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Aquária

08 de agosto de 2017

A série Primeira Vista traz textos de ficção inéditos, escritos a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Rosa Amanda Strausz foi convidada a escrever sobre uma foto do Teatro do Museu de Arte de São Paulo, feita por Hans Flieg em 1969.

Teatro do Museu de Arte de São Paulo, cujo projeto arquitetônico é assinado pela arquiteta Lina Bo Bardi, 1969. Hans Flieg / Acervo IMS

Vamos tentar de novo. Eu estava numa festa. Puta festa. Casarão. Passou uma mulher carregando um garrafão de água, que é a coisa mais esquisita que alguém pode carregar numa festa daquelas. E você sabe que aquilo não é normal pelo jeito dela andar, com os braços erguidos, dançando e rodando o vidro pesado acima da cabeça.

Perguntei o que era. Água, ela riu. Com um tiquinho de ácido que sobrou do réveillon, completou. Me passou a garrafa. Dei um gole. Ela se afastou, dançando e distribuindo desejo, aquária, peixa, sereia, carangueja, um zodíaco inteiro salpicando estrelas no ar.

Não. Isso foi depois. Naquele momento, ainda não tinha estrela nenhuma. Era só uma ondina de festa. Antes dela se transformar em onda do mar, eu tirei a roupa e pulei na piscina. Mais gente me seguiu.

Quando o ácido bateu, eu dançava no azul. Afundava a cabeça na água e via os cabelos compridos da minha namorada se mexerem feito cardume. Então vieram os polvos, de todas as cores, e se enroscaram nos meus seios. Deu um tesão fodido. Minha namorada me beijou. E um polvo cinza, maior do que todos, me enlaçou pela cintura e me jogou no deck de madeira.

Agora chega. Tu tem que pegar o ônibus das sete na rodoviária. Daqui não dá pra ir direto. Pega o metrô. Acho que foi o polvo que falou, mas também pode ter sido minha namorada. O sol nascia por trás da cabeça dela. Fui embora. Ela ficou. Vesti a roupa por cima do corpo molhado e corri até a estação Pinheiros.

Entrei, comprei bilhete, passei pela roleta e comecei a seguir as placas pelo labirinto que me levaria em segurança até a plataforma. Mas as placas começaram a sumir. Tudo ficou cinza. E eu soube que tinha que correr, correr muito, antes que até as paredes desaparecessem e eu não conseguisse chegar ao terminal Tietê, onde eu pegaria o ônibus que me levaria a Conceição do Jacareí.

Não. Não pode ter sido assim. Faz menos de 10 oC em São Paulo a esta hora. Mesmo doido, eu não teria tirado a roupa e pulado na piscina. E se tivesse feito isso, ninguém me seguiria. Então não, não era ácido dentro da garrafa de água.

Vamos tentar de novo. Eu estava na casa da minha namorada e ela falou da festa. Eu não queria ir. Tinha que dormir e acordar cedo para estar às cinco da tarde em Conceição do Jacareí. Ela me chamou de fracassado porque só sendo muito mané alguém tem que ir tão longe para caçar trabalho. E trabalho merda, ainda por cima. E a festa era incrível, na casa de um pessoal ricaço. Eu merecia e ela também. Antes que eu me enfiasse no metrô, depois na rodoviária, rumo a Conceição do Jacareí.

Ela deu um gole numa garrafa de vinho. Acabamos entornando a garrafa inteira antes de sair. Já na porta, ela começou a rir. Tem um jacaré de nome Conceição chamando você, disse. Olhei para trás e tinha mesmo. Então acho que foi ela que botou o ácido na garrafa. Então a sereia me deu foi água mesmo. Mas eu posso ter mergulhado na piscina. Ou num fosso. De jacarés, todos chamados Conceição. E um deles passou a cauda áspera nos meus seios. E aquilo deu um tesão fodido. E eu saí pela rua segurando cada mama farta em uma mão, passando a unha comprida e pintada de azul cintilante em cada bico, só para prolongar a sensação da cauda do bicho roçando em mim.

Nada disso explica como vim parar num labirinto que deveria me levar ao metrô, que me conduziria até a rodoviária, que me teletransportaria até Conceição do Jacareí.

Vamos tentar de novo. De frente para trás. Estou tentando pegar o metrô. Alguém disse que eu preciso estar às 17 horas em Conceição de Jaracareí porque tem um trabalho lá para mim. Não conheço a cidade. Nem preciso. Sei que é pequena e deve ser pobre. Não faço ideia de que trabalho seja esse. E nem me importa. Preciso dele. Todas as cidades pobres são iguais. Já passei por todas elas. Muito cimento, muito cinza, muita aresta. Como esta estação de metrô, se é que estou mesmo no metrô. Preciso encontrar a plataforma.

É pouco provável que eu tenha estado numa festa de milionários. Não conheço nenhum. Também é difícil que minha namorada tenha me dado um ácido. Não tenho namorada. Se tivesse, não conheceria gente rica, seria tão fodida quanto eu. Nem polvo e nem jacaré roçaram os bicos de meus seios fartos porque sou homem, o que verifico com facilidade escorregando a mão por dentro da camiseta de propaganda de um vereador cujo nome já me esqueci. Meu torso é feito de ossos que saltam sob a pele. Meus mamilos não têm sensibilidade nenhuma.

Faz frio, mas a camiseta está molhada. Arranco a malha de poliamida pela cabeça e a jogo em qualquer lugar. Continuo a correr. A plataforma. Tenho que chegar logo à estação Tietê.

Corro por um fosso seco. Não vejo os jacarés, mas sei que estão ali e me espreitam. À minha volta, só cimento, só cinza, só arestas. Não sei onde estou, mas conheço bem este lugar. Ele é meu e sempre me puxa de volta. É um útero masculino e áspero. São sacos de cimento, brita e areia carregados nas costas. É a piscina de cimento fresco e denso que me acolhe e imobiliza.

Corro e mergulho.

Preciso chegar a Conceição de Jacareí.

Rosa Amanda Strausz tem mais de 25 livros publicados, entre contos, infantis, terror e ensaios biográficos. Ganhou o Prêmio Jabuti com sua obra de estreia, Mínimo múltiplo comum, em 1991. Com o pseudônimo de Fugu, publicou Duas bocas. Tem livros traduzidos na França, na China e no Chile, além de Portugal. (Foto: Rodrigo Lopes)

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