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Bandeira no arquivo de Lygia

01 de julho de 2020

 

Lygia Fagundes Telles e Manuel Bandeira em fotografia de 1955, com dedicatória do poeta. Arquivo Lygia Fagundes Telles/ IMS

 

Nós dois – Lygia e eu, seu mano, nascemos no mesmo dia, mas não, hélas! no mesmo ano. Digo-o com melancolia. No entanto ela é que está triste! Já se viu? Não vi! Já viste? Rio, 7/10/55 M.B.

 

Esta é a dedicatória que Manuel Bandeira fez para Lygia Fagundes Telles na foto conservada no arquivo dela, no IMS. Ambos nasceram no dia 19 de abril. Ele, em 1886. Ela, em 1923. Perto de se tornar septuagenário, o já consagradíssimo poeta de Pasárgada ri, mostrando a famosa dentuça destacada por ele mesmo no poema “Autorretrato”: (“engoliu um dia/ um piano, mas o teclado/ Ficou de fora")

Bandeira aparece vibrante ao lado da escritora que, no ano anterior, publicara Ciranda de pedra, seu primeiro romance. Com essa obra, Lygia atingira a maturidade literária – dizia Antonio Candido. Até então, era conhecida como a autora de Porão e sobrado, que ela renegaria por julgar os contos “ginasianos”, Praia viva e O cacto vermelho.

Diferentemente de Bandeira, cujo ideal era ser arquiteto e começou a fazer versos quando a tuberculose o impediu de continuar os estudos na Escola Politécnica da capital paulista, depois encampada pela USP, Lygia era determinada desde os dezoito anos de idade: queria ser escritora. O talento e a perseverança com que perseguiu seu objetivo a tornaram a aclamada romancista de As meninas, livro que lhe deu todos os prêmios literários de 1973.

Parece haver um certo contraste entre o riso solto de Manuel Bandeira e o sorriso discreto, quase acanhado, de Lygia Fagundes Telles na primeira foto que se vê aqui. “Ela é que está triste!”, denuncia ele na dedicatória. A que se devia a tristeza da moça? No ano anterior ela tivera duas fortes experiências: lançara o primeiro romance, como já se disse, e dera à luz Goffredo da Silva Telles Neto, seu único filho. Era uma balzaquiana aparentemente bem-sucedida.

Desinteressada na conversa certamente ela não estava. Bandeira era homem de superior inteligência e cultura, além de reconhecido senso de humor. Lygia, interlocutora envolvente – prova a primeira carta que escreveu a Erico Verissimo, aos 18 anos de idade. Ousada, dotada de graça e originalidade, encantou o escritor gaúcho que, em 1966, lhe escreveria: “Porque você é dos melhores papos que conheço, das presenças mais agradáveis e fáceis”.

Não é de se imaginar que a conversa com Bandeira fosse desinteressante e provocasse enfado. Muito ao contrário. O que não se sabe é por que Lygia está triste. É verdade que tinha lá suas inquietações, seu mundo de ficcionista em ebulição constante; podia perfeitamente estar alheia ao ambiente. Sem contar que seria natural alguma inibição diante do poeta que, naquele ano de 1955, lançava a quinta edição das Poesias completas.

Carlos Drummond de Andrade, Francisco de Assis Barbosa, Carlos Ribeiro, Manuel Bandeira e Lygia Fagundes Telles.  Arquivo Lygia Fagundes Telles/IMS

 

A segunda foto é daquela mesma década de 1950, com Drummond sentado, à esquerda, Francisco de Assis Barbosa, grande amigo de Bandeira e biógrafo de Lima Barreto, além do livreiro e editor Carlos Ribeiro, que, curvado, tenta ouvir o que diz o poeta pernambucano, enquanto Lygia, desatenta à conversa naquele instante, e linda como sempre, olha para a câmera fotográfica. O clima é festivo: Bandeira, segurando o jornal dobrado na mão, como era costume seu, com a outra sustenta um copo, enquanto Drummond, tímido, abraça o copo com as duas mãos. Os dois não eram bebedores, mas na década do uísque, 1950, talvez tomassem uma dose – sugere a foto, possivelmente tirada em uma das tardes de autógrafos, criação de Carlos Ribeiro e que levou Rubem Braga a escrever a crônica “Carlos Ribeiro, livreiro”, publicada em Manchete, em 18 de junho de 1955. Do Engenho Novo, onde nasceu, o menino pobre conseguiu emprego na Livraria Quaresma e ali aprendeu a conhecer e amar livros. Tornou-se o dono da lendária Livraria São José e editor com o selo da Livraria.

 

Manuel Bandeira e Lygia Fagundes Telles no lançamento do disco do poeta, Poesias, em1960.  Arquivo Lygia Fagundes Telles/ IMS

 

Na terceira foto, de 1960, Lygia está cinco anos mais velha do que na anterior. Mais velha, mais bonita e elegantíssima. Não olha para a câmera, mas posa, enquanto Bandeira autografa um exemplar de Poesias, LP que fez em coautoria com Drummond e hoje constitui raridade. Gravou doze poemas seus no lado A do disco, e o poeta de Itabira gravou três longos, inclusive “Caso do vestido”, no lado B. Para a edição do LP, entrou em cena mais uma vez o “velho mercador de livros”, como gostava de ser chamado Carlos Ribeiro, que participou da empreitada realizada por Irineu Garcia. Lançado com o selo Festa, o Poesias tem apresentação de Paulo Mendes Campos.

 

Manuel Bandeira em registro de 1966, dois anos antes de sua morte.  Arquivo Lygia Fagundes Telles/ IMS

 

A última foto circulou entre alguns amigos de Manuel Bandeira. Foi tirada em um 19 de abril especial: o de 1966, quando ele completou 80 anos. Está sereno e firme. Julgado com poucas chances de sobrevivência pelo médico que o acompanhou no Sanatório de Clavadel, na Suíça, onde foi se tratar da tuberculose em 1913, foi um octogenário pleno de beleza até que a Dama Branca o levou dois anos depois, em 13 de outubro de 1968.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.


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