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Cadernos de escritor: Paulo Mendes Campos

04 de junho de 2018

Os mais de cem cadernos de escritores, no acervo de Literatura do IMS, mostram o quanto esses itens, cada vez mais raros nos nossos dias, serviram de laboratório de criação literária a autores como Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Ana Cristina Cesar, entre outros. A série Cadernos de escritor revela a singularidade desses documentos e a natureza de seus autores.

Realidade e lirismo

O hábito de juntar cadernos é — ou pelo menos era — comum entre escritores. Muitos desses cadernos sobrevivem em arquivos pessoais, seja nas casas de autores ou confiados a instituições, como os que estão sob a guarda do IMS. Só de Paulo Mendes Campos são 55, entre os quais um de capa de couro marrom, em que, depois de um jantar num restaurante de Estocolmo, o jornalista, cronista e poeta despediu-se da capital da Suécia, escrevendo: “Honestidade, teu nome é sueco”.

Aquele sábado frio de 7 de abril de 1956 marcava o início de uma viagem de dois meses que, a convite do governo soviético, uma comitiva de 21 profissionais de áreas e países diversos fazia à então União Soviética, à China e à Polônia.


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Depois de uma escala em Helsinque, a não menos gélida capital da Finlândia, Mendes Campos aterrissou com seus companheiros em Leningrado. Nem mesmo a turbulência que enfrentou entre as duas cidades o impediu de fazer bem-humoradas anotações no diário de viagem. A letra trêmula sugere o esforço para registrar que a aeromoça nada serviu, tampouco mandou os passageiros apertarem cinto ou pararem de fumar.

Do ponto de vista profissional, se ele era jornalista até no céu, o enxadrista argentino Raúl Sanguinetti não ficava atrás: equilibrava como podia o tabuleiro para jogar com um russo, cujo nome os balanços do voo tornaram ilegível nos garranchos de Paulo Mendes Campos.

Naquele ano de 1956, durante o xx Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), o secretário-geral Nikita Kruchev denunciara os crimes cometidos por Stálin. A nação estava perplexa, e o Comitê da Paz de Leningrado, que contava com a intérprete de português Clara Vladov [Cl.], queria mostrar aos visitantes um país em busca de uma nova ética. Visitas a fábricas, hospitais, escolas fizeram Paulo Mendes Campos anotar, com detalhes, as reformas implementadas por Kruchev desde 1953, quando passou a liderar o PCUS, depois da morte de Stálin: “O XX Congresso começa o degelo pela decoração de gabinetes e saguões: muitas vezes a gente olha para a parede em busca de Stálin e só vê uma vaga mancha retangular em torno de um prego”, escreveria ele na crônica “Diário de Moscou”, inédita em livro até hoje.

Já se disse que “a alma é um tecido injustificável”. Assim, enquanto as delegações recém-chegadas se instalavam no Hotel Astoria, as cortinas de veludo verde do quarto de Paulo Mendes Campos o devolviam à sua “furiosa adolescência”, em Belo Horizonte – registra ele em seu caderno. O quarto de hotel o transportou a 1918, e ele se sentiu não em Leningrado, mas em São Petersburgo, nome da cidade até aquela data, retomado depois, em 1991.

Grande parte das anotações do caderno que se mostra aqui representa fragmentos de crônicas como “De um caderno: três escritores soviéticos”, incluída na antologia De um caderno cinzento: crônicas, aforismos e outras epifanias.

O cuidado com que Paulo Mendes Campos conservou esses documentos deixa clara a importância que tiveram na sua vida pessoal e, acima de tudo, literária. Ali ele registrou lembretes do cotidiano e poucas, mas valiosas, notas biográficas. O que ressalta são as anotações de ideias para desenvolver em crônicas; de frases, dele e de outros; planos de antologias; fichamentos de leituras; sim, fichamentos de leitura, como os de um estudante aplicado, sendo ele um erudito. E listas: de personagens da literatura universal; de personagens bêbados da literatura universal; listas e listas das naturezas mais diversas.

Nas páginas 12 e 14 do caderno de capa marrom vê-se o esforço que ele fez para estudar o alfabeto cirílico e o que anotou de precioso nessa sua viagem:

“Leningrado, 15 de abril, Hotel Astória
– Despeço-me de meu quarto c/ o que não se poderia chamar saudade mas c/ a palavra aproximada que não existe. Há menos palavras do que as infinitas gradações do sentimento e da emoção; os oradores dizem isto mas talvez não o realizem (todos) o que significa para o espírito minucioso um dicionário de variedades vocabulares de natureza puramente técnica. Os homens não procuraram definir a gama de suas emoções. O léxico é mais objetivo do que subjetivo; quero crer que os homens tenham tido razão. Definir emoções é, na escala da luta pela vida, uma categoria inferior à definição de objetos.”

Dizia o poeta e romancista Ribeiro Couto, autor de Cabocla, que aprender uma língua estrangeira no país de origem é uma sensualidade. Os estudos do alfabeto cirílico e dos caracteres chineses nos cadernos de Paulo Mendes Campos provam que ele não abriu mão dessa volúpia: “Aproveito os minutos que tenho para estudar um pouco de russo; não é nada mas é um incomparável desafogo poder soletrar as tabuletas e entender, aqui e ali, uma ou outra palavra” – registrou ele.

Nem mesmo o desprazer de uma segunda turbulência, dessa vez no voo entre as capitais da Rússia e da Polônia, deixaria de merecer registro e até mesmo de se transformar em poesia: “Moscou-Varsóvia”, poema composto na capital polonesa e incluído em O domingo azul do mar, de 1958.

Os fragmentos dos cadernos reproduzidos aqui expõem registros abreviados, ligeiros, quando a emoção ainda não tinha sido depurada nas crônicas que ele publicaria, sobretudo na revista Manchete, onde colaborou durante anos. De qualquer modo, o olhar do viajante e o do cronista são um só: o de uma realidade nova e o de um cotidiano impregnado de lirismo, como o que viveu em Pequim, cidade que o encantou.

O escritor Paulo Mendes Campos / Acervo IMS
  • Elvia Bezerra é coordenadora de literatura do IMS.

SÉRIE CADERNOS DE ESCRITOR

Rachel de Queiroz

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