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O poeta do mar & o cronista do sertão

30 de novembro de 2020
Vicente de Carvalho (à esquerda) e Euclides da Cunha: diálogo epistolar. Fotos de autoria desconhecida.

 

Boa parte da correspondência, ativa ou passiva, de Euclides da Cunha é conhecida por meio de edições publicadas depois de sua morte. Nelas, uma voz ainda não tinha soado até hoje: a do poeta Vicente de Carvalho. A descoberta de mais de duas dezenas de cartas que ele enviou ao autor de Os sertões, encontradas no acervo do Instituto Moreira Salles, torna possível a instauração de um diálogo epistolar que enriquece a biografia dos dois amigos.

Nasceram no mesmo ano: 1866. Euclides da Cunha em Cantagalo, no estado do Rio de Janeiro, em 20 de janeiro, e Vicente de Carvalho na cidade portuária de Santos, em 5 de abril. Ambos tinham, portanto, proximidade com o litoral, mas, se o sertão da Bahia levaria o primeiro a escrever a obra que ficou conhecida como a “epopeia brasileira”, o segundo, fiel à sua Santos, seria chamado de “poeta do mar”.

Contribuiriam para mudanças literárias importantes: Euclides, com Os sertões, de 1902, revelava o mundo nordestino dos jagunços, mostrando um Brasil oposto ao então conhecido nos romances urbanos de Machado de Assis. Vicente de Carvalho, ainda sob os ecos do Romantismo, filiava-se ao Parnasianismo, escola que não tinha mais “certa meiguice dengosa e chorona” dos românticos – observa Manuel Bandeira, para me restringir à crítica menos ortodoxa. Organizador da Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana, Bandeira, com justo entusiasmo, nela incluiu o poeta de Poemas e canções, de 1908.

A expressão literária uniu Euclides e Vicente de forma antológica. É possível que leitores apressados tenham deixado de ler a primeira parte de Os sertões, “A terra”. Mas, se hoje estão acima dos 60 anos, não terão deixado de se encantar com duas páginas dessa obra, publicadas em antologias escolares sob o título “O estouro da boiada”, trecho que o poeta modernista Guilherme de Almeida chegou a dividir em versos, tão ritmada e sonora é a descrição. Duvido que tenham esquecido o rebanho de bovinos que “entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se riscando vivamente o espaço, e inclinam-se, e embaralham-se milhares de chifres”. Assim como se lembrarão, de antologias semelhantes, dos versos de Vicente de Carvalho em “Pequenino morto”, poema de 12 estrofes, cujo refrão ecoa, pungente: “De onde o sino tange numa voz de choro.../ Pequenino, acorda.”

Por que, e como, Euclides da Cunha, militar severo que deixou o sudeste litorâneo para se render ao sertão da Bahia, ligou-se a Vicente de Carvalho, amante das pescarias e poeta que cantou especialmente o mar?

A vivência paulista de Euclides da Cunha vinha dos tempos da fazenda Trindade, que pertencia a seu pai, na atual cidade de Descalvado. Frequentava-a antes de tornar-se colaborador em A Provincia de São Paulo, em 1888, a convite de Júlio Cesar Ferreira de Mesquita, diretor do jornal. Deve ter sido natural encontrar Vicente de Carvalho, paulista que nunca deixou seu estado, no meio jornalístico. Com edulcorada ambientação romântica, o biógrafo Hermes Vieira conta, em Vicente de Carvalho: o sabiá da ilha do Sol, o momento em que o poeta e Ermelinda de Mesquita, conhecida como Biloca, se conheceram e, posteriormente, se casaram. Abençoado o casal, Vicente passava a ser cunhado 1 de Júlio de Mesquita. E, assim como Euclides, colaborador no mesmo periódico, que depois teria o título mudado para O Estado de S. Paulo. Nessa época, Euclides ainda não pensava em morar em São José do Rio Pardo, onde escreveria Os sertões, publicado no mesmo ano de 1902 em que Vicente lançou os poemas de Rosa, rosa de amor.

Mas foi em Santos que escritor e poeta conviveram mais de perto. Ali, em janeiro de 1904, Euclides assumiu o cargo de engenheiro fiscal da Comissão de Saneamento de Santos, onde ficou até abril – apenas quatro meses. Na mesma época, Vicente de Carvalho reabriu seu escritório de advocacia na cidade, depois de uma malograda experiência como fazendeiro. É a partir da saída de Euclides do cargo que se conhecem as cartas trocadas entre os dois.

Quis o imponderável que Euclides fosse infeliz no casamento com Ana Emília Ribeiro, enquanto Vicente viveu em harmonia com a mulher e mais de uma dúzia de filhos. Se o primeiro se orgulhava da força de seu organismo “asperamente seco” – a expressão é dele –, do qual até o “beribéri acreano já fugiu espavorido (sem remédio!) para nunca mais voltar”, 2 o segundo penou de males que o prostraram durante longos períodos. Ambos, no entanto, e cada um a seu modo, amaram a natureza. Quiseram, e conseguiram, a suposta imortalidade prometida pela Academia Brasileira de Letras – a correspondência entre os dois mostrará a que preço. Ambos eram supersticiosos: conta o historiador Roberto Ventura, na acuradíssima cronologia que fez para a edição dos Cadernos de Literatura Brasileira dedicada a Euclides, que o escritor fluminense relatou a Coelho Neto a visão recorrente que o perseguia, nos acampamentos, de uma mulher vestida de branco, dizendo-lhe: “A estrada do cemitério já chegou à porta da fazenda”. E não foi esse o único fato que o inquietou. Em 1908, inscreveu-se em concurso para professor de lógica no Colégio Pedro II. Era o 13º candidato na fila e considerava a posição um mau augúrio. Com fundamento ou não, seria assassinado em 15 de agosto do ano seguinte. Vicente de Carvalho, por sua vez, desistiu da candidatura à ABL em 1905 porque sua mulher intuía que ele morreria se tomasse posse na cadeira número 13. Deixou para 1909. Ambos hoje são nomes de localidades: há uma Euclides da Cunha na Bahia, e uma Euclides da Cunha Paulista em São Paulo, e Vicente de Carvalho é um distrito do município do Guarujá.

As cartas

É possível que o desconhecimento das cartas de Vicente de Carvalho enviadas a Euclides da Cunha justifique a pouca, para não dizer total, falta de referência ao engenheiro em Vicente de Carvalho: o sabiá da ilha do Sol. O historiador Roberto Ventura certamente desenvolveria o tema da amizade entre os dois na biografia que estava escrevendo sobre o autor de Os sertões quando morreu, em 2002, justamente ao voltar da Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo. Mas teve tempo de mencionar o nome do poeta na cronologia aqui já referida.

Tudo o que se sabe até hoje sobre a relação epistolar de Euclides da Cunha e Vicente de Carvalho está contido, primeiramente, na edição de Os sertões da Nova Aguilar de 1966, organizada por Afrânio Peixoto, que traz cartas em apêndice; na reedição organizada por Paulo Roberto Pereira, em 2009; e na Correspondência de Euclides da Cunha, livro organizado por Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti, publicado pela Edusp em 1997.

Clique na imagem para ampliá-laCarta de Vicente de Carvalho a Euclides da Cunha, de 1905, em que fala sobre a candidatura à ABL. Acervo IMS

 

As três edições apresentam apenas oito cartas de Euclides enviadas ao amigo, o que fez com que, até hoje, só se conhecesse o monólogo euclidiano, que se inicia com uma carta de 11 de outubro de 1902 e é retomado, ainda em uma só voz, de 1904 a 1908. No total, há rigorosamente as mesmas oito cartas nas três edições mencionadas.

Mais de um século depois, o achado, no acervo de Literatura do Instituto Moreira Salles, de um conjunto de 24 cartas de Vicente de Carvalho a Euclides, originais, manuscritas, encadernadas em álbum, possibilita o estabelecimento de um diálogo, ainda que de forma lacunar, e amplia o sentido das oito já conhecidas.

Permanece sem eco a primeira carta de Euclides, de 1902, dois meses antes de Os sertões, em suas 637 páginas, chegar às livrarias. Deixa ver em poucas linhas o modo como se reconhecia o remetente: “É que homem prático, massudo, enrijado nessa engenharia rude – não avalio as grandes abstrações dos sonhadores e as promessas enganadoras dos poetas...”. A reflexão funciona como justificativa para o fato de ele ter se dedicado a um relatório e permanecido em São Paulo, em vez de ir a Lorena, como planejara.

O diálogo se abre, de fato, com a primeira carta de Vicente de Carvalho, que agora vem a lume, datada de 24 de abril de 1904. Mostra um correspondente lastimoso por saber que em pouco perderia a companhia do amigo. Escreveu no momento em que, de sua fazenda em Franca, no interior paulista, tomou conhecimento do pedido de demissão de Euclides do cargo de engenheiro fiscal na Comissão de Saneamento de Santos, onde se desentendera com Hugh Stenhouse, gerente da City of Santos Improvements, companhia de origem inglesa que fazia a exploração de serviços públicos na cidade. O significado da perda para Vicente é claro: “Vejo agora que me iludi; e lastimo-o não só pelo desarranjo que no momento te causará o deixares de supetão um bom emprego, mais ainda porque antevejo que vou perder com isso a tua excelente companhia, tão preciosa para mim”.

A resposta de Euclides vem no dia 27, instaurando efetivamente o diálogo, agora possível de ser lido. O remetente começa desculpando-se por ter esbravejado – o verbo é dele – pela demora de notícias do amigo: “Aqui estou, diante de tua carta de 24, e a bater com ambas as mãos no peito, penitenciando-me de haver comentado amargamente o teu silêncio”. Passa Euclides a relatar suas iniciativas em busca de novo trabalho. Eleito para a ABL no ano anterior, e gozando do prestígio de autor de Os sertões, tratou de ir ao Rio de Janeiro para tentar “boa colocação no funcionalismo”, diz ele na carta do dia 27, não sem boa dose de ceticismo: “Nada caracteriza melhor as deploráveis convicções deste país para os trabalhadores verdadeiramente dignos de tal nome”.

Suas tentativas foram bem-sucedidas, e, em 9 de agosto de 1904, Euclides da Cunha foi nomeado, pelo barão do Rio Branco, chefe da Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira entre o Brasil e o Peru, com a missão de fazer o levantamento cartográfico do rio. Partiria para Manaus em 13 de dezembro, mas, antes disso, empenhou-se em lançar a candidatura de Vicente de Carvalho à ABL: “Afirmo-te que agirei fortemente”, prometia ele em carta escrita ainda do Guarujá, onde morava com a família, exatamente um mês depois da nomeação e antes de voltar para o Rio de Janeiro, de onde seguiria para o Amazonas.

O curioso é que Euclides abraçava a campanha pela imortalidade do amigo antes mesmo de tomar posse na cadeira 7 da ABL, para a qual fora eleito em 21 de setembro de 1903. Só o faria três anos depois, em 18 de dezembro de 1906, quando seria recebido pelo crítico literário Sílvio Romero. A batalha que assumiu para a eleição de Vicente de Carvalho seria longa e pontuada de idas e vindas, e constituiria o leitmotiv da correspondência entre os dois, sem que faltassem lances divertidos ou tocantes, reveladores de uma amizade entre temperamentos tão diversos quanto sedutores.

São três as cartas de Vicente de Carvalho datadas de 1904: 24 de abril, 4 de setembro e 19 de outubro. Na última, ele mostra dar prosseguimento à corrida pela ABL, de acordo com a orientação de Euclides, informando que naquele dia formalizou sua candidatura ao próprio Machado de Assis. Portanto, enquanto Euclides, já nomeado, se prepara para a expedição, o outro tenta se enredar na teia acadêmica, apesar das frequentes queixas de doença, como quando, na mesma carta, diz sofrer de “colite com congestão no fígado”.

Entre dezembro de 1904 e dezembro de 1905, Euclides se entregava ao reconhecimento dos 3.210 quilômetros do rio Purus, mas não deixou de escrever a Machado de Assis, a quem deu seu voto a Vicente de Carvalho, acreditando que ele mantinha a candidatura. Não há, entre as oito cartas conhecidas que escreveu a Vicente, nenhuma de 1905, ano em que esteve à frente da expedição, como não há de 1906 ou 1907. No entanto, uma única carta de Vicente, datada de fevereiro de 1905, sem indicação do dia, dá notícia de pelo menos um “precioso cartão” recebido do Amazonas. Pelo conteúdo da carta, supõe-se que Euclides lhe escrevia, sim, e é provável que reclamasse do silêncio do amigo, que lhe declara: “Eu só a pau escreveria cartas com assiduidade, se houvesse entre os meus amigos algum cristão com tanta virtude que me desse pauladas em homenagem à amizade”.

Clique na imagem para ampliá-la.Carta de Vicente de Carvalho a Euclides da Cunha, de 1909, em que comenta a "rajada de desgraças" do amigo. Acervo IMS

 

Não era o caso. Assim, Vicente prefere participar-lhe que desistiu da candidatura à vaga na ABL. Optou por ouvir a mulher, Biloca, que temia a morte do marido se ele insistisse em pleitear o que chamou, nessa mesma carta, “cadeira fatídica”, a 13, na qual, continua ele, “sucumbiram o Taunay, Francisco de Castro e Martins Júnior”. Mais prudente deixar o lugar para um candidato não supersticioso: “Deixei-me influir algum tanto dessa superstição, e só escrevi 14 cartas”, confessa ele, referindo-se ao ritual de candidato, que deve escrever aos 40 membros da Academia, pedindo votos. Adiava o sonho da imortalidade, mas realizava um projeto antigo: a fundação de um jornal, que teria simplesmente o nome de O Jornal, e para o qual apela a Euclides:

Preciso como de pão para a boca de tua admirável prosa, enriquecida agora pelas tonalidades novas da natureza amazônica... Diabo, vou resvalando no bestialógico. Necessito de uma prosa de ouro para o meu jornal – e peço-te socorro, como amigo velho caído em necessidade. Sê generoso, nababo!

Não creio possível imaginar o modo como essa questão de ambições imortais repercutia no cotidiano de Euclides, embrenhado na Amazônia. Terá sido isso que o impediu de guardar cartas de Vicente, que, nesse ano, ficou de maio a setembro tratando-se nas águas termais da cidade belga de Plombières, onde, de fato, obteve melhoras de saúde significantes? Ou terá o poeta, correspondente relapso consciente, se entregado ao processo de cura e não pensado em cartas?

Depois das notícias enviadas por Vicente em fevereiro de 1905, passam-se três anos sem, até onde se sabe, nenhuma carta trocada entre os dois. O que sabemos é que, nesse período, Vicente de Carvalho, na Europa ou em longas pescarias no Brasil, vivia, segundo seu biógrafo, a harmonia familiar com a mulher e 13 – em 1908 serão 12 – dos 15 filhos que o casal teve. Bem ao contrário de Euclides da Cunha, que, ao chegar ao Rio de volta do Amazonas, em 5 de janeiro de 1906, encontraria a mulher, Ana, grávida do cadete adolescente Dilermando de Assis. Euclides viu-a, aos 33 anos, dar à luz Mauro Ribeiro da Cunha, que morreu sete dias depois de nascido, e o registraria como filho, assim como a Luís Ribeiro da Cunha, também filho de Ana e Dilermando, que nasceria em 16 de novembro de 1907. Só mais tarde Luís adotaria o sobrenome do pai biológico.

Como não se encontraram cartas de 1907, deixa-se de saber se Vicente contou ao amigo que, nesse ano, tivera o braço esquerdo gangrenado e amputado, consequência de inflamação na mão, ferida durante uma de suas lendárias pescarias em alto-mar. Divertido, conta seu biógrafo, ele costumava dizer: “Camões não foi manco de um olho? Eu sou caolho de um braço.”

A correspondência, até onde se pode apurar depois do recente achado, reinicia-se em 31 de agosto de 1908, com carta de Vicente de Carvalho no auge da preparação do livro que lhe abrirá as portas da Casa de Machado de Assis: Poemas e canções, coletânea prefaciada por Euclides da Cunha reunindo versos de Rosa, rosa de amor, além de novos, entre os quais os de “Fugindo ao cativeiro”. Sobre essa composição, a carta traz um dado revelador: o escravo fugitivo, que luta heroicamente até a morte, não só existiu como o poeta conhece seu nome:

Chamo a tua atenção para o pequeno poema “Fugindo ao cativeiro”, que se funda em dois episódios históricos, e no qual tenho grande confiança. Deu-se em 1887, na serra de Santos, o combate entre a escolta e um dos negros fugidos, que resistiu, à foice, e morreu batendo-se, e matando um soldado. O fugitivo chamava-se Pio, e, pela autópsia, se verificou que não ingeria alimento algum havia três dias... Não há, portanto, fantasia naquele poemeto, que será objeto de uma nota; isto é, não há fantasia quanto ao assunto.

É estranho que Vicente de Carvalho tenha se referido assim a “Fugindo ao cativeiro”, que tem quatro longos segmentos, e no qual Manuel Bandeira identificou “força épica”. A julgar pelo tipo de comentário que desenvolve sobre o poema, o dado biográfico do escravo não comoveu Euclides. O que o seduz é a terra, e não o drama humano do heroísmo de Pio – agora se sabe o nome da personagem trágica. Os versos aproximam, esteticamente, engenheiro e poeta. Euclides traz seu conhecimento de geologia para a análise poética. Vale muito a pena – creio eu – reler as palavras do prefaciador a respeito da Serra do Mar. Escreve ele que o poeta,

para no-la definir, e no-la agitar sem abandonar a realidade, mostrando-no-la vivamente monstruosa, a arrepiar-se, a torcer-se nas anticlinais, encolhendo-se nos vales, tombando nos grotões, ou escalando as alturas nos arrancos dos píncaros arremessados, requer-se a intuição superior de um poeta capaz de ampliar, sem a deformar, uma verdade rijamente geológica 3, refletindo num minuto a marcha milenária das causas geotectônicas que a explicam.

“O chão”, continua Euclides, “que tumultua, e corre, e foge, e se crispa, e cai, e se levanta” é o mesmo chão que a geologia denomina “solo perturbado”, para representar os movimentos do terreno – identifica, atento às metáforas que cientistas criam, talvez sem se dar conta. A Euclides, autor dos poemas de Ondas desde a adolescência, não escaparia a figura de linguagem. O prefácio é texto de um engenheiro e poeta que não poupa erudição, sobretudo quando se refere a fenômenos da natureza. Euclides está inteiramente em seu território, falando da terra, reconhecendo-lhe as marcas, identificando-lhe os movimentos e quase traduzindo, em prosa, os versos que o encantam em “Fugindo ao cativeiro”.

Tudo isso está no prefácio que, antes de ser publicado no livro, mereceu a maior atenção dos dois interlocutores. Desde que Euclides pôs o ponto-final no texto, em 30 de setembro de 1908, ele e Vicente começaram a pensar em publicá-lo simultaneamente em dois jornais: o Jornal do Commercio, do Rio, e O Estado de S. Paulo, o que representaria valioso impulso para a divulgação de Poemas e canções. “Agora, que a cólica me deu tréguas, escrevo para dizer-te: 1o se o Jornal só puder publicar no dia 3 (terça-feira), telegrafa-me, e o Estado adiará a publicação para esse dia. Não haverá inconveniente nisso” –, escreve Vicente de Carvalho em 31 de outubro.

Mas um atraso na comunicação daquele início do século 20 causou um desencontro, que se explica a partir das cartas descobertas. Até agora, ficava­-se sem entender o porquê das palavras de Euclides da Cunha na carta de 6 de novembro de 1908: “O nosso único contratempo foi a antecipação do Estado, que impediu a publicação do Jornal”. Publicação de quê?, perguntava o leitor. Antecipação de quê? Agora, lendo-se o que escreveu Vicente três dias antes, fica claro: a antecipação, por parte do Estado, em publicar o prefácio fez com que o Jornal do Commercio se desinteressasse do texto. A combinação foi por água abaixo.

Não faltou a Euclides, na mesma ocasião, o comentário cáustico dirigido aos imortais, personificado no autor de Canaã: “Graça Aranha, por exemplo: é um sujeito largo de carnes e de cangote grosso – esplêndido para meter-se uma farpa. [...] O que afirmo é o seguinte: nos arraiais opostos há o espanto. Não contavam com a resistência. Já sabem que não cairemos da primeira arrancada. Já apelam para o segundo escrutínio.”

São 15 cartas enviadas por Vicente de Carvalho em 1908, 11 delas só no mês de novembro, precedidas de uma de agosto e outra de outubro, seguidas de mais duas, em dezembro. Os contatos para a candidatura ferviam. A contagem de votos declarados pelos acadêmicos seguia acelerada. O ritmo de escrever a 40 imortais e o cuidado de lhes avaliar os humores tomavam tempo e exigiam atenção de Vicente de Carvalho. Esperanças alternadas com expectativas frustradas, decepções, mas, dessa vez, nada de desânimo. Poemas e canções estava no prelo. A excitação agora era grande por parte do candidato, que, de acordo com uma carta de 31 de outubro, sempre dando notícias das cólicas que o castigavam, não descuidava da campanha. Os votos dos acadêmicos, como revela em 3 de novembro de 1908, eram contados um a um:

Desculpe esse estilo de quem escreve tresnoitado, aflito, e doentíssimo. Estranho imenso que o Raimundo não vote em mim e a pretexto de que não resido no Rio. Acho isso assombroso – como a falta do voto do Alberto de Oliveira, que, na outra eleição, lastimou não votar em mim, e prometeu-me o voto para a primeira ocasião. Os poetas laureados repudiam-me... Que dirá deles e de mim o futuro?

Ele deixava de contar com os votos de dois parnasianos essenciais, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira, ambos bem sentados nas cadeiras de veludo azul da ABL havia alguns anos, mas ainda não sabia que teria seu nome ligado aos deles, no futuro, por força da melhor crítica literária, que desprezou a trindade completada por Olavo Bilac e considerou justo transformá-la em quarteto, acrescentando-lhe o nome: Vicente de Carvalho.

Em 4 de novembro de 1908, uma alegria: saem os primeiros exemplares de Poemas e canções, e ele começa a fazer as remessas de livros à imprensa e a acadêmicos. Entre as mazelas, dessa vez é uma deslocação dos rins – assim explica ele – que o mantém na cama.

O prefácio de Euclides é consagrador; a crítica recebe o livro muito bem. Afirma Octávio D’Azevedo em Vicente de Carvalho e os Poemas e canções, de 1970, que foi Euclides da Cunha quem definiu o autor dos versos como o “poeta do mar”. De fato, o prefaciador destaca, nos poemas, a força da floresta e da montanha, mas afirma que nada se compara à atração que o poeta sente pelo mar. Manuel Bandeira vai nessa linha. Em seu Apresentação da poesia brasileira, defende que Vicente de Carvalho “mostrou força dramática em ‘Pequenino morto’, épica em ‘Fugindo ao cativeiro’. Mas foi acima de tudo um grande pintor do mar, o mais exato, o mais vigoroso, o mais sugestivo que tivemos.”

Ao identificar em Vicente de Carvalho “um grande pintor do mar”, Bandeira não o reduz a “poeta do mar”. Mais importante que a classificação temática foi o trabalho que fez o poeta de Pasárgada ao acrescentar o nome de Vicente à tríade parnasiana em todos os seus trabalhos de antologista. Para Bandeira, com Poemas e canções, Vicente “veio revelar um quarto mestre em nada inferior aos outros, e a certos aspectos mesmo superior – mais vário, mais completo, mais natural, mais comovido”, afirma na Apresentação da poesia brasileira.

E o mar então... O mar, o velho confidente
De sonhos que a mim mesmo hesito em confessar,
Atrai-me; a sua voz chama-me docemente,
Dá-me uma embriaguez como feita de luar...
O mar é para mim como o Céu para um crente.

Bandeira privilegia a tal ponto o talento para as evocações marinhas de Vicente que, apesar de ter reconhecido “força épica” em “Fugindo ao cativeiro”, não só não incluiu o poema na Apresentação, como tampouco na Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana ou em Noções de história das literaturas.

A correspondência se encerra em 1909, naturalmente. Ano da morte de Euclides da Cunha. Em 27 de janeiro, Vicente lhe escrevia: “Acabo de receber a tua carta, e alarma-me a rajada de desgraças em que me falas; mas espero que seja isso apenas um exagero de impressão, e que se trate de uma série dessas contrariedades pequenas mas irritantes de que a vida é tão cheia”.

Não era. A última carta de Euclides da Cunha, de 10 de fevereiro de 1909, mostra que ele apreendia o futuro: “Quem definirá um dia essa Maldade obscura e misteriosa das coisas, que inspirou aos gregos a concepção indecisa da Fatalidade?”.

A resposta não tinha nome, mas a tragédia não tardou: em 15 de agosto, um domingo de chuva, Euclides da Cunha armou-se de um revólver e foi à casa de Dilermando de Assis para matá-lo. Atingido pelas balas da arma do então cadete, que revidou, ali mesmo morreu, deixando ferido o irmão de Dilermando, Dinorá. Ainda não foi esse o último ato da tragédia. Em 1916, Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, tentou vingar a morte do pai ao atirar em Dilermando, que o matou. E, em 1921, Dinorá, paralítico, se suicidou.

É possível que, no dia da morte de Euclides, o “poeta do mar” ainda estivesse em Plombières, de onde enviou sua última carta, em 9 de julho de 1909. Podia estar a caminho do Brasil, mas talvez não se lembrasse mais das apreensões do amigo, expressas em fevereiro.

Homem de “sorriso irônico e riso bondoso”, descreve-o o biógrafo, Vicente de Carvalho foi eleito para a ABL em 10 de maio de 1909: “A Biloca manda-te parabéns pelo teu triunfo – porque a minha eleição foi um triunfo teu” –, escreve ele em carta de 5 de maio, ainda “atordoado” com a eleição. Imagina-se que Euclides tenha compartilhado da vitória, mas, morto em 15 de agosto daquele ano, deixou de testemunhar a posse do amigo na cadeira 29, na sucessão do teatrólogo Artur Azevedo. Mas não perdeu a cerimônia, que não houve: Vicente de Carvalho foi recebido por carta, deixando Artur Azevedo sem o elogio de praxe, feito no discurso do empossado. Venceu, mais uma vez, a superstição de Biloca. Não ficou sem resposta a pergunta de Vicente naquela carta de 3 de outubro de 1908, quando, ao se referir a seus pares, perguntava: “Que dirá deles e de mim o futuro?”.

  1. Embora sejam frequentes as referências a Júlio de Mesquita como sogro de Vicente de Carvalho, o parentesco é outro: os pais de Ermelinda de Mesquita, portanto, sogros de Vicente, eram o rico negociante Francisco Ferreira de Mesquita e Maria da Conceição Ferreira de Mesquita. O casal teve mais quatro filhos, entre os quais Júlio César Ferreira de Mesquita, nascido em 1862 e proprietário de A Provincia de São Paulo, que ele renomearia para O Estado de S. Paulo. Conhecido como Júlio de Mesquita, era cunhado de Vicente, e não sogro
  2.  Carta datada de 4 de dezembro de 1908.
  3.  O grifo é meu.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.

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