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Drummond, fazendeiro do arquivo

07 de maio de 2019

Poucos dias antes de morrer, em 12 de agosto de 1987, Carlos Drummond de Andrade confessa: “No fundo continuo morando em Itabira, através das minhas raízes, e, sobretudo, através dos meus pais e meus irmãos, todos nascidos lá e todos já falecidos. É uma herança atávica profunda que não posso esquecer”. Como quem observa uma criança crescer à distância, Drummond acompanha o desenvolvimento acelerado (e à força) de sua Itabira na virada do século XIX, sobretudo durante o período da guerra. A cidade enche boa parte das caixas de seu arquivo pessoal, sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde 2011. Parece que nada escapou ao poeta: coletou matérias de jornais, cartas, documentos e fotografias.

Obedeço às suas instruções quando diz, em entrevista a Martins d’Alvarez, em 1941: “Eis aí o traço fundamental da minha biografia. Um bom resumo estaria nas seguintes palavras: ‘Este foi burocrata’”. Diante dos quase 200 documentos relacionados a Itabira, o arquivista nato nos confirma: foi mesmo um burocrata.

É claro que, tratando-se de Drummond, não se pode falar sobre Itabira sem considerar o peso do grupo familiar. Manter o arquivo atualizado, perseguindo a cidade ao longo dos anos, foi um modo de manter pais e irmãos vivos. Um documento familiar se conecta a outro que, por sua vez, se une a uma carta e depois a uma foto formando uma rede de sobrevida entre os papéis: onde os mortos têm vez, voz e verso. Se é verdade que “a família mineira/ olha para dentro”, como se lê no poema “Sesta”, o poeta-arquivista exerce exemplarmente a função de conservador oficial da memória dos Andrade. Ele assume a missão de não esquecer, de inventariar a vida, com o rigor e cuidado que observamos ao abrir as pastas azuis de seu acervo.

Nesse inventário se destaca sobretudo a relação com o pai, como chama atenção Marlene de Castro Correia. No ensaio “A inteligência trágica do universo”, publicado em Drummond: jogo e confissão (publicado pelo IMS), a crítica e professora emérita da UFRJ analisa o poema “Os bens e o sangue”, escrito a partir da “leitura de um maço de documentos de compra e venda de datas de ouro no nordeste de Minas Gerais”, sinaliza “o ilimitado poder dos patriarcas rurais sobre todos os que gravitam à sua volta; o choque do poeta com a autoridade ancestral e com o meio rural; o processo de decadência de seu clã familiar; a plasmação do seu modo de ser por essas instâncias e circunstâncias”.

A leitura de Marlene Correia é certeira e pode ser tomada por empréstimo para pensar a cidade justaposta à figura paterna e à tradição ruralista no arquivo de Drummond.

Descobre-se ali que no coração de Minas, em Itabira do Mato Dentro, os Andrade, no final do século XIX, resolveram produzir cachaça e cultivar extenso vinhedo. Para cuidar da empreitada, contrataram o francês Casimiro Sipolis, como consta no documento de quatro páginas escrito a bico de pena. O jornal itabirano O Tempo, em 1891, considerou que o vinho feito nas terras da família era “equiparável aos melhores recebidos da Europa, na opinião dos bons chupistas”. O empreendimento não alcançou os resultados esperados, mas a receita do vinho está bem guardada no arquivo de CDA. Nela se lê que a tintura para preparar o vinho da casa deve ser misturada “em meia garrafa de vinho nacional; depois de misturada deve ficar 15 dias na garrafa com o vinho, que será então coado”.

Receita de vinho feito pela família guardada por Drummond. Arquivo Carlos Drummond de Andrade / Acervo IMS

Do avô, o coronel Elias de Paula Andrade, há uma lista de 38 fábulas escrita a lápis e com letra miúda. Transmitidas ao filho, Carlos de Paula, que, por sua vez, as passou a seu filho, o poeta de A rosa do povo, podemos reconhecer algumas histórias do folclore brasileiro como a da onça com coelho, do casamento do sol com a lua, ou do homem que comeu pedra.

O poeta saiu de Itabira definitivamente em 1926 e voltou apenas uma vez, em 1948, para o sepultamento da mãe. Ainda que não morasse mais lá, Drummond parece viver em Itabira (pedra que brilha, em tupi), lugar que, tanto no arquivo como na obra, pulsa como a canção de “um tempo que já se estira”, mas que “continua em mim ressoando” – lê-se em “Canção de Itabira”.

Ainda na justaposição cidade-pai, Drummond se manteve atualizado sobre o projeto de lei que transformaria Carlos de Paula Andrade em nome de avenida, em dezembro de 1983. É curioso saber que, inicialmente, a proposta era para que Carlos, o filho, desse nome à rua, mas o poeta gentilmente sugeriu o nome do pai já que “o filho, por circunstâncias da vida, não tivera oportunidade de servir à comunidade itabirana no dia a dia”, enquanto o pai “por longos anos se empenhara em contribuir com seu esforço produtivo (...) para o ressurgimento de Itabira, então mergulhada em triste abandono” – escreveu na crônica “Meu pai”, publicada em O cometa itabirano, em 14 de setembro de 1983. Todos os detalhes da inauguração da avenida foram devidamente registrados e datados por Drummond numa organização – para quem acredita no que os astros dizem – de fazer inveja a virginianos (só por curiosidade: o poeta é escorpiano).

No “papelório” do acervo CDA está ainda o contrato de compra de uma das principais propriedades dos Andrade, a Fazenda do Pontal, em 1897. Não há dúvidas de que é a mesma fazenda de “Infância”, poema de seu livro de estreia, Alguma poesia (1930):

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais. [...]
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Como um frame congelado do passado, Drummond menino é também o homem de sete décadas completas que revisita o Pontal. “Às vezes, me assalta o remorso de, sendo filho, neto e bisneto de fazendeiro, ter contribuído para que morresse a nossa fazenda. (...) Cedi a minha parte e fui cuidar de nuvens”, confessa o poeta em “A fazenda que desapareceu do mapa”, depoimento de duas páginas publicado não em uma revista especializada de literatura ou num caderno de cultura de algum jornal, como imaginaríamos, mas sim na primeira edição da revista Globo Rural, em 1985. Drummond recorda que, no trajeto da casa da cidade para a casa da fazenda, “passava a certa distância de um matagal onde o eco repercutia os gritos da meninada. Não me saiu da memória aquele rumor soturno e misterioso, que provocávamos”. Conta ainda que o pai “saía a cavalo, pela manhã, voltando ao entardecer, finda a jornada de trabalho que era rude”. E que, “na fazenda, a incapacidade de assimilar os interesses da vida rural fazia de mim um exilado que preferia isolar-se na copa de uma jabuticabeira para, em composição bastante insegura, regalar-me com as frutinhas, ao mesmo tempo em que lia revistas encontradas no escritório”.

O texto "A fazenda que desapareceu do mapa", que Drummond publicou na revista Globo Rural, 1985. Arquivo Carlos Drummond de Andrade / Acervo IMS

Até que um dia vem a notícia dos técnicos: o fim das coisas. Em 1954, a recém-criada Companhia da Vale do Rio Doce S.A., seguindo a exploração do Pico do Cauê num ritmo desvairado de dinamitação e exportação de minério, compra e desmonta peça a peça a propriedade em que Drummond menino passou a infância.

Como aponta José Miguel Wisnik no atualíssimo livro Maquinação do mundo – Drummond e a mineração (Companhia das Letras), a Fazenda do Pontal “foi convertida num depósito de rejeitos da mineração, que só se pode avistar à distância, do alto de um morro para onde a antiga casa-sede foi transposta, numa manobra mirabolante de compensação museológica que é ao mesmo tempo um efeito de engenharia e o belvedere da ruína, pretendendo apresentar-se como aprazível ponto turístico-literário no museu do mundo”.

No estudo, Wisnik destaca o pioneirismo da obra drummondiana ao tocar em assuntos tão da ordem do dia, como o efeito de uma exploração cega que culminou em tragédias como as de Mariana e Brumadinho. Apesar de ter sido arrancada do lugar de origem pela mão da Vale, a Fazenda do Pontal segue intacta no acervo, graças ao poeta, que assumiu sem descanso sua outra atividade: fazendeiro do ar, fazendeiro do arquivo.

Elizama Almeida é assistente cultural no Instituto Moreira Salles e mestranda no programa de Literatura, Cultura e Contemporaneidade da Puc-Rio.

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