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D.A.P. e Paulo Emílio: amigos na arte e na vida

14 de agosto de 2020
Decio de Almeida Prado (à esquerda) e Paulo Emílio Salles Gomes (à direita), recém saídos da adolescência, na casa de Paulo Emilio, em foto de 1934 com mais dois colegas:  Paulo Afonso Mesquita Sampaio (de óculos) e um não identificado. Arquivo Decio de Almeida Prado/ IMS

 

As primeiras fotos de Paulo Emílio Salles Gomes conservadas no arquivo Decio de Almeida Prado são datadas de 1934 e revelam, desde então, uma sintonia que o futuro tornaria clara.

Nascido em 17 de dezembro de 1916, Paulo Emílio, ainda menino, deve ter recebido ecos do movimento modernista que eclodia em São Paulo na histórica Semana de Arte Moderna de 1922. Aos 17 anos de idade já se juntava a ninguém menos que Oswald de Andrade para fundar um clube literário intitulado “Quarteirão”, além de, juntos, promoverem eventos com foco na cultura e política brasileiras.

Mal saído da adolescência, deixava evidente seu gosto pelas artes. Não foi sem outra razão que no ano seguinte, 1934, ele aparece em foto com Decio de Almeida Prado e mais dois companheiros em torno de garrafas de, seriam de vinho? Não importa. Fermentavam ali ideias que teriam forte repercussão na cultura brasileira.

Dessa mesa sairiam dois críticos de artes fundamentais: Decio no teatro e Paulo Emílio no cinema. Enquanto outro par de amigos, ao centro, se mantém sério, Decio, irreverente e descontraído, com as pernas cruzadas displicentemente sobre a cadeira, exibe um sorriso de cumplicidade compartilhado com Paulo Emílio, sentado na extremidade direita da mesa. A postura dos dois aponta para a liberdade que os atrairia em suas respectivas carreiras.

Decio de Almeida Prado (à esquerda) e Paulo Emílio Salles Gomes jogam xadrez sob o olhar de Paulo Afonso Mesquita, nos anos 1930. Foto de autor não identificado. Arquivo Decio de Almeida Prado/ IMS

 

O que ressalta nas fotos de juventude da dupla é que, fosse diante de um tabuleiro de xadrez ou fazendo pose diante de uma janela, Paulo Emílio tem o sorriso que permanecerá na maturidade, quando fará, com Lygia Fagundes Telles, um belo casal.

Ele e Decio não foram apenas fundadores, mas essenciais em cada uma de suas áreas. Depois de passar dois ou três anos em Paris no final da década de 1930, onde descobriu o gosto pelo cinema, Paulo Emílio retornou ao Brasil em 1940 e logo fundou o Cinema Club. Estava com 26 anos e, simultaneamente, se matriculou na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), onde Decio já estava desde 1936. Foi nessa ocasião que se formou uma constelação de brilho raro: o próprio Paulo Emílio, Decio de Almeida Prado, Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza, Ruy Coelho e Lourival Gomes Machado, a geração que movimentaria a cena cultural paulista dali em diante.

Ainda que não tivessem chegado à sala de aula no mesmo tempo, o grupo estava sempre na USP e gravitava em torno do professor Jean Mangüé, que merece aqui um parêntese. Francês de espírito livre, ali trabalhou de 1935 a 1944, chegado ao Brasil pela iniciativa que ficou conhecida como “Missão Francesa” e que trouxe a São Paulo intelectuais como Lévi-Strauss, Fernand Braudel, Roger Bastide e outros, todos para dar vertebralidade à USP, criada em 1934.

Decio de Almeida Prado e Paulo Emílio Salles Gomes em 1934, em São Paulo. Foto de autor não identificado. Arquivo Decio de Almeida Prado/ IMS

 

Apaixonado por literatura, pintura e música, Mangüé era cético em relação às convenções universitárias. Dava aula de filosofia, e, como amante da liberdade, contribuiu de forma decisiva para as escolhas intelectuais dos alunos – e que alunos – daquela turma que renderia experts em diferentes campos da crítica.

No discurso intitulado “A importância de não ser filósofo”, Antonio Candido faz o perfil do professor, que define como “cintilante”. Lembra, por exemplo, do objetivo de Mangüé: “Quero que a filosofia lhes sirva para ler o jornal, analisar melhor a política, compreender melhor o seu semelhante, entender melhor a literatura e o cinema”. Era tudo o que aqueles jovens inquietos desejavam. Identificavam-se muito mais com a independência do mestre, com o brilho de sua inteligência, do que com um estudo mais tradicional de filosofia.

Decio de Almeida Prado, nascido em 14 de agosto de 1917, era apenas um ano mais novo do que Paulo Emílio. Aos 29 anos, ele dava início à carreira de crítico de teatro do jornal O Estado de S. Paulo, mas Jean Mangüé, que deixara o Brasil em 1944, não pôde ver de perto a estreia do ex-aluno, dois anos depois de sua partida. No Estadão, Decio assinava a coluna “Palcos e Circos”, que, a partir de 1959, se chamaria simplesmente “Teatro”. Até aí o nome do autor não era oficialmente escrito, embora ninguém ignorasse que se tratava de Decio de Almeida Prado. Conta Paulo Autran no saboroso texto “Fecha-se o pano de uma estreia no TBC” que, na década de 1950, não havia ator ou diretor de teatro que deixasse a cena sem se perguntar o que Decio tinha achado do espetáculo.

Mal a cortina descia, o crítico deixava o teatro e ia direto para a redação do jornal escrever suas primeiras impressões sobre o que acabara de ver. O elenco, que ficava até o amanhecer no Nick bar, saía dali para comprar os primeiros exemplares do Estadão e ler o comentário de Decio. Nos dias que se seguiam, ele elaborava seu pensamento em textos ensaísticos, saciando a curiosidade de quem queria saber todos os porquês das observações feitas de primeira hora. A rotina perdurou até que a assinatura feita de iniciais, D.A.P. , passou a aparecer, entre 1964 e 1967, período final de sua colaboração no jornal, onde ele militou durante 22 anos.

O casal Paulo Emílio Salles Gomes e Lygia Fagundes Telles com Decio de Almeida Prado. Orlândia, São Paulo, 1974. Autor não identificado. Arquivo Decio de Almeida Prado/ IMS

 

Enquanto isso, Paulo Emílio criara a Cinemateca Brasileira, para a qual foram providenciais seus contatos na Europa, e se tornava um dos pioneiros do estudo de cinema no Brasil – provam os mais de 400 ensaios que escreveu sobre o assunto, como se pode ler em “Tudo é Paulo Emílio”.

As aulas de Jean Mangüé não deixaram de ressoar no grupo que, em maio de 1941, criou a revista literária Clima. Ali, Antonio Candido publicou seu primeiro artigo, antes de assumir a crítica literária no Correio da Manhã. Nesse periódico, Paulo Emílio se encarregava da coluna de Cinema, e Decio, naturalmente, de Teatro. Aliás, por estar se preparando para casar, e depois em lua de mel, ele só começaria a colaborar na revista a partir do terceiro número.

A turma, que incluía Lourival Gomes Machado, nas artes plásticas, e outros, deu nome a toda uma geração, a geração Clima. Ligavam-se por afinidades naturais e essencialmente investigativas. Dali migraram para o também lendário “Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo”, em 1956. O diretor do “Suplemento”? D.A.P. Na nova empreitada, não mais os recursos parcos da Clima, mas trabalho bem remunerado e largueza para pagar a colaboradores do quilate de Bandeira, Drummond, Lygia Fagundes Telles e outros.

Vinte anos depois, Decio e Paulo Emílio eram fotografados com o mesmo entusiasmo que os unira no início.

Ao visitar o Brasil, a primeira vez logo depois da guerra, e a segunda, em 1968, Jean Mangüé encontrou mais que consolidadas e brilhantes as carreiras de seus ex-alunos.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.


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