sua leitura pouco convencional do heroísmo bélico e acabou tendo a circulação restrita pouco depois da estreia. Com A ascensão, que acompanha dois soldados soviéticos capturados por tropas alemãs na Bielorrússia ocupada, Shepitko ganharia reconhecimento mundial. O filme recebeu o Urso de Ouro, principal prêmio do Festival de Berlim, em 1977.

Os dois filmes serão exibidos em cópias restauradas nesta mostra, que também apresenta outras obras da diretora além de dois filmes do cineasta Elem Klimov, seu marido. São elas Larisa, curta-metragem em homenagem a Shepitko, e A despedida. Este último, uma adaptação do romance Adeus a Matyora, de Valentin Rasputin, era originalmente um projeto de Shepitko que seria levado a cabo por Klimov após sua morte. Shepitko morreu aos 41 anos, em um acidente de carro durante a pré-produção do filme.

 

Blog do Cinema:
O indivíduo e a coletividade, figura e fundo. Texto-tributo para Larisa Shepitko, por Lúcia Monteiro ►

Cena de Larisa, de Elem Klimov

Teaser

Filmes


Você e eu

Ty i ya
Larisa Shepitko | URSS | 1971, 91’, DCP (Mosfilm/CPC-UMES Filmes), restauração 4K | Classificação indicativa: 14 anos

Pyotr e Sasha, dois jovens e talentosos neurocirurgiões, iniciam a carreira profissional juntos, mas Pyotr decide se mudar para a Suécia em busca de uma oportunidade de trabalho. Anos depois, seu retorno a Moscou é repleto de desencontros e frustrações, e ele acaba aceitando um emprego em uma parte remota da Sibéria.

Obra singular na filmografia de Shepitko, é seu primeiro longa-metragem em cores. Exibido na seleção oficial do 33º Festival de Veneza, em 1972, o filme aposta em uma estrutura elíptica e não linear para traçar a jornada de seus protagonistas.

 

Programação

IMS Paulista
8/9, terça, 19h40
19/9, sábado, 18h20


A ascensão

Voskhozhdenie
Larisa Shepitko | URSS | 1977, 109’, DCP (Mosfilm/CPC-UMES Filmes), restauração 4K | Classificação indicativa: 14 anos

Na Bielorrússia ocupada pelos nazistas, no inverno de 1942, dois partisans soviéticos – Sotnikov, jovem e debilitado, e Rybak, mais forte e experiente – saem em busca de suprimentos para sustentar o grupo. Capturados, interrogados e torturados por soldados alemães e colaboracionistas, os dois enfrentam dilemas morais e existenciais extremos, sendo levados a escolher entre a morte e a traição como única forma de sobrevivência.

Adaptado do romance Sotnikov, do escritor Vasil Bykov e filmado em condições de inverno extremas, este foi o último filme que Shepitko pôde finalizar em vida. Reconhecido como uma de suas obras mais célebres, A ascensão ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1977. Shepitko, que retornaria a Berlim no ano seguinte como integrante do júri, consagrou-se como a segunda cineasta mulher a ser reconhecida com o prêmio principal de Berlim, após a vitória da húngara Márta Mészáros em 1975.

Em um ensaio de 2002, publicado na revista The New Yorker, a filósofa e ensaísta Susan Sontag reflete sobre representações da guerra e sua capacidade de sensibilização moral e política: “Existe um antídoto para a eterna sedução da guerra? E esta é uma pergunta que uma mulher teria mais probabilidade de fazer do que um homem? (Provavelmente, sim.) Seria possível ser mobilizado ativamente contra a guerra por uma imagem (ou por um conjunto de imagens), assim como alguém pode se tornar um opositor da pena de morte ao ler, por exemplo, Uma tragédia americana, de Dreiser, ou A execução de Troppmann, de Turguêniev, um relato de uma noite passada com um criminoso notório que está prestes a ser guilhotinado? Uma narrativa parece ter mais chances de ser eficaz do que uma imagem. Em parte, trata-se de uma questão de quanto tempo somos obrigados a olhar e a sentir. Nenhuma fotografia, nem mesmo um conjunto de fotografias, consegue se desenrolar, avançar e avançar ainda mais, como faz A ascensão (1977), da diretora ucraniana Larisa Shepitko – o filme mais comovente sobre o horror da guerra que conheço.”

[O ensaio “Looking at War”, de Sontag, pode ser lido, em inglês, em tinyurl.com/ascensaoims]

 

Programação

IMS Paulista
12/9, sábado, 17h30
22/9, terça, 19h30


A despedida

Proshchanie
Larisa Shepitko e Elem Klimov | URSS | 1981, 121’, DCP (Mosfilm/CPC-UMES Filmes), restauração 4K | Classificação indicativa: 14 anos

Devido à construção de uma usina hidrelétrica, o vilarejo siberiano de Matiora terá que ser inundado pelo rio Angara, que o cerca. Todos os moradores do local devem ser transferidos para um novo assentamento urbano, mas, para a geração mais velha, a separação de sua terra natal é trágica.

Baseado no romance Adeus a Matiora, de Valentin Rasputin, clássico da prosa rural russa, este é um projeto inacabado de Larisa Shepitko. Em 1979, com 41 anos, a diretora realizava uma visita a locações para o filme quando sofreu um acidente de carro e faleceu junto a membros da equipe. O cineasta Elem Klimov, viúvo de Shepitko e um dos responsáveis pela preservação e difusão de sua obra, assumiu o projeto.

“Temos que ter em mente que os pensamentos e as ideias originais sobre a realização de A despedida pertenciam a Larisa e a seus amigos. Portanto, depois da morte deles, [...] esses pensamentos e essas ideias desapareceram com eles”, contou Klimov em entrevista a Ron Holloway para a revista Kinema, em 2008. “E foi por isso que tivemos que começar do zero. Precisávamos fazer um filme em um espaço de tempo muito curto e limitado. Tivemos que modificar o roteiro e escolher um novo estilo. Isso sem mencionar que eu estava realizando reuniões com o diretor de fotografia e o designer de produção enquanto lidava com o estresse provocado pela morte da minha esposa.”

“De qualquer maneira, tudo o que mencionei afetou a qualidade do filme. E sou muito crítico em relação a ele. Assim como tenho certeza de que, se Larisa tivesse feito A despedida, o filme teria se mostrado muito mais interessante. [...] No fim, não fomos capazes de fazer mais do que fizemos. E acho que fizemos a coisa certa ao dedicar este filme, como uma lembrança, aos queridos amigos que perdemos, ao mesmo tempo que nos voltávamos para os problemas discutidos e descritos por Valentin Rasputin em seu romance.”

A despedida – ao que tudo indica pela forma como retratava a questão ambiental – teve sua circulação sabotada pelas autoridades cinematográficas soviéticas, que recusaram um convite para inscrevê-lo no Festival de Cannes, e negaram a licença de exportação para que ele fosse exibido no Festival de Berlim, em 1984. Somente três anos depois, já no processo de abertura política de Gorbachev, e com Klimov como presidente do Sindicato dos Cineastas Soviéticos, o longa foi exibido em Berlim.

[Íntegra da entrevista de Klimov, em inglês: tinyurl.com/elemdespedida]

 

Programação

IMS Paulista
15/9, terça, 19h40
26/9, sábado, 17h30


Programação

IMS PAULISTA

8/9/2026, terça
18h40 - Você e eu

12/9/2026, sábado
17h30 - A ascensão

15/9/2026, terça
19h40 - A despedida

19/9/2026, sábado
18h20 - Você e eu

22/9/2026, terça
19h30 - A ascensão

26/9/2026, sábado
17h30 - A despedida

Filmes anteriores

Asas
Krylya
Larisa Shepitko | URSS | 1966, 85’, DCP (Mosfilm/CPC-UMES Filmes), restauração 4K | Classificação indicativa: 14 anos

Nadezhda Petrukhina, ex-piloto de caça na Segunda Guerra Mundial, luta para se adaptar à nova vida em tempos de paz. Agora diretora de uma escola técnica, Petrukhina tem que lidar com as questões comportamentais dos jovens estudantes e a desconexão com a sua filha. Nesse processo, a vontade de voltar a voar sempre vem à tona.

Controverso à época por apontar fissuras no imaginário dos heróis de guerra, Asas foi retirado de circulação pouco após suas primeiras exibições. Hoje é considerado um dos pontos altos do cinema soviético dos anos 1960. O filme também foi amplamente elogiado pela interpretação de Maya Bulgakova, na forma como capta a melancolia da protagonista.

Em entrevista à Bavarian Television em 1978, veiculada na TV Russa em 1999 e intitulada “Uma conversa com Larisa”, Shepitko aborda o conflito de sua personagem: “ela era incapaz de viver sua vida sem seguir sua vocação, sem usar seu dom. E como uma personalidade forte, ela consegue sentir o quanto sua existência é antinatural. Mas essa percepção veio tarde demais. A tensão dramática desse filme está justamente no fato de que ela descobre essa verdade num momento crítico da vida dela. E há uma espécie de graça nisso. Talvez seja tarde. Mas ela chegou a descobrir. É por isso que ainda é uma graça. Porque existem milhões de pessoas que descobrem essa verdade essencial e dramática sobre si mesmas – que não viveram a própria vida –, mas descobrem tarde demais. E milhões de pessoas nunca sequer chegam perto dessa percepção. Elas morrem sem terem vivido a própria vida, sem fazer ideia para que vieram ao mundo e por que viveram suas vidas”.

 

Programação

IMS Paulista
6/8, quinta, 19h30
22/8, sábado, 17h


Larisa + A pátria da eletricidade

Classificação indicativa da sessão: 14 anos

 

Larisa
Larisa
Elem Klimov | URSS | 1980, 21’, DCP (Mosfilm/CPC-UMES Filmes) | Classificação indicativa: 14 anos

Tributo a Larisa Shepitko, que teve sua vida abruptamente interrompida aos 41 anos, em um desastre de automóvel que também matou quatro membros de sua equipe técnica, durante a produção de um filme. Dirigido por seu marido e também cineasta Elem Klimov, o curta apresenta trechos de todos os filmes da diretora, além de comentários dela em entrevistas.

 

A pátria da eletricidade
Rodina Elektrichestva
Larisa Shepitko | URSS | 1967, 38’, DCP (Mosfilm/CPC-UMES Filmes) | Classificação indicativa: 14 anos

Região do Volga, 1921. Quando a seca e a fome assolam um pequeno vilarejo, um jovem engenheiro tenta transformar uma motocicleta em uma bomba d'água para ajudar a população local.

A pátria da eletricidade é um média-metragem de cerca de 40 minutos, adaptado de um conto de Andrei Platonov. Foi feito como um dos episódios de Nachalo Nevedomogo Veka (O início de uma era desconhecida), um filme em episódios concebido para comemorar os 50 anos da Revolução de Outubro que reunia diretores recém-formados no VGIK – entre eles Andrei Smirnov e Genrikh Gabai. Companheiro de Shepitko, Elem Klimov chegou a ser considerado como um dos diretores, mas seu segmento não foi aprovado para produção.

Os segmentos de Shepitko e Smirnov foram barrados pela censura antes mesmo de chegar ao público e passariam 20 anos engavetados. Apenas o episódio de Gabai – hoje ironicamente dado como perdido – foi liberado para circulação. Foi com a ajuda de Elem Klimov, então viúvo de Shepitko e Primeiro Secretário da União dos Cineastas Soviéticos, que o filme finalmente estreou em 1987, no Festival de Moscou.

 

Programação

IMS Paulista
15/8, sábado, 19h
27/8, quinta, 20h


Programações anteriores

IMS PAULISTA

6/8/2026, quinta
19h30 - Asas

15/8/2026, sábado
19h - Larisa + A pátria da eletricidade

22/8/2026, sábado
17h - Asas

27/8/2026, quinta
20h - Larisa + A pátria da eletricidade


Ingressos

Vendas
Os ingressos do cinema podem ser adquiridos online ou na bilheteria do centro cultural, mais informações abaixo.

Meia-entrada
Com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência, portadores de Identidade Jovem e maiores de 60 anos.

Cliente Itaú
Desconto de 50% para o titular ao comprar o ingresso com o cartão Itaú (crédito ou débito). Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.

Devolução de ingressos
Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site.


IMS Paulista

Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
Bilheteria: de terça a domingo, das 12h até o início da última sessão de cinema do dia, na Praça, no 5º andar.

Os ingressos para as sessões são vendidos na recepção do IMS Paulista e pelo site ingresso.com. A venda é mensal e os ingressos são liberados no primeiro dia de cada mês.