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Wollner, fotografia e design

08 de maio de 2018

 

O paulistano Alexandre Wollner, pioneiro do design moderno no Brasil, morreu aos 89 anos no último dia 4. Em 2017, o IMS recebeu seu acervo fotográfico.

Alexandre Wollner (1928-2018)

 

Em junho de 2017, o Instituto Moreira Salles adquiriu o conjunto completo de fotografias feitas pelo designer Alexandre Wollner (1928-2018) na Hoschschule für Gestaltung (Escola Superior da Forma), de Ulm, onde ele estudou de 1954 a 1958. São cerca de 170 negativos e 200 positivos, entre cópias contato e ampliações de época. A coleção inclui algumas poucas imagens feitas em São Paulo e no carnaval carioca de 1959, mas a grande maioria corresponde aos anos do artista na Alemanha. Mostram o dia-a-dia na escola, as aulas com os professores Max Bill, Joseph Albers, Tomás Maldonado, Otl Aicher e Vordemberge-Gildewart, entre outros nomes ilustres, e os exercícios realizados por Wollner nos cursos de fotografia.

 

(Alexandre Wollner/Acervo IMS)

 

Dos anos 1950 ao século XXI, Wollner se tornou uma referência incontornável no design gráfico brasileiro, autor de logotipos emblemáticos como os do elevadores Atlas, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, da Cinemateca Brasileira, do banco Itaú e das sardinhas Coqueiro. Atuou também como pintor. Nos anos 1950 participou do Grupo Ruptura, que reunia os artistas concretos de São Paulo, e expôs em algumas Bienais.

Wollner não se considerava fotógrafo e não chegou a fazer uma carreira na área. No entanto, suas fotos, além da evidente qualidade técnica e formal, têm estreita relação conceitual com sua formação como designer.

Em 1951 e 1952, antes de ir para Ulm, ele estudou no Instituto de Arte Contemporânea (IAC), a primeira escola de design moderno do Brasil, criada por Pietro Maria Bardi e Lina Bo no Masp em 1951. A grade de cursos do IAC era inspirada na Bauhaus e no Instituto de Design de Chicago. Lá, Wollner aprendeu a reconhecer a qualidade estética de objetos industriais do dia-a-dia, como uma máquina de escrever, um liquidificador ou um simples vaso, que Bardi expunha na famosa “Vitrine das Formas”. O móvel transparente separava a sala de exposições temporárias do Masp, onde nos anos 1950 ocorreram as individuais de Le Corbusier, Max Bill e Calder, da galeria do acervo do museu, com obras de Boticelli, Ingres e Cézanne. A hierarquia entre belas artes e artes aplicadas estava rompida e não seria difícil compreender o valor formal de uma fotografia. No IAC, Wollner ouviu também os discursos de Lina Bo sobre o compromisso ético do designer, um profissional encarregado de projetar com responsabilidade as feições do mundo moderno.

 

(Alexandre Wollner/Acervo IMS)

 

Em 1953, em visita ao Brasil para a realização de uma série de palestras, o designer Max Bill convidou Geraldo de Barros (cujas fotos dos anos 1950 também estão no acervo do IMS) para estudar na Hoschschule für Gestaltung (HfG) de Ulm. Como era funcionário público, recém-casado e já havia passado um ano estudando gravura em Paris, Barros indicou Wollner para ir em seu lugar. Max Bill, ex-aluno da Bauhaus de Dessau, era então o primeiro reitor da escola de design fundada naquele mesmo ano em Ulm, idealizada por ele com Inge Scholl, Otl Aicher e Hans Werner Richter. Wollner se mudou no ano seguinte para a Alemanha para integrar a primeira turma da hoschschule. Na época, a escola funcionava provisoriamente na Volkshochschule, um centro de formação para adultos em Ulm, enquanto o prédio da HfG projetado por Max Bill estava em construção.

Embora a escola tenha sido inspirada na Bauhaus, logo ficou claro que os desafios do pós-guerra eram completamente diferentes daqueles dos tempos da República de Weimar. Da antiga Ulm, que completava 1100 anos em 1954, só havia sobrado uma danificada catedral gótica. Era necessário reconstruir tudo. Para alguns dos envolvidos na HfG não havia espaço na escola para disciplinas artísticas sem fins práticos, como havia existido na Bauhaus. Em Ulm, o design se distanciou do ateliê de arte e se aproximou da ciência e da indústria. De acordo com a didática da escola, num projeto de design o valor estético do objeto seria a consequência natural de uma equação justa entre função, produção e custo. O resultado desse processo – onde as ideias de sequenciamento, proporção e equilíbrio eram ferramentas essenciais – era chamado gute Form (boa forma). O método se pautava na Teoria da Gestalt, segundo a qual os seres humanos de todas as culturas veem o mundo a partir de uma mesma estrutura perceptiva. Segundo as leis perceptivas identificadas pela Gestalt, universais, os homens tenderiam a identificar as coisas do mundo não como elementos isolados, mas como padrões integrados, ou seja, um todo organizado. Assim, num projeto de design visual, todos os elementos deveriam se relacionar entre si de maneira organizada e harmônica.

 

(Alexandre Wollner/Acervo IMS)

 

Na HfG, Wollner teve aulas de fotografia durante quatro anos com os professores Ernest Hahn, Ernest Scheidegger, Christian Staub, Thomas Rago e Wolfgang Siol. Dentro do espírito pragmático da escola, a fotografia era antes de mais nada uma mensagem visual ligada diretamente à comunicação visual e ao fotojornalismo. Suas fotos exemplificam o modo de ver o mundo, pautado nas leis da Gestalt, aprendido na escola. Nas séries fotográficas, Wollner contrapõe um elemento estático, geralmente geométrico, a formas que se movimentam num ritmo ordenado, como se obedecessem a um padrão. Assim, transeuntes nas ruas de Stuttgart que passam entre um painel em construção e uma cerca fixa preenchem sucessivamente um mesmo quadro. Apesar da movimentação aleatória das pessoas, a sequência fotográfica de Wollner identifica um ritmo ordenado que dá coesão e clareza ao conjunto.

 

(Alexandre Wollner/Acervo IMS)

 

No Arquivo Geraldo de Barros, em Genebra, há uma série de cartas de Wollner escritas em Ulm para o amigo que havia ficado no Brasil. Em algumas delas o estudante descreve suas aulas na Hoschschule como forma de contribuir para a formação de Barros que, na época, já atuava como designer gráfico e desenhava os móveis modernos da cooperativa Unilabor. Quando Wollner voltou para o Brasil, em 1958, eles se associaram a Rubens de Freitas Martins e Walter Macedo para abrir o escritório de design forminform, em São Paulo.

Essas informações dão algumas pistas sobre a importância da relação entre design e fotografia moderna no Brasil. As coleções de Geraldo de Barros e Alexandre Wollner no acervo do IMS são um terreno fértil e fundamental nesse sentido.

 

  • Heloisa Espada é coordenadora de artes visuais do IMS

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