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Entre o etéreo e o humano

07 de dezembro de 2016

Otto Stupakoff rodou o mundo, viveu o mundo, absorveu o mundo e o registrou sob diversos ângulos. Do glamour do universo da moda ao cotidiano de uma cidade durante uma guerra insana. Dos retratos de celebridades aos anônimos nas ruas. Das imagens com tintas surrealistas à delicadeza sem retoques, algo entre o etéreo e o humano, com a qual revelava a nudez feminina. Teve belas mulheres (uma delas Miss Universo), morou em belos lugares, embora no final da vida já não tivesse mais o mundo a seus pés. O fotógrafo foi um mundo inteiro, e sua irrequieta e constante busca por toda forma de arte pode ser vista a partir do dia 13 de dezembro, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, quando será inaugurada a exposição Otto Stupakoff: beleza e inquietude, que entrega aquilo que promete no título.

Sob a curadoria do fotógrafo Bob Wolfenson e de Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS, a mostra reúne aproximadamente 300 imagens, publicações e vídeos que apresentam ao público uma pequena parte da alentada produção do paulistano – sob a guarda do IMS desde 2008 – que transitou por tantos lugares, de São Paulo a Saigon, com igual desenvoltura e curiosidade. Mesma inquietação que o levou a circular também pelo campo das artes plásticas, criando colagens e assemblagens que são indissociáveis de seu trabalho como fotógrafo, e a enfrentar os desafios da escrita.

 

O escritor Truman Capote, Nova York, EUA, c. 1970 / Acervo IMS

 

O legado de Otto será tema de uma conversa, no dia da abertura, às 19h, entre o jornalista Thomaz Souto Corrêa, amigo do fotógrafo, e Wolfenson, sob a mediação de Burgi. Nascido em 1935 e morto em 2009, ele personificava, lembra Wolfenson, o protótipo do fotógrafo charmoso, sedutor, refinado, frequentador do jet set, tal e qual o protagonista de Blow Up (1966), de Michelangelo Antonioni, filme que acabou dando à profissão uma espécie de upgrade. “Otto estetizava a vida e trazia a obra para a vida dele. Conheci seu trabalho quando eu era jovem e ele era tudo o que eu queria ser”, garante o profissional igualmente celebrado, que começou a trabalhar aos 16 anos, na década de 1970, na Abril, editora de revistas que tinham Otto como brilhante colaborador. “Ele era um mito, um ícone. Eu já conhecia o trabalho dele e, em 1978, ele fez uma grande retrospectiva no Masp que me impactou muito. Aí passei a cultuá-lo”.

Para dar conta de tão diversificada obra, a mostra do IMS-RJ foi dividida em módulos bastante representativos. Estão lá os anos de formação, entre 1953, quando ele vai para os Estados Unidos estudar fotografia na Art Center School, em Los Angeles, e 1957, quando já está de volta ao Brasil, e desenha seu próprio estúdio em Porto Alegre. O belo projeto foi publicado na revista Módulo, dirigida por Oscar Niemeyer, com o título “Fotógrafo profissional, arquiteto amador”. Em outra sala está a produção do período fértil em São Paulo, entre 1958 e 1965, época em que realiza grandes campanhas publicitárias, como as da Rhodia; transforma seu estúdio em ponto de encontro do movimento artístico Realismo Mágico – do qual fazia parte o artista Wesley Duke Lee, que seria seu amigo da vida inteira –; realiza, no Rio, com a modelo carioca Duda Cavalcanti, o pioneiro ensaio de moda no Brasil; e apresenta a primeira exposição de fotografias numa galeria de arte, a Petite Galerie, em São Paulo, em que mostrou também suas colagens.

 

A atriz Sharon Tate, para a Harper’s Bazaar, Santa Mônica, Califórnia, EUA, 1967 / Acervo IMS

 

A exposição do IMS traz ao público alguns desses trabalhos artísticos produzidos por Otto ao longo de sua vida. “Otto Supakoff transitou entre a imagem fotográfica, as artes plásticas e o texto na busca por um processo permanente de criação capaz de acalmar sua alma irrequieta”, escreveu Sergio Burgi na apresentação da mostra. “É interessante notar que as fotos, as naturezas-mortas, as colagens, as assemblagens, tudo fazia parte de um mesmo processo criativo, da mesma narrativa que ele vai construindo durante todo o tempo”, diz ele. “Esse processo criativo virou  uma questão essencial, uma mola propulsora da vida dele a partir de 1964, 1965”.

Estão ainda contemplados os anos em Nova York (1965-1972), momento em que começa a colaborar para a Harper’s Bazaar, nos EUA, a convite de Bea Feitler, designer brasileira que era a diretora de arte da revista na época e que, junto com Otto, revirou o jeito de fotografar a moda. “Eles eram muito amigos, e ele sempre falava da importância do trabalho dela para a obra dele”, diz Mariana Newlands, assistente de curadoria e responsável pela identidade visual da exposição. “Até então as modelos eram apenas cabides de roupas, e se sente nitidamente a mudança que começa na Harper’s naquela época. Nas fotos do Otto se percebe uma outra linguagem, o movimento. Parece que ele flagra as pessoas no ar, isso é uma coisa muito típica dele”, observa Mariana. Naquele período, Otto, que tinha um estúdio no Carnegie Hall, se aproximou de outros excepcionais nomes da fotografia, como Diane Arbus e Richard Avedon, e teve oportunidade de fotografar personalidades como os atores Jack Nicholson, Sharon Tate e Grace Kelly, o escritor Truman Capote, o músico Leonard Cohen, o presidente Richard Nixon. “Fotografar um presidente americano em exercício não é pouca coisa, todo mundo sabe que para chegar ali tem que ser muito bom, ser aprovado. Otto estava no auge”, lembra Wolfenson.

 

Still life, FAAP, São Paulo, 1961 / Acervo IMS

 

Na mesma sala estão também os trabalhos realizados para a Vogue francesa, entre 1972 e 1975, quando se muda para Paris já casado com Margareta Arvidsson, Miss Suécia e Miss Universo em 1966, modelo de alguns dos editoriais de moda fotografados por ele, e com quem teve Gabriella, musa de muitas de suas fotos, e Sef – ao deixar o Brasil, em 1965, Otto já tinha quatro filhos de seu casamento com Catherine J.J. De Witt (Ian, Victor, Catherine e Tania).  Os anos em Paris foram intensos e frutíferos: em 1974, por exemplo, ele teve trabalhos publicados em todas as edições da Vogue, e a centralidade da capital francesa ainda facilitava as muitas viagens realizadas na época. Estão ainda ali outras fotos de moda feitas no Brasil no início dos anos 1960, entre elas as da Rhodia, e para revistas como Claudia e Manequim, um pouco ilustrando os caminhos que ele percorreria mais adiante.

Outro conjunto é formado pelas fotos das viagens pela Índia, Vietnã (onde ele foi durante a guerra), Tailândia (sua moradia por oito meses), México, Ártico, entre muitos outros lugares. Minucioso, o fotógrafo que era também um apaixonado pela escrita – “Dedico-me muito a escrever, rever e reescrever. É uma maneira de viajar, de colocar pensamentos em ordem, de rever nossa psicologia. É também outra forma de estética, onde nos colocamos em face à dignidade da arte”, comentou Otto certa vez – fez registros detalhados sobre essas passagens. A família mereceu igualmente um capítulo à parte, e pode-se ver seu olhar carinhoso e aguçado lançado sobre os filhos e a mulher Margareta em momentos de brincadeira ou repouso.

 

Contorcionista, São Paulo, c. 1962 / Acervo IMS

 

Um último e importante tema são os nus femininos, pelos quais ele é bastante lembrado. Muitos deles foram produzidos por conta própria, sem encomenda, e normalmente têm como modelos amigas ou namoradas. São imagens carregadas de uma sensualidade que emerge de forma natural, espontânea, revelando um encantamento quase mágico, como se simplesmente não houvesse uma câmera entre fotógrafo e fotografadas.

“Nessa imersão para a exposição no IMS aprendi muito mais sobre ele do que eu sabia. E vi muita coisa que não conhecia. Admiro o Otto muito mais hoje do que eu admirava antes. Ele não buscava ser artista, simplesmente era. Era algo constituinte do trabalho dele”, diz Wolfenson, que foi o responsável pelo segundo e definitivo retorno de Otto ao Brasil, em 2005. Em 1976 o fotógrafo fizera uma primeira tentativa de morar e trabalhar no país. Ganhou a exposição no Masp, em 1978, mas voltou aos EUA no início dos anos 80, desapontado com as poucas oportunidades surgidas em sua própria terra. Em 2002, quando criou a revista S/Nº, Wolfenson foi aos EUA entrevistar Otto, que ele havia “perdido de vista”. Nesse período pouco ou nada se falava dele por aqui. O fotógrafo vivia na pequena cidade de Hurley, em Nova York, e lá Wolfenson encontrou um homem um tanto amargurado, sem muito dinheiro, meio desestimulado. Decidiu, então, montar uma exposição no Brasil com ele, Moda sem fronteiras, que só seria realizada em 2005, dentro do evento São Paulo Fashion Week – na época Otto morava na Tailândia. Ele veio para a mostra e permaneceu de vez no país, embora tenha enfrentado novamente grandes dificuldades e feito poucos trabalhos relevantes.

“Ele estava muito à frente de tudo no Brasil, não era um cara que se moldava. Lá fora o viés artístico é mais valorizado, mas aqui não”, afirma Wolfenson. “Otto não conseguiria voltar atrás, fazer simplesmente o que estavam pedindo. Em 1977, 1978 isso já era difícil para ele. Mas em 2005 ele foi ficando, levando a vida bonita que levou”.

 

Editorial de moda para a Rhodia, São Paulo, c. 1960 / Acervo IMS

 

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Otto Stupakoff: beleza e inquietude: página da exposição

Otto Stupakoff: página do acervo do fotógrafo

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