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Caderno do LSD: Paulo Mendes Campos

14 de dezembro de 2020

Bem antes de ter se submetido à primeira dose de ácido lisérgico, sob supervisão médica, Paulo Mendes Campos pesquisou com avidez a literatura sobre o assunto. Relatou os efeitos que sentiu em “Uma experiência com ácido lisérgico”, incluída em O colunista do morro e posteriormente recolhida em Cisne de feltro com o título de “Experiência com LSD”. 

Precisou de tempo para maturar as sensações que viveu até se dispor a escrever a respeito. Em 1962, antes, portanto, da inclusão do  relato autobiográfico em O colunista, de 1965, publicou na revista Manchete uma série de quatro crônicas seguidas,  a partir de seus estudos: “O que é o LSD-25” e “Neuróticos e LSD”, “Conversa fiada” e “Fim da conversa fiada final”, de 17 e 24 de novembro e 1 e 8 de dezembro de 1962, respectivamente.

São textos que beiram o didático, mas no segundo, ele finaliza assim: “No próximo número, apresentarei aqui uma conversa com o dr. Murilo Pereira Gomes, médico que orientou as minhas próprias experiências”. Fica-se sabendo, portanto, na crônica de 1º de dezembro, que o dr. Murilo era um jovem médico psiquiatra, formado no Recife em 1954 e morador do Rio de Janeiro desde 1957, dois anos antes de receber o cronista em seu consultório. Na capital pernambucana, descobrira resultados positivos em pacientes de esquizofrenia tratados com algum afeto. Passou a adotar uma “orientação menos clínica e mais empática” e, dessa maneira, reconheceu melhora nos doentes.

Estava afinado com a sua vizinha, do ponto de vista geográfico, a psiquiatra alagoana Nise da Silveira, que em 1958 fundou, no Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconsciente e a Casa das Palmeiras, onde ousou incluir o afeto como um dos elementos da terapêutica ocupacional. Para mostrar a convicção na crença, não se importou de escandalizar a comunidade médica ao introduzir cachorros e gatos como terapeutas dos clientes, assim registrou ela em seus estudos, criando uma função institucional para os animais e rejeitando o nome de doentes para os esquizofrênicos. Eram clientes. Os bons resultados foram inquestionáveis.

Está claro que Murilo Pereira Gomes e Nise da Silveira  tomaram caminhos bem diferentes. Enquanto o primeiro se dedicava à pesquisa com o ácido lisérgico – ele mesmo fizera a experiência em 1961 –, a Doutora, como era conhecida entre os mais próximos, criou um método de investigação da psique por meio das imagens produzidas pelos clientes.

De um modo ou de outro, a década de 1960, no Rio de Janeiro, se iniciava com frentes ousadas de estudos no campo da psiquiatria. A geração da contracultura buscava a “abertura da mente”, o que levou o ator e diretor de teatro Fauzi Arap ao consultório do mesmo dr. Murilo, aventura relatada anos depois em Mare nostrum: sonhos, viagens e outros caminhos.

Paulo Mendes Campos tomou a primeira dose do ácido lisérgico no último sábado de agosto de 1962, às 14h30, conforme declara na abertura do relato publicado dali a três anos, nos nove segmentos da longa crônica de O colunista do morro. Antes, como já se disse aqui, ele escrevera em Manchete, mas ainda sem expor a análise do que sentira nas três sessões que já se somavam no início de dezembro. Muitas das reações que descreverá em O colunista coincidem com as relatadas nos livros em que estudara: “isenção em relação ao fluir do tempo”, “concentração da realidade”, “plenitude da acuidade cromática”, “abismos de inocência”, capacidade de ampliar o campo de “percepção do universo”. A certa altura de “Experiência com LSD”, resume: “Sou hoje (semanas depois da primeira experiência) um homem mais desamarrado, sobretudo bem mais livre de mim mesmo”.

Insisto em lembrar que a experiência foi em agosto de 1962. Em novembro e dezembro, ele publicava as crônicas de Manchete, mas foi no relato completo de O colunista do morro que desenvolveu ideias não necessariamente vividas no consultório médico. Uma delas, aliás, publicada separada e posteriormente em crônica sob o título “De um caderno cinzento”, em 1971,  é sobre seu respeito por uma “vasilha cheia de azeitonas”. É uma maravilha a descrição que faz: “Agora, por exemplo, o pequeno fruto movimenta-se em sua quietude. Sinto suas fibras consagradas ao ritmo de existir: o pedúnculo que se oferece com dignidade; a inelutável verdade da azeitona”. De tão aguda percepção é ainda o trecho em que revela sua intolerância a barulhos: “Aprendi, sem deliberação, a pisar leve, a fechar portas com respeito”.

Penso que sua mulher, a inglesa Joan Mendes Campos, só pode ter admirado muito esses hábitos do marido, que, por sua vez, acrescenta: “A primeira coisa que noto na mulher, depois da qualidade da expressão, é a tonalidade da voz. E amo o rei Lear quando fala da filha morta: “Her voice was ever soft,/ gentle, and low, na excellent thing in woman”.

Suave no modo de se mover, Paulo Mendes Campos era rigorosíssimo nos métodos de estudo. Desde o final da década de 1950, em meio à agitada produção na imprensa – colaborava em vários jornais cariocas –, achava tempo para se dedicar ao estudo do LSD, como se vê no caderno datado de 1959 e registrado em seu arquivo sob o número 039103. As inquietações produzidas pelo gosto excessivo do whisky nos bares do Centro e de Copacabana, no Rio de Janeiro, descoberta daquela década carioca, talvez o impulsionassem a investigar os estados da psique sob diferentes estímulos.

Era diligente. Por trás da despretensão genuína, havia  uma gravidade, um compromisso íntimo com sua busca, fosse literária ou pessoal, e com os meios de persegui-la. Aprofundava-se com muita seriedade nos assuntos que lhe interessavam. Guardou os estudos em seus mais de 50 cadernos; poupava o leitor de acompanhar os passos que dera até chegar ao texto informativo e sedutor, bem fundamentado e pensado, sem deixar transparecer o trabalho de investigação que o precedera. Foi assim, por exemplo, com os notáveis ensaios literários que publicou no Diário da Tarde. Convenhamos: é uma atitude de delicadeza.

Ele abre o caderno 039103 (no alto, as 29 páginas em que trata do assunto) com o título  The use of LSD in Psychotherapy. Passa, então, a resumir as ideias de dezenas de especialistas a respeito do uso do ácido lisérgico: reações, dosagem, indicações, e, pelos nomes citados, devia ter nas mãos o Handbook for the Therapeutic Use of Lysergic Acid Diethylamide-25 Individual and Group Procedures, de Blewett e Chwelos, lançado naquele mesmo ano de 1959. Meticuloso, faz uma espécie de ficha do livro, assim como de outros estudos. O nome de Harold Abramson já lhe era familiar mesmo antes de ler The use of LSD in Psychotherapy and Alcoholism, de 1967, de autoria desse pediatra e alergista que defenderia o uso terapêutico do LSD.

Paulo Mendes Campos levou aproximadamente três anos estudando o assunto até se dispor a tomar as “bolinhas coloridas” e divulgar o feito. Em assunto bem diferente – a poesia de T.S. Eliot –, mostra a mesma tenacidade. É o que se vê em outro caderno, o de registro 039101. Registra aí muitos estudos sobre poesia, especialmente a desse poeta inglês nascido nos Estados Unidos. Em alguma página lê-se a nota “Esboço p/ o livro sobre Eliot”, seguida de um roteiro e de análises de diferentes aspectos da poesia eliotiana. Deduz-se que ele chegou a pensar em escrever um livro sobre o autor de The Waste Land, assunto para outro post da seção Cadernos de Escritores.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.

Os mais de cem cadernos de escritores guardados no acervo de Literatura do Instituto Moreira Salles mostram o quanto esses itens, cada vez mais raros nos nossos dias, serviram no passado de laboratório de criação literária. Esta série em construção revela a singularidade desses documentos e a natureza de seus autores. Confira a coleção de posts elaborados a partir deste material cuidado e catalogado pelo IMS.

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