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A grande perda de Rachel de Queiroz

07 de abril de 2020

Não há originalidade em afirmar que a chegada de novos documentos a um acervo pode trazer revelações insondáveis. Foi o que aconteceu com o recebimento de um álbum de retratos que passou a integrar o arquivo de Rachel de Queiroz, sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde 2006.

As oitenta fotos que o compõem enriquecem a biografia da escritora sob vários aspectos, sobretudo no que diz respeito à sua feliz, mas dramaticamente breve experiência da maternidade. Seis das fotos, coladas na página 11, registram a curtíssima existência da única filha que teve a autora de O Quinze. Desconhecidas até agora, as feições da menina mostram clara semelhança com as da mãe: os mesmos olhos, grandes e redondos, o mesmo formato do rosto e, não tivesse sido levada tão cedo, talvez se tornasse uma moça com a mesma tendência aos quilos a mais de Rachel de Queiroz.

Álbum de fotos de Rachel de Queiroz/ Acervo IMS

Por ter sido de tal maneira devastada com a morte da filha, que, assim como a avó materna, chamava-se Clotilde, Rachel de Queiroz não falava no assunto. Calava. Mas no longo depoimento que deu a Hermes Rodrigues Nery, publicado em Presença de Rachel, em 2002, ela desabafa: "Eu a amei apaixonadamente e nunca me recuperei do golpe que foi perdê-la, assim tão novinha".

Clotilde era filha de Rachel de Queiroz e do bancário e poeta bissexto José Auto da Cruz Oliveira. Nasceu no vale fresco do Pici, nos arredores de Fortaleza, onde a família Queiroz tinha sítio, em 2 de setembro de 1933, pelas mãos de dona Julia, a mesma parteira que atendera à mãe de Rachel. Por ocasião do nascimento, a jovem mãe de 23 anos já era autora de dois romances: em ordem decrescente, João Miguel, de 1932, e O Quinze, que lhe deu o prêmio da Fundação Graça Aranha de melhor romance de 1930, recebido no ano seguinte, no Rio de Janeiro, ao lado de Murilo Mendes, por seu Poesias, e de Cícero Dias, pela pintura.

Um mês depois do nascimento da filha, Zé Auto, como era chamado o marido de Rachel, foi transferido para o Rio de Janeiro. Certamente retomando os contatos feitos por ocasião da entrega do prêmio da Fundação Graça Aranha, a escritora ficou sabendo da disponibilidade da casa onde Manuel Bandeira morara de 1930 até março de 1933. A família alugou, então, a lendária casa carioca a que o poeta certa vez se referiu como "pouso de poetas modernistas". A "casinha", como ele preferia chamar a construção simples, de porta e duas janelas, ficava na então rua do Curvelo 51, hoje rua Dias de Barros 53, em Santa Teresa, de onde se via a baía de Guanabara "como uma mesa posta" – dizia ainda o poeta de Pasárgada.

Ali Clotilde viveu seus primeiros meses de vida, e até agora não se conhecem registros desse período em que habitou o morro do Curvelo. Sequer chegou a passar o verão de 1934 e aproveitar a brisa que vem da baía de Guanabara em direção àquele pedaço de Santa Teresa. Por causa de mais uma transferência do bancário, em meados de 1934, depois de rápida passagem por São Paulo, a família já estava morando em Maceió, onde, inicialmente, tudo correu bem. Nos cafés literários da capital alagoana, Rachel juntou-se a Graciliano Ramos, Jorge de Lima e José Lins do Rego, todos também já com livros publicados.

Antes de terminar o ano, Rachel de Queiroz foi a Fortaleza para batizar a filha – é o que se constata ao ver a foto de Clotilde, com anotação de Alba Frota informando que a cerimônia foi celebrada em 21 de outubro de 1934. Tirada no dia mesmo do batizado, mostra a criança, de pé, de vestido e touca. Contrariamente à tradição nordestina, que escolhe o rito para os primeiros meses de vida da criança, ela estava com um ano, um mês e dezenove dias quando recebeu o sacramento. Em outra nota, fica-se sabendo que o batismo foi oficiado pelo monsenhor Luís de Carvalho Rocha, na Catedral Metropolitana de Fortaleza. Os padrinhos: Alba Frota e Nosso Senhor do Bonfim.

Dali a quatro meses, de volta a Maceió, aconteceria a tragédia familiar. Clotilde não resistiu a uma meningite e morreu em 14 de fevereiro de 1935, causando a perda pessoal mais dolorosa da vida de Rachel de Queiroz. Estava com um ano, cinco meses e doze dias, segundo anotação da madrinha, no mesmo álbum.

O período em Alagoas não podia ter sido pior. Três meses depois da perda da filha, morreu Flávio, o irmão predileto de Rachel, aos 18 anos de idade. A causa: septicemia, provocada por infecção de uma espinha no rosto. Os golpes severos abalaram o casamento, e em 1939 Rachel e Zé Auto se separaram.

Embora sem registro de procedência, é fácil concluir que o álbum, de capa de couro preto, foi organizado por Alba Frota, arquivista da Universidade Federal do Ceará e grande amiga de Rachel de Queiroz, a quem se deve muito do que foi preservado da memória da romancista e que merece um estudo à parte. De Alba, o Instituto Moreira Salles conserva coleção de papéis com dados biográficos preciosos de Rachel de Queiroz, a que se soma agora o conjunto de fotos.

Muitas vezes, a organizadora fez anotações sobre fotografias, a caneta, não deixando dúvida com relação à intenção arquivística, assim como colou imagens marcadas por dedicatórias que lhe foram feitas pela amiga. É visível o propósito de observar sequência cronológica no arranjo que imprime ao álbum, cuja primeira foto é da casa onde nasceu Rachel de Queiroz, em Fortaleza, em 17 de novembro de 1910. Nem sempre, porém, o critério de cronologia é mantido, o que dá impressão de que o plano de organização inicial foi substituído pela colagem de fotos ao sabor do que a organizadora ia recebendo, ou recolhendo.

O álbum oferece diversas possibilidades de exploração e, sem dúvida, é documento precioso para a biografia da escritora cearense.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.


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