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Caderno da Grota do Jacob: Paulo Mendes Campos

04 de agosto de 2020

Ali pelos meados da década de 1960, Paulo Mendes Campos comprou o sítio da Grota do Jacob, que ficava entre Araras e o trevo de Itaipava, num caminho sinuoso que saía da Estrada do Contorno e, subindo, dava acesso ao sítio.

 

Paulo Mendes Campos com o filho Daniel e as cadelas Bobinha e Jacobina na Grota do Jacob em maio de 1973. Coleção particular Daniel Mendes Campos

 

O projeto da casa, que, enquanto ele lá morou, ficou inacabada, era de Zanine, arquiteto “com talento e sem diploma”, lembra André Lara Resende, futuro proprietário. Construção de pau a pique, utilizando material de demolição, especialmente madeira, erguia-se sobre um córrego que passava no terreno e que, represado à frente da casa, fazia uma piscina natural, em cuja água gelada o cronista de “O amor acaba” gostava de mergulhar.

O núcleo da casa formava um retângulo, com dois quartos e um banheiro em cada uma das extremidades, separados pela sala de estar. Um lado da construção se apoiava no terreno, o outro ficava sobre pilotis de madeira.

Dirigindo o seu Ford Corcel, Paulo Mendes Campos, com Joan, a mulher, e os filhos Gabriela e Daniel, cultivavam, durante anos, o hábito de subir a serra para aproveitar o fim de semana. Paulo não gostava de carro; ficava tenso, dirigia mal, lembra a filha. Mas sempre chegaram à Grota sãos e salvos. Ao entrar no terreno, paravam na casa de uma senhora que cuidava dos cachorros, todos vira-latas, e, seguidos dos latidos de boas-vindas dos bichos, inclusive das cadelas Bobinha e Jacobina, entravam na garagem improvisada da construção por terminar.

Zanini não só foi autor do projeto da casa como a dividia com os Mendes Campos. Era coproprietário. Ainda não fizera a sua própria moradia, o que só se concretizaria em 1968, quando encontrou, numa ponta do bairro carioca da Joatinga, o local que julgou ideal para construir a sua. Nesse bairro, que descortina o mar, hoje são reconhecíveis as maravilhas que ele ergueu, sempre com o uso de material de demolição, e integrando casa e natureza. Esta seria a sua marca.

Assim foi na Grota do Jacob, com a pedra bruta que se projetava dentro da cozinha e sala de almoço, construídas externamente à parte social. Ali, e não na sala de estar, a família e os amigos se reuniam em torno de uma grande mesa retangular, com bancos, para vagarosas conversas regadas a bom vinho. Uísque também não faltava.  Afinal, na crônica “Por que bebemos tanto assim?”, Paulo Mendes Campos mesmo explicou: “Bebemos para empatar com o mundo. O mundo está sempre a ganhar da gente, de 1 a 0, 2 a 0... bebe-se na esperança de igualar o marcador”.

Na cidade, o erudito Paulo Mendes Campos fazia suas leituras – e as anotava nos mais de 50 cadernos, hoje sob a guarda do IMS. Ao chegar à Grota, era o homem da natureza: das plantas, dos bichos, da água gelada do córrego; o homem que achava uma graça enorme quando Nelinho, o vizinho, chegava batendo palmas e dizendo: “Oh, seu Paulinho, seu Paulo, seu Paulo Mendes Campos”. Gozava a vida simples, distante das “loucas noitadas e angústias urbanas de uma época que já o cansava”, diz o filho Daniel.

“Vivo em apartamento só por ter cedido a uma perversão coletiva”, escreve o cronista em “Pai de família sem plantação”, incluída em Cisne de feltro. Todo o seu gosto pelo campo, toda a sua identificação com a natureza estão nessa crônica em que ele expõe o dilaceramento entre o cotidiano na cidade e o seu desejo de vida rural. “Sou mais, muito mais, querendo ou não querendo, de uma indolência de sol parado e gerânios”, confessa no mesmo texto. Pois foi na Grota do Jacob, com grande jardim e farto gramado, além de um campo para esportes, que ele pôde ver um “relógio parado e um girassol em movimento”, como sonhava, o que não significa dizer que se curara da tristeza na hora do crepúsculo, aquela hora indefinida que sempre o angustiou, a hora “entre o cão e o lobo”, alertava a filha.

Assim, estar no terreno fértil de 12.500m2, com água abundante e o córrego de “águas claras” – escreveu ele no caderno 039122 de seu acervo – era uma realização pessoal importante. Apesar de as escrituras definitivas, passadas em cartório de Petrópolis, conterem todas as informações da propriedade, ele não se deu por satisfeito e as anotou neste caderno de capa de xadrez preto e branco. Além dos dados numéricos oficiais, registrou minuciosamente os nomes das dezenas de árvores frutíferas plantadas sob a sua posse e gestão: abacateiro, pitangueira, mamoeiro, limoeiro, pessegueiro, muitas outras, além de variadíssima quantidade de flores, dentre as quais as suas preferidas, conta Gabriela: a capuchinha e a ora-pro-nóbis ou trepadeira limão, ambas de folhas ou flores comestíveis. A primeira, pela beleza da flor, hoje enfeita saladas e sobremesas, enquanto à outra é atribuído alto valor nutritivo nas folhas e enriquece sopas, omeletes e refogados.

Durante a década de 1970, quando Gabriela e Daniel estavam na universidade, ela cursando medicina, e ele veterinária, a família toda ia com muita frequência ao sítio, levando amigos. Gabriela, nascida em 1952, acabou não exercendo a profissão: especializou-se em administração hospitalar, e Daniel, de 1953, é veterinário. Depois que ficaram independentes, permaneciam no Rio durante os fins de semana, e os pais iam sós. Eram vistos sempre no Le Moulin, o primeiro restaurante francês da serra, que ficava perto.

Se a independência levou os filhos a desertar da Grota, não foi assim quando chegou a hora de casar. Pelo menos Gabriela, que, aos 26 anos, escolheu o sítio como local para a cerimônia. Na manhã de 30 de setembro de 1978, Paulo Mendes Campos, em lágrimas, a levou ao altar, onde os esperavam o noivo e o padre Geraldo, da paróquia de Corrêas. Tudo organizado com a simplicidade elegante de Joan Mendes Campos, que decorou o jardim com fitas e flores, e o altar com castiçais emprestados dos vizinhos. Depois da bênção, bolo e champanhe aos poucos convidados, apenas os amigos mais próximos.

Paulo Mendes Campos leva a filha Gabriela ao altar no dia de seu casamento, no jardim da Grota do Jacob, em 30 de setembro de 1978. Acervo Paulo Mendes Campos/IMS

 

No início da década de 1980, os Mendes Campos puseram o sítio à venda, e o comprador foi o economista André Lara Resende, filho de Otto Lara Resende, que compunha com Paulo, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino o quarteto de mineiros consagrado como Os Quatro Cavaleiros de um Íntimo Apocalipse, para usar expressão criada por Otto.

O novo proprietário pôde, então, terminar de executar o projeto de Zanini, que previa uma varanda como continuidade da sala de estar, sobre o córrego. Àquela altura, os pilotis de madeira já tinham cedido alguns centímetros e ameaçavam ruir. “Foi preciso levantar a casa com macacos hidráulicos e reforçar as fundações. Uma operação complicadíssima, dada a irregularidade do terreno e o acesso complicado” – lembra André, que já não é mais o dono do sítio. Vendeu-o a um executivo do mercado financeiro que, fascinado pelo lugar, para lá se mudou com a família definitivamente.

Agradecimentos a André e Bruno Lara Resende e a Daniel e Gabriela Mendes Campos

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.

Os mais de cem cadernos de escritores guardados no acervo de Literatura do Instituto Moreira Salles mostram o quanto esses itens, cada vez mais raros nos nossos dias, serviram no passado de laboratório de criação literária. Esta série em construção revela a singularidade desses documentos e a natureza de seus autores. Confira a coleção de posts elaborados a partir deste material cuidado e catalogado pelo IMS.

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