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Águas passadas

12 de abril de 2019
Buick quase submerso atrás do Estádio do Flamengo – O Jornal, 12 de janeiro de 1966 (Arquivo Diários Associados-RJ/Acervo IMS)

 

O aguaceiro de 8 de abril fez a cidade do Rio rememorar o pesadelo que viveu há 53 anos, em janeiro de 1966, o maior temporal da história municipal. Mais de 200 mortos, publicava O Globo, enquanto a EBCEmpresa Brasil de Comunicações – situa este número entre 250 e 300. Cerca de 1 mil pessoas ficaram feridas em outros 1 mil desabamentos que desabrigaram aproximadamente 50 mil. Imagens da tragédia foram registradas pelos jornais cariocas dos Diários Associados, cujo acervo encontra-se sob a guarda do IMS desde meados de 2016. Aqui, uma pequena seleção dessas fotografias de 1966.

A catástrofe tem que ser creditada a uma combinação funesta de fatores: a violência das águas que fecham o verão nestas latitudes, a ocupação caótica do espaço urbano, com o desmatamento das encostas, e o despreparo e consequente incúria das administrações públicas na ordenação dessa ocupação e prevenção desses acidentes naturais com que temos obrigatoriamente que contar quase todo ano.

Tudo parou mais de uma semana, faltaram água e luz, não houve transportes, a cidade ficou absolutamente isolada pelo caos que se instalou. Chovera muito mais dias do que agora e em maior quantidade, a média diária de 250 mm, fazendo transbordarem todos os rios e canais, derrubando casas, levantando a pavimentação de ruas e trilhos. Por cima, as cargas d’água se fizeram acompanhar do vendaval furioso que arrancou árvores e derrubou postes do Centro a Santa Cruz.

Outro importantíssimo fator que fez a tempestade de agora ser de muito menos graves conseqüências não foi providência das autoridades, mas da população: as comunidades mais carentes, que há 53 anos eram de enorme fragilidade, compostas majoritariamente de barracos de madeira e folhas de zinco, transformaram-se no que hoje são, cidades de alvenaria alicerçada.

Existe um poderoso desenho de Millôr Fernandes no acervo do IMS, uma nuvem escuríssima descarregando em cima de um incauto munido duma simples folha de jornal – e trovejando: “Eu não avisei?”. Estamos sempre avisados e sempre desprevenidos.

Desenho, 1984. Hidrocor e ecoline sobre papel; Acervo Millôr Fernandes / Instituto Moreira Salles

Links relacionados

Foto de pessoas: um homem carregando um colchão na cabeça – O Jornal, 23 de janeiro de 1966

Foto de árvore atravessada na rua Cosme Velho – O Jornal, 20 de janeiro de 1966

Buick quase submerso atrás do Estádio do Flamengo – O Jornal, 12 de janeiro de 1966

Shopping Center de Copacabana, centro de recolhimento de roupas e gêneros para os flagelados – O Jornal, 18 de janeiro de 1966

Pedra do Morro São João, no Engenho Novo – O Jornal, 14 de janeiro de 1966

Foto aérea dos campos de Santa Cruz – O Jornal, 15 de janeiro de 1966


Andrea Wanderley

Andrea Wanderley é pesquisadora da Coordenadoria de Fotografia do IMS e editora do portal Brasiliana Fotográfica.

Cássio Loredano

Cássio Loredano é caricaturista e consultor do IMS.

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