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Drummond também dramaturgo

26 de setembro de 2014

Carlos Drummond de Andrade foi poeta superior. Também foi grande sua atuação como cronista – mais de 30 anos de trabalho no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil comprovam a afirmação. No entanto, o Drummond que tentou o caminho como dramaturgo é pouquíssimo conhecido.

Durante a organização de seu arquivo, sob a guarda do IMS desde 2011, a equipe da Coordenadoria de Literatura descobriu uma cópia datiloscrita da peça inédita (e inacabada) O sineiro. Com algumas sutis marcações feitas pelo próprio autor, o roteiro de 13 páginas conta a história de uma cidade condenada à total inércia. “Tudo parado, morno, sem viço. Até as plantas – você reparou? não querem mais florescer. Os botões secam, não há mais flores”, até chegar o Sineiro, personagem principal.

 

Datiloscrito da peça inédita (e inacabada) O sineiro, de Carlos Drummond de Andrade. Arquivo Carlos Drummond de Andrade / acervo IMS.

 

O documento é acompanhado de um bilhete, datado de 19 de março de 1985, de uma das maiores autoridades em teatro, Maria Clara Machado: Carlos, com todo o respeito, que o seu sineiro faça você continuar a peça! A cena dos vereadores dançando é ótima! O sino tocando e as velhas reclamando… etc etc. A julgar por quem avaliou o roteiro, pode-se supor, então, que O sineiro, além de muito interessante, seria direcionada ao público infantil.

Mesmo que a intenção de Drummond ao escrever o poema “O caso do vestido” e o conto “O gerente”, por exemplo, não fosse a encenação, muitos dos seus textos foram parar no palco. O ritmo, o jogo entre as personagens e a ironia reconhecidamente drummondianos são em si elementos que facilitam a representação.

Inversamente proporcional à sua notável habilidade como escritor está sua atuação como ator. É o próprio Drummond quem conta do embaraço quando esteve do lado de lá, no palco, durante a adolescência. No artigo “Teatro daquele tempo”, publicado na Folha de Minas em 27 de maio de 1956, escreve:

Eu aprendia tudo que me ensinavam de geografia, história, maneira de assentar e comer, não meter (em público) o dedo no nariz etc., mas não conseguia ser bom ator.

Fui péssimo. Os pais e os meninos colocados em frente do palco enfeitado de folhagens pareciam olhar-me com diabólica ironia e paralisavam todo o meu escasso jogo cênico.

Verifiquei que é difícil mover os braços quando não se vai pegar um passarinho ou empurrar um companheiro no brinquedo desinteressado, e que o ato de falar esconde sutilezas sem nome.

Que fazer de um braço quando se conversa, quanto mais de dois? Ah, os braços caídos ao longo do corpo, uma confissão de timidez: mãos que não agarram, não se crispam, não sabem chorar e rir… (…)

Depois, o meu pescoço era rígido, e os olhos não se moviam em qualquer direção – salvo a do ponto.

Eu daria bem uma estátua, como elemento de composição do cenário, mas figura viva, de gente que fala e se move, absolutamente.

 

Crônica “Teatro daquele tempo”, de Carlos Drummond de Andrade. Folha de Minas, 27.05.1956. Arquivo Decio de Almeida Prado / acervo IMS.

 

O recorte de jornal de onde se extrai o depoimento acima pertence ao arquivo de Decio de Almeida Prado (também no IMS), notório crítico de teatro brasileiro. Felizmente, a crônica despertou o interesse de Decio, um dos fundadores da revista Clima, que não só guardou o texto como destacou à caneta alguns trechos, possibilitando fazer um pequeno cruzamento entre o Drummond autor e o (quase) ator.


Elizama Almeida é assistente cultural do setor de Literatura do IMS.

 

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