Idioma EN
Contraste

Ocupação Eduardo Coutinho

IMS Poços, outubro de 2025 a fevereiro de 2026

A exposição Ocupação Eduardo Coutinho, com curadoria de Carlos Alberto Mattos e da equipe Itaú Cultural, apresenta a trajetória de Eduardo Coutinho, sua obra e seu processo de criação. Um rico material audiovisual, somado a documentos, objetos e fotografias de seu acervo pessoal e de amigos e colegas de profissão, ajuda a conhecer e relembrar o cineasta. Concebida e apresentada pelo Itaú Cultural em São Paulo, a mostra esteve em cartaz no IMS Rio, e agora chega a Poços de Caldas, onde ganha uma nova expografia e uma programação de atividades paralelas.

Durante todo o período da exposição, o Cinema do IMS apresenta uma seleção de filmes do diretor, junto a textos críticos e outras atividades, em uma programação realizada em parceria com a VideoFilmes e o CECIP.

Parcerias:

Cena de As canções, de Eduardo Coutinho

Filmes


Filmes de fevereiro


Mulheres no front

Eduardo Coutinho | Brasil | 1996, 35’, Arquivo digital (CECIP) | Classificação indicativa: 14 anos

Ainda muito pouco exibido dentro da filmografia de Coutinho, esse belo filme aborda três histórias próximas na luta de mulheres, mas distantes no espaço geográfico: a Associação de Moradores de Jardim Uchôa, no Recife; a Associação de Moradores de Rancho Fundo, Rio de Janeiro; o grupo de Promotoras Legais Populares, em Bom Jesus, Porto Alegre.

Mulheres no front foi realizado para a FNUAP/Unicef/Unifem, exibido na Conferência Habitat II, em Istambul, 1996.

 

Programação

IMS Poços
1/2, domingo, 16h


Cabra marcado para morrer

Eduardo Coutinho | Brasil | 1962-1984, 119’, DCP (Cinemateca Brasileira), restauração 2K | Classificação indicativa: 12 anos

Em matéria de 1985 para o Jornal do Brasil, Roberto Mello escreveu: “As filmagens começaram em fevereiro de 1964. Coutinho pretendia contar a história de João Pedro Teixeira, líder da liga camponesa de Sapé, na Paraíba, assassinado em 1962. Não queria atores profissionais: que os personagens fossem interpretados pelos próprios camponeses. Dezessete anos depois, Coutinho volta à região, consegue encontrar Elizabeth e, através do filho mais velho, Abraão, investiga o destino dos outros dez filhos e de todos os envolvidos no projeto. Ele exibe os originais filmados há tanto tempo, os camponeses se alegram com seus rostos, mais jovens, vivem a emoção do reconhecimento e o jogo de identificações. Vinte anos depois, Coutinho conclui seu filme, um épico contado com clareza, paciência e perseverança, por alguém que confia no trabalho e nos dias. Uma experiência original na cinematografia brasileira”.

Eduardo Coutinho marcou a história do cinema de não ficção com o lançamento de Cabra marcado para morrer. Passados mais de 40 anos do lançamento do Cabra, o filme de Coutinho poderá ser revisto no cinema em cópia restaurada.

Em 2022, o Instituto Moreira Salles lançou um ebook de acesso gratuito com o roteiro original de Cabra marcado para morrer, digitalizado a partir de uma fotocópia do datiloscrito de 1964, com anotações do cineasta. A obra foi organizada por Carlos Alberto Mattos, também autor de um ensaio crítico que acompanha a publicação.

Livro O primeiro cabra, de Eduardo Coutinho ►

 

Programação

IMS Poços
7/2, sábado, 16h


Santo forte

Eduardo Coutinho | Brasil | 1999, 90’, Arquivo digital (CECIP) | Classificação indicativa: 12 anos

Em 5 de outubro de 1997, durante a visita do papa João Paulo II, uma equipe de cinema visita a favela Vila Parque da Cidade, situada na Gávea, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os moradores assistem à missa celebrada pelo pontífice no aterro do Flamengo. Em dezembro, a equipe volta à favela para descobrir como seus moradores vivem a experiência religiosa. Católicos, umbandistas ou evangélicos, todos eles têm em comum a crença numa comunicação direta com o mundo espiritual através da intervenção, em seu cotidiano, de santos, orixás, guias ou do Espírito Santo.

Em uma entrevista a Valéria Macedo, originalmente publicada na revista Sexta Feira, em abril de 1998, Coutinho descreve o plano para o seu próximo filme. Mais tarde, seria conhecido pelo diretor como um marco na sua carreira, um momento definidor do tipo de documentário pelos quais ficaria conhecido. Na entrevista de 1998, Coutinho diz: “Para mim o que interessa é fazer filme de conversação. Minha vontade agora é fazer um filme que tenha uma hora e meia de duração, 100 horas filmadas em vídeo, sobre religião no Brasil. Vou pegar uma favela de 2.000 pessoas. Tem uma antropóloga que está fazendo uma pesquisa sobre esse tema numa favela do Rio. O que há no Brasil é uma luta de santos de que ninguém conhece a dimensão, pelo menos no cinema. Em cada momento da vida, está presente o mágico, cada ato tem significado. São histórias extraordinárias. Não me interessa filmar os rituais afros, os caras matando animais, só a fala me interessa, a narração das experiências. Falar de religião, você acaba entrelaçando histórias de família, sexo etc. E você descobre a coerência daquelas pessoas, elas não são loucas. E pessoas de religiões diferentes, você vai ver, são pai, filha. Só me interessa trabalhar no micro e ir até o fim. Se não, pode ficar uma coisa um pouco estéril e superficial: ‘O mosaico do Brasil’. E gosto de trabalhar no singular, não procurar o caso típico. Eu sou apaixonado por esse caráter obsessivo da fala, dos santos, e queria que fosse um filme tão obsessivo quanto é o pensamento deles”.

 

Programação

IMS Poços
7/2, sábado, 18h30


Edifício Master

Eduardo Coutinho | Brasil | 2002, 110’, Arquivo digital (VideoFilmes) | Classificação indicativa: Livre

Durante uma semana, Eduardo Coutinho e sua equipe conversaram com 27 moradores de um enorme edifício de apartamentos em Copacabana. Entre eles, um casal de meia-idade que se conheceu pelos classificados de um jornal, uma garota de programa que sustenta a filha e a irmã, um ator aposentado, um ex-jogador de futebol e um porteiro desconfiado de que o pai adotivo, com quem sonha toda noite, é seu pai verdadeiro.

Uma oportunidade de assistir a um dos grandes documentários da carreira de Eduardo Coutinho. Em 2002, o filme recebeu o Kikito de Ouro de Melhor Documentário no Festival de Gramado e o Prêmio de Melhor Documentário pela crítica da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em entrevista a Ruy Gardnier, Eduardo Valente e Cleber Eduardo para a revista Contracampo, Coutinho relata:

“O filme nasceu da ideia da Consuelo Lins, que trabalha comigo, de fazer um filme sobre um prédio em Copacabana. Eu então roubei a ideia, com o consentimento dela, porque me interessava filmar em um universo com limites claros. Não queria fazer filme sobre a classe média, mas sobre um universo que não se conhece. Tinha de ser em prédio grande, de apartamentos conjugados e com perfil familiar, caso contrário inviabilizaria a filmagem. O desafio seria extrair um material interessante de pessoas normais. É muito mais fácil fazer um filme sobre marginais que sobre pessoas de classe média”.

“No caso do Master, achei que ia me lascar. As experiências de vida eram menos fortes, as pessoas eram mais fechadas, a narrativa das experiências era menos rica. Eu precisaria de muitos personagens para dar um filme. Não haveria relatos extraordinários. A diversidade de experiências é que seria essencial naquele universo. Tinha de ser um filme longo, de quase duas horas, com 27 apartamentos. Cortamos 10. Também não podia ter eixo temático, ao contrário de Santo forte e Babilônia 2000. O prédio é apenas uma pista falsa. Isso era um complicador dramatúrgico. Como eu ordenaria esse material se havia todos os temas possíveis? Decidi pela montagem caótica. Procurei conservar a ordem da filmagem, que não tinha um padrão. Isso não leva ninguém a ter certeza do que virá depois de cada personagem. Não há uma regra”.

“Talvez pelas histórias de vida do Edifício Master serem menos extraordinárias que as de Santo forte e Babilônia 2000, fica mais evidente que o importante é como os personagens falam de si e não o que eles estão falando. A garota de programa sintetiza essa ideia ao dizer que precisa acreditar em suas mentiras para contá-las. Não interessa, então, nem se o relato é verdadeiro. Interessa a narrativa em si”.

Entrevista de Eduardo Coutinho ao Contracampo (na íntegra)►

 

Programação

IMS Poços
8/2, domingo, 16h


Programação

IMS Poços

1/2/2026, domingo
16h - Mulheres no front

7/2/2026, sábado
16h - Cabra marcado para morrer
18h30 - Santo forte

8/2/2026, domingo
16h - Edifício Master


Filmes anteriores

Peões

Eduardo Coutinho | Brasil | 2004, 85’, Arquivo digital (VideoFilmes) | Classificação indicativa: livre

A história pessoal dos metalúrgicos do ABC paulista que tomaram parte no movimento grevista de 1979 e 1980, mas permaneceram em relativo anonimato. Eles falam das origens, da participação no movimento e dos caminhos que suas vidas trilharam desde então. O filme foi rodado no período final da campanha presidencial de 2002, na qual Lula, líder sindical nessas greves, foi eleito presidente da República.

Em uma entrevista concedida a Neusa Barbosa para a revista Cineweb em 2004, Coutinho contava sobre o processo de pesquisa do filme. Menciona como alguns personagens surgiram durante a pesquisa e outros foram surgindo ao longo do processo. Nesse último grupo, estava Miguel do Cavaquinho:

“Ele foi um cara que a gente filmou muito num bairro chamado Jardim Central. São Bernardo é uma cidade em que 70% ou 80% das pessoas foram ou são metalúrgicos, apesar da crise. E nesse Jardim Central só tem metalúrgicos. Muitos dos mais velhos participaram das greves. Eu filmei, saí pelas ruas, filmei o boteco, as casas do bairro, entrevistei pessoas. E esse cara estava um dia num grupo, no boteco, no primeiro turno da eleição presidencial. Entrevistei umas 20 pessoas, elas foram falando. Ele estava no grupo e por acaso falou da prisão do Lula. E não foi nada de extraordinário. Ele tem uma cara muito forte. Aí juntam-se as coisas, cara, voz, carisma. E eu me digo: ‘Acho que esse cara vale a pena’. Então eu fiquei com esse cara na cabeça. O primeiro turno foi 6 de outubro, não foi isso? E esse cara, como ele diz no filme, é peão de empreitada no Paraná, mas vinha a São Bernardo para votar. No primeiro turno ele estava lá, eu filmei. Aí ficamos esperando esse cara voltar para o segundo turno para encerrar o filme. Fomos lá na hora do almoço, e realmente foi a última entrevista do filme. Inclusive, ele fala meu nome, porque ele me conhecia, não foi através de um pesquisador. E eu não sabia o que ele ia dizer. E de repente foi uma conversa extraordinária, porque ele me deu a definição de peão. Por isso é que a pesquisa, por melhor que seja, às vezes ela é essencial, mas ela não te dá tudo… [...] Eu estava há 50 dias ali, mesmo sem câmera, e ninguém me dava essa definição. Claro que é uma definição discutível, existem várias versões, não é oficial. Mas ele dá uma versão magnífica quando diz que não quer que os filhos sejam peões. Eu não pergunto nada, ele diz. E aí ele deixa 30 segundos de silêncio, que numa pesquisa você não deixa ficar. Pesquisa é um diálogo cordial, você tem que seduzir. Na filmagem, não. A situação é mais tensa, mais solene. Quando acontece uma situação assim, eu posso me dar ao luxo de sofrer com ele. É muito difícil saber o que vai acontecer depois de um silêncio desses. Se eu dissesse uma palavra, ele saía. Fiquei quieto.”

“Aí ele te faz uma pergunta…”, interpela a entrevistadora.

“E muda todo o filme”, prossegue Coutinho. “Ele me pergunta se eu já fui peão. Um golpe de gênio. Isso se chama filmar o instante, o instante imprevisível.”

Trecho de entrevista extraído do volume dedicado a Eduardo Coutinho da série de livros Encontros, da editora Azougue. A organização é de Felipe Bragança.

 

Programação

IMS Poços
25/1, domingo, 16h


Volta Redonda - Memorial da greve

Eduardo Coutinho e Sergio Goldenberg | Brasil | 1989, 39’, Arquivo digital (CECIP) | Classificação indicativa: 14 anos

No final da década de 1970, o movimento operário começa a ganhar força. Em 1988, os trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, decretam uma grande greve. A intervenção militar é imediata; a repressão assassina três jovens operários e fere dezenas. O filme de Coutinho e Goldenberg reconta essa história, a partir do depoimento de operários e familiares impactados pela repressão, resgata filmagens do período e aponta para as repercussões do episódio.

 

Programação

IMS Poços
18/1, domingo, 16h


As canções
Eduardo Coutinho | Brasil | 2011, 90’, Arquivo digital (VideoFilmes) | Classificação indicativa: livre

Homens e mulheres cantam e falam sobre as músicas que marcaram suas vidas.

Em entrevista a André Bernardo, em dezembro de 2011, Coutinho relata: “A princípio, a ideia era fazer um filme só sobre músicas do Roberto Carlos. Mas, aí, já viu, né? Ia dar um trabalho danado negociar os direitos das músicas. Daí, resolvi fazer um filme sobre anônimos cantando músicas que marcaram suas vidas. Foi o filme mais rápido e barato que já fiz. Só para você ter uma ideia, gravei 42 depoimentos em seis dias. A câmera não tem zoom. A luz é sempre a mesma. O cenário é um só o filme inteiro. Levei só dois meses para selecionar os participantes. A história do Brasil que me interessa é essa. É a história da canção brasileira. Não estou falando de Pixinguinha ou de Hermeto Pascoal. Estou falando de canção. A canção é o maior patrimônio brasileiro. No filme, apareceu gente cantando tudo que é tipo de música: de Noel Rosa a Jorge Benjor, de Silvinho a Roberto Carlos, de Orlando Silva a Nelson Gonçalves. Curiosamente, não tivemos uma música estrangeira sequer. Isso me intrigou bastante.”

“Olha, para ser honesto, a única fraude que eu cometi no filme foi incluir a música da Wanderléa, ‘Ternura’. Em 1999, conheci uma das personagens do filme. Na ocasião, Fátima [personagem de Babilônia 2000] era hippie. Hoje, virou evangélica. Só que a música da vida dela era um hino religioso. Nada contra. Mas não combinava com a história dela. Foi quando pedi que cantasse ‘Ternura’, da Wanderléa.”

Entrevista do diretor Eduardo Coutinho à André Bernardo (na íntegra) ►

 

Programação

IMS Poços
6/12, sábado, 16h10
Sessão apresentada por Laura Liuzzi


Santa Marta – Duas semanas no morro
Eduardo Coutinho | Brasil | 1989, 54’, Arquivo digital (CECIP) | Classificação indicativa: 14 anos

O documentário mostra de perto o dia a dia dos moradores do morro Santa Marta, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Coutinho comenta seu modo de fazer filmes em entrevista a Alcimere Piana e Daniele Nantes, publicada na revista Intermídias, em 2005: “Meus filmes começam dizendo que uma equipe de cinema foi num lugar, é sempre assim. Eu não moro na favela Babilônia, não moro no Santa Marta, eu não moro no Master. Então, sempre o filme começa com as regras do jogo. O jogo é o filme, e as regras são essas: no Nordeste, numa favela ou num prédio, tem uma equipe, tem um tempo e vamos ver o que acontece. Isso é dado inicialmente, sempre se trata de um filme, não é a vida na favela. Não é um filme sobre a religião na favela. É um filme sobre a equipe de cinema que vai ao morro conversar sobre religiosidade. Ninguém pediu para ser filmado, ninguém está interessado em ser filmado, a gente vai lá. Não é televisão, é um ato gratuito.”

Premiado como Melhor Documentário Estrangeiro no Festival de Vídeo de Bogotá, 1989.

 

 

Programação

IMS Poços
14/12, domingo, 16h


Boca de lixo
Eduardo Coutinho | Brasil | 1992, 50’, Arquivo digital (CECIP) | Classificação indicativa: 14 anos

Trata do cotidiano dos catadores de lixo do vazadouro de Itaoca, em São Gonçalo, a 40 km do Centro do Rio de Janeiro. O lixo como trabalho e como estigma. O roubo da imagem alheia, pecado original de todo documentário.

“O lixo é um filme que aconteceu meio sem previsão…”, comenta Coutinho em entrevista a Cláudia Mesquita. “Eu tinha filmado um outro lixão para outro filme, O fio da memória, que acabou nem entrando… Eu fiquei lá uma meia hora, era minha primeira vez num lixão, e ali eu vi o que nunca havia se mostrado no cinema. Tinha gente fritando ovo, gente jogando bola, igual em qualquer lugar. Eu queria fazer um filme sobre aquilo. Não como o Ilha das Flores [de Jorge Furtado], o lixo como conceito, mas o lixo como realidade.”

Entre outros prêmios, Boca de lixo foi escolhido Melhor Filme no Rencontres des Cinémas d’Amérique Latine, em Toulouse, 1993.

 

 

Programação

IMS Poços
21/12, domingo, 16h


Babilônia 2000
Eduardo Coutinho | Brasil | 2000, 80’, Arquivo digital (VideoFilmes) | Classificação indicativa: livre

No morro da Babilônia, no Rio, uma equipe de filmagem acompanha os preparativos para o réveillon e ouve os moradores sobre suas expectativas para o ano 2000.

Em seu blog, o crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos escreve: "Em “Babilônia 2000, a dimensão ética de seus procedimentos comparece de maneira impressionante: o espaço para a ficção de si, para uma espécie de autofabulação sobre cada vida, está pulsando. O que ele perseguia era justamente ‘o teatro da vida’, a maneira ou saída que cada um encontra para endereçar sua fantasia ao outro, ao mundo. Ele diz: ‘Quero da pessoa o impulso de se construir enquanto está comigo, quero que ela construa um retrato de si mesma’. Para Coutinho, a presença da câmera funda uma ética e cria um espaço de enunciação que diverge de qualquer vontade de verdade filosófica ou matemática. Trata-se da maneira mais aguda que cada sujeito toma sua ficção para si e a devolve ao mundo. E essa ética fundada pela câmera – terceiro elemento, mediação e revelação…"

Texto do crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos (na íntegra) ►

 

Programação

IMS Poços
28/12, domingo, 16h


Dona Flor e seus dois maridos
Bruno Barreto | Brasil | 1976, 117’, DCP (Cinecolor) | Classificação indicativa: 18 anos
Roteiro de Eduardo Coutinho, Bruno Barreto e Leopoldo Serran

Durante o carnaval de 1943 na Bahia, Vadinho (José Wilker), um mulherengo e jogador inveterado, morre repentinamente. Sua mulher, Dona Flor (Sônia Braga), fica inconsolável, pois, apesar de ter vários defeitos, ele era um excelente amante. Após algum tempo, ela se casa com Teodoro Madureira (Mauro Mendonça), um farmacêutico que é exatamente o oposto do primeiro marido. Ela passa a ter uma vida estável e tranquila, mas tediosa, e, de tanto "chamar" por Vadinho, um dia ele aparece nu na sua cama. Um pai de santo se prontifica a afastar o espírito de Vadinho, mas existe um problema: no fundo, Flor quer que ele fique, pois ela tem um forte desejo que precisa ser saciado.

No livro Sete faces de Eduardo Coutinho, o crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos comenta: "O percurso de Coutinho é marcado ainda por várias curiosidades. Quando estudante de cinema em Paris, dirigiu uma peça de teatro (sua única vez na direção teatral), Pluft, o fantasminha, de Maria Clara Machado. Atuou no filme Os mendigos, de Flávio Migliaccio, em 1963, quando reunia material para filmar Cabra. Seu primeiro longa-metragem foi uma comédia política, O homem que comprou o mundo (1967), em que também colaborou no argumento, fez o roteiro final e uma figuração. E foi corroteirista de vários filmes de ficção, entre eles Dona Flor e seus dois maridos (1976), antes de se embrenhar de vez no gênero em que ficou conhecido e respeitado como um dos maiores do mundo.”

Dona Flor e seus dois maridos tem o roteiro adaptado por Eduardo Coutinho, Bruno Barreto e Leopoldo Serran e é baseado no romance homônimo de Jorge Amado. Tendo levado mais de 10 milhões de espectadores aos cinemas, Dona Flor foi, por 34 anos, a maior bilheteria do cinema nacional, superado por Tropa de elite 2. Ainda hoje, o filme figura na lista das 10 maiores bilheterias brasileiras.

 

Programação

IMS Poços
2/11, domingo, 16h


O fim e o princípio
Eduardo Coutinho | Brasil | 2006, 110’, Arquivo digital (VideoFilmes) | Classificação indicativa: livre

Um filme nascido do zero. Sem pesquisa prévia, sem personagens, locações nem temas definidos. Uma equipe de cinema chega ao sertão da Paraíba em busca de pessoas que tenham histórias pra contar. No município de São João do Rio do Peixe, descobre-se Sítio Araçás, uma comunidade rural onde vivem 86 famílias, a maioria delas ligadas por laços de parentesco. Graças à mediação de uma jovem de Araçás, os moradores, na maioria idosos, contam suas vidas.

Em uma entrevista originalmente publicada no jornal O Globo, em 21 de novembro de 2005, Coutinho comenta a origem do projeto: “Em 2003, eu estava montando Peões, e o João Moreira Salles me perguntou: ‘Que filme você quer fazer agora?’. Eu pensei, em primeiro lugar, que queria fazer um filme em ambiente rural, pois todos os filmes que eu tenho feito desde Santo forte são filmes de metrópole, e eu estava de saco cheio de filmar nelas. Segundo, queria fazer um filme sem nenhuma pesquisa prévia. E por que o sertão da Paraíba? Poderia ter feito este filme em Minas Gerais, onde esse rural rebuscado, com riqueza oral, também existe. Mas como as primeiras filmagens do Cabra foram na Paraíba, tenho simpatia por lá. E há a visão mítica de que ali foi uma terra de grandes poetas populares.”

“Em 2004, ao sair para filmar, a primeira coisa que fiz foi comprar um Guia Quatro Rodas qualquer da vida. Só que ali há poucas referências a cidades pequenas. Daí, comprei um mapa, onde tinha Cajazeiras, uma cidade de 50 mil habitantes que está a cerca de 500 km de João Pessoa. Mas, por acaso, o hotel aonde fomos não ficava em Cajazeiras, mas na região, em um local chamado São João do Rio do Peixe, a 30 km de Cajazeiras, o que significava duas horas para ir, três para voltar. Resolvemos ficar ali. Foi quando encontramos a Rosa, da Pastoral da Criança, e a encontramos como se fosse uma assistente de produção, uma guia. Tinha ilusões de que filmaria sem mediador, que chegaria numa casa e filmaria de longe, com toda uma técnica de aproximação. Mas essa ideia romântica acabou. E nos concentramos na comunidade dela. [...] Ela escreveu, em um caderno, as 86 casas do sítio, com os nomes das pessoas que moravam. Fez o roteiro do filme naquele papel. A confiança que ela inspirava fez com que as pessoas falassem.”

Trecho extraído do volume dedicado a Eduardo Coutinho da série de livros Encontros, da editora Azougue. A organização é de Felipe Bragança.

 

Programação

IMS Poços
9/11, domingo, 16h


Jogo de cena
Eduardo Coutinho | Brasil | 2007, 103’, Arquivo digital (VideoFilmes) | Classificação indicativa: livre

Atendendo a um anúncio de jornal, 83 mulheres contaram suas histórias de vida em um estúdio. Em junho de 2006, 23 delas foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas pelas personagens escolhidas.

Até Jogo de cena, o cinema de Eduardo Coutinho ia até suas personagens, nos seus apartamentos em um edifício de Copacabana, em suas casas no morro Santa Marta ou Babilônia ou no sertão paraibano. Neste filme, no entanto, as personagens são convidadas a dar seus depoimentos em um teatro. Em janeiro de 2008, em uma longa entrevista concedida ao cineasta Felipe Bragança, Coutinho comenta essa escolha:

“É o próprio lugar de tudo, não é? Porque é o lugar onde todos os lugares documentados estão, de certa forma: o teatro, a plateia. Você explicita que, na verdade, em cada filme, quando a gente fala, a fala é um lugar de encenação… Algo que eu sentia que nem todos entendiam nos meus outros filmes e eu resolvi deixar claro. Tem gente que não entende isso, especialmente fora do Brasil, como se o filme fosse só o assunto, e não a cena mesma da palavra, sabe?”

Trecho extraído do volume dedicado a Eduardo Coutinho da série de livros Encontros, da editora Azougue. A organização é de Felipe Bragança.

 

Programação

IMS Poços
16/11, domingo, 16h


Moscou
Eduardo Coutinho | Brasil | 2009, 78’, Arquivo digital (VideoFilmes) | Classificação indicativa: livre

Fragmentos de improvisações, oficinas e ensaios de uma peça que não teve e nem teria estreia. O documentarista Eduardo Coutinho convida a companhia teatral Grupo Galpão, de Belo Horizonte, sob direção de Enrique Diaz, a ensaiar a peça As três irmãs, de Anton Tchékhov, por um período de três semanas. Os atores só saberiam qual seria o texto no primeiro dia de filmagem: “A gente vai tentar montar fragmentos ao menos dessa peça, que é enorme, e coisas citadas que não são dessa peça”, explica Coutinho ao apresentar a proposta e o texto aos atores. “O objetivo é o seguinte: o inacabado, o fragmento – que, aliás, é Tchékhov –, é maravilhoso. A gente não quer fazer o completo.”

Sobre o aspecto fragmentário da obra de Tchékhov, Coutinho comenta em entrevista de julho de 2009 a Marília Martins para O Globo: “São peças sem trama e sem final... Foi isso que me interessou na peça. E no meu cinema também é assim: quero falar do pequeno, do anônimo, do resto, da sobra, daquilo que foi jogado fora, do lixo… O lixo me interessa muito… Meu cinema é feito de fragmentos! A verdade do cinema é a verdade da cena… Nos meus filmes é assim… Em Edifício Master, a única verdade é que um cineasta esteve por ali conversando com aqueles moradores. Todo o resto é duvidoso: será que aquelas paixões ou aquelas dores são verdadeiras? Não sei. Não me interessa. Quero que os espectadores digam: acredito nisto e não naquilo… Quando os atores falam de Moscou, eles estão falando de Minas Gerais…”

As três irmãs conta a história de Olga, Macha e Irina, que, sem perspectivas com a vida levada na província, sonham em voltar para Moscou.

 

Programação

IMS Poços
23/11, domingo, 16h


As canções

Eduardo Coutinho | Brasil | 2011, 90’, Arquivo digital (VideoFilmes) | Classificação indicativa: livre

Homens e mulheres cantam e falam sobre as músicas que marcaram suas vidas.

Em entrevista a André Bernardo, em dezembro de 2011, Coutinho relata: “A princípio, a ideia era fazer um filme só sobre músicas do Roberto Carlos. Mas, aí, já viu, né? Ia dar um trabalho danado negociar os direitos das músicas. Daí, resolvi fazer um filme sobre anônimos cantando músicas que marcaram suas vidas. Foi o filme mais rápido e barato que já fiz. Só para você ter uma ideia, gravei 42 depoimentos em seis dias. A câmera não tem zoom. A luz é sempre a mesma. O cenário é um só o filme inteiro. Levei só dois meses para selecionar os participantes. A história do Brasil que me interessa é essa. É a história da canção brasileira. Não estou falando de Pixinguinha ou de Hermeto Pascoal. Estou falando de canção. A canção é o maior patrimônio brasileiro. No filme, apareceu gente cantando tudo que é tipo de música: de Noel Rosa a Jorge Benjor, de Silvinho a Roberto Carlos, de Orlando Silva a Nelson Gonçalves. Curiosamente, não tivemos uma música estrangeira sequer. Isso me intrigou bastante.”

“Olha, para ser honesto, a única fraude que eu cometi no filme foi incluir a música da Wanderléa, ‘Ternura’. Em 1999, conheci uma das personagens do filme. Na ocasião, Fátima [personagem de Babilônia 2000] era hippie. Hoje, virou evangélica. Só que a música da vida dela era um hino religioso. Nada contra. Mas não combinava com a história dela. Foi quando pedi que cantasse ‘Ternura’, da Wanderléa.”

Entrevista do diretor Eduardo Coutinho a André Bernardo, no portal Iber Media Digital (na íntegra) ►

 

Programação

IMS Poços
18/10, sábado, 16h
Sessão de abertura da exposição Ocupação Eduardo Coutinho

23/10, quinta, 19h30


Dona Flor e seus dois maridos

Bruno Barreto | Brasil | 1976, 117’, DCP (Cinecolor) | Classificação indicativa: 18 anos
Roteiro de Eduardo Coutinho, Bruno Barreto e Leopoldo Serran

Durante o carnaval de 1943 na Bahia, Vadinho (José Wilker), um mulherengo e jogador inveterado, morre repentinamente. Sua mulher, Dona Flor (Sônia Braga), fica inconsolável, pois, apesar de ter vários defeitos, ele era um excelente amante. Após algum tempo, ela se casa com Teodoro Madureira (Mauro Mendonça), um farmacêutico que é exatamente o oposto do primeiro marido. Ela passa a ter uma vida estável e tranquila, mas tediosa, e, de tanto "chamar" por Vadinho, um dia ele aparece nu na sua cama. Um pai de santo se prontifica a afastar o espírito de Vadinho, mas existe um problema: no fundo, Flor quer que ele fique, pois ela tem um forte desejo que precisa ser saciado.

No livro Sete faces de Eduardo Coutinho, o crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos comenta: "O percurso de Coutinho é marcado ainda por várias curiosidades. Quando estudante de cinema em Paris, dirigiu uma peça de teatro (sua única vez na direção teatral), Pluft, o fantasminha, de Maria Clara Machado. Atuou no filme Os mendigos, de Flávio Migliaccio, em 1963, quando reunia material para filmar Cabra. Seu primeiro longa-metragem foi uma comédia política, O homem que comprou o mundo (1967), em que também colaborou no argumento, fez o roteiro final e uma figuração. E foi corroteirista de vários filmes de ficção, entre eles Dona Flor e seus dois maridos (1976), antes de se embrenhar de vez no gênero em que ficou conhecido e respeitado como um dos maiores do mundo.”

Dona Flor e seus dois maridos tem o roteiro adaptado por Eduardo Coutinho, Bruno Barreto e Leopoldo Serran e é baseado no romance homônimo de Jorge Amado. Tendo levado mais de 10 milhões de espectadores aos cinemas, Dona Flor foi, por 34 anos, a maior bilheteria do cinema nacional, superado por Tropa de elite 2. Ainda hoje, o filme figura na lista das 10 maiores bilheterias brasileiras.

 

Programação

IMS Poços
19/10, domingo, 16h
24/10, sexta, 19h
2/11, domingo, 16h


Programações anteriores

Janeiro

 

IMS Poços

18/1/2026, domingo
16h - Volta Redonda - Memorial da greve

25/1/2026, domingo
16h - Peões


Dezembro

 

IMS Poços

6/12/2025, sábado
16h10 - Canções
Sessão apresentada por Laura Liuzzi

14/12/2025, domingo
16h - Santa Marta – Duas semanas no morro

21/12/2025, domingo
16h - Boca de lixo

28/12/2025, domingo
16h - Babilônia 2000


Novembro

 

IMS Poços

2/11/2025, domingo
16h - Dona Flor e seus dois maridos

9/11/2025, domingo
16h - O fim e o princípio

16/11/2025, domingo
16h - Jogo de cena

23/11/2025, domingo
16h - Moscou


Outubro

 

IMS Poços

18/10/2025, sábado
16h - As canções*
Sessão de abertura da exposição Ocupação Eduardo Coutinho

19/10/2025, domingo
16h - Dona Flor e seus dois maridos

23/10/2025, quinta
19h30 - As canções

24/10/2025, sexta
19h - Dona Flor e seus dois maridos

2/11/2025, domingo
16h - Dona Flor e seus dois maridos

*Sessão gratuita

Ingressos

Vendas
Os ingressos do cinema podem ser adquiridos online ou na bilheteria do centro cultural, mais informações abaixo.

Meia-entrada
Com apresentação de documentos comprobatórios para professores da rede pública, estudantes, crianças de 3 a 12 anos, pessoas com deficiência, portadores de Identidade Jovem e maiores de 60 anos.

Cliente Itaú
Desconto de 50% para o titular ao comprar o ingresso com o cartão Itaú (crédito ou débito). Ingressos e senhas sujeitos à lotação da sala.

Devolução de ingressos
Em casos de cancelamento de sessões por problemas técnicos e por falta de energia elétrica, os ingressos serão devolvidos. A devolução de entradas adquiridas pelo ingresso.com será feita pelo site.

Sessões com debate
As sessões com debate são gratuitas. Sujeita à lotação da sala.
Distribuição de senhas 60 minutos antes do evento. Limite de 1 senha por pessoa.


IMS Poços

Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).
Bilheteria: de terça a sexta, das 13h às 19h. Sábados e domingos, das 9h às 19h, na recepção do IMS Poços.

Os ingressos para as sessões são vendidos na recepção do IMS Poços e pelo site ingresso.com. A venda é mensal e os ingressos são liberados no primeiro dia de cada mês. Os preços variam de acordo com o filme ou a mostra.

Não é permitido o consumo de bebidas e alimentos na sala de cinema.