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‘Feliz é Minas, que teve Drummond’

30 de outubro de 2020

Dizia Manuel Bandeira: “O que é ser poeta senão isso: exprimir o que os outros sentiram e não souberam dizer?”. Sem o recurso da poesia, restou ao historiador Francisco Iglésias, mineiro de Pirapora nascido em 1923, pôr muitas de suas reflexões sentimentais sobre Minas na correspondência com amigos. Não nas dez cartas que enviou a Carlos Drummond de Andrade, cartas contidas, quase circunspectas, mas nas que escreveu a Otto Lara Resende. Quando não escreveu, encontrou em Drummond o intérprete mais perfeito do que sentiu e não soube dizer. Nasceu daí uma admiração não só ilimitada como correspondida: o poeta não era menos fã do historiador, como se constata nas 16 cartas que lhe enviou e que integram o arquivo de Iglésias, sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde 2002. É desse conjunto que se selecionam as duas aqui reproduzidas.

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Carta de Carlos Drummond de Andrade a Francisco Iglésias, em que o autor discorre sobre "mineiridade" (abaixo, a transcrição). Acervo Francisco Iglésias/ IMS

 

Em 1972, quando o país comemorou os 70 anos de nascimento de Drummond, não faltou edição especial do Suplemento Literário do Minas Gerais, jornal belo-horizontino em que o poeta começou como auxiliar de redação, em 1929. Olhando para trás, é difícil não perguntar: o que fazia Drummond auxiliar de redação? Como auxiliava, aquele que, no ano seguinte, 1930, estrearia já como o grande poeta de Alguma poesia, seu primeiro livro no gênero? Terá conseguido exercer sua “auxiliaridade” sem ofuscar os autores dos textos que passavam por suas mãos?, ele, que em 1944, ao lançar Confissões de Minas, já se mostrava cronista definitivo, do time dos forwards, como dirá Manuel Bandeira?

Perguntas que não exigem resposta no momento. O que conta agora é que no Suplemento de 28 de outubro de 1972 do mesmo Minas Gerais Iglésias publicou o substancioso artigo “Depoimento e homenagem”, não só com objetivo de registrar a data redonda, como se propunha, mas também para proclamar sua devoção pessoal, irrestrita, ao poeta de Sentimento do mundo.

Nesse artigo que tanto confortou Drummond, Iglésias ressalta o que chama de “categoria de temporalidade” na poesia e na prosa drummondianas. Natural que, sendo o autor do texto historiador, o aspecto do tempo o atraísse especialmente. Basta ler o prefácio que escreveu para sua coletânea de ensaios História e ideologia, em que afirma: “As categorias de temporalidade e processo – o fluxo constante – informam e caracterizam a análise histórica”.

Ora, que versos lhe seriam mais caros que os de Drummond em “Mãos dadas”?: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”. A sensibilidade histórica que Iglésias reconhece no poeta, a quem julga capaz de sentir o cotidiano do Brasil ou captar-lhe a época, leva-o, nesse artigo, a observar um percurso histórico na poética drummondiana. Além disso, ressalta que a obra “já considerável até na extensão e em franco processo criador gira em torno de Minas, transpira Minas, é a tradução do ser mineiro”.

Homenagem à parte, uniu Iglésias a Drummond o amor a Minas Gerais. Amor de idas e vindas, ou mesmo de intensidades variáveis, como podem ser os grandes amores. Na maioria das vezes sem final feliz, é o que talvez aconteça com Iglésias, se tomarmos como referência as declarações que fez em sua copiosa correspondência a Otto Lara Resende.

 

O historiador Francisco Iglésias. Amor a Minhas Gerais o uniu ao poeta de Itabira

 

Quanto ao poeta, desde “Confidência do itabirano”, em Sentimento do mundo, de 1940, manifestava desesperança com relação à terra natal: “Itabira é apenas uma fotografia na parede./ Mas como dói”. Quando lançou José, em 1942, o conflito no poema homônimo ampliava-se: a dúvida não era mais sobre o pequeno cosmos de Itabira, mas sobre a integridade do estado: “Com a chave na mão/ quer abrir a porta,/ não existe porta;/ quer morrer no mar,/ mas o mar secou;/ quer ir para Minas,/ Minas não há mais./ José, e agora?”.

Os versos desalentados tiveram recepção quase tão tumultuada quanto os de “No meio do caminho”. Se os deste poema serviram a muita gente que se via impedida de realizações, os de “José” foram exaustivamente reproduzidos por muito jovem sem esperança ou adulto sem horizontes. A perplexidade de “José” açulou a crítica, e o verso “Minas não há mais” atingiu de tal modo os corações mineiros que inspirou o professor João Antonio de Paula, fã absoluto de Drummond, a organizar a mesa “Minas não há mais?” para o seminário a que se refere o poeta na carta de 29 de setembro de 1982, aqui publicada. Realizado em Diamantina entre 15 e 17 de setembro de 1982, às vésperas portanto do 80o aniversário de Drummond, em 31 de outubro daquele ano, o congresso coordenado por Iglésias versou sobre economia mineira. O painel de título interrogativo imprimiu o tom literário ao encontro em que estiveram presentes Antonio Candido, Vera Alice Cardoso e outros. A conclusão a que chegaram foi que “Minas há, pelo menos ainda”, escreve Iglésias a Drummond em carta de 19 de setembro, logo depois de chegar de Diamantina, aproveitando para informar que deixou a rua Pouso Alegre 1848, onde tinha morado durante 55 anos, pela rua Levindo Lopes.

Se, como declara Drummond na primeira carta acima, Minas lhe ocupava todo o espaço da “vida imaginativa”, o mesmo não diria Iglésias, que por dever de ofício devia adotar postura mais analítica que imaginativa. Coube-lhe a interpretação histórica de seu estado. É o que se lê em Três séculos de Minas, que tem como uma das epígrafes o verso de Drummond: “Toda história é remorso”.

Em certo sentido, Drummond foi privilegiado pela catarse que o talento para a poesia lhe proporcionava. Por sua veia poética correu muito do seu sentimento de Minas. Fora da poesia, o êxito não foi menor: ele se integrou de forma absoluta ao Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1934. Raras vezes voltaria a seu estado, a despeito dos ruídos a que se refere nesta carta de 1972, sem deixar de viver no que chamou de “complexo mineiro”. Um feito!

Carta em que Drummond fala a Iglésias sobre "José": "momento de crise existencial" (abaixo, a transcrição). Acervo Francisco Iglésias/ IMS

 

Formado em história e geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais em 1943, Francisco Iglésias não conseguiu morar mais que um curto período fora de Belo Horizonte, para onde se mudara ainda jovem. Chegou a São Paulo em 2 de julho de 1946, a convite de Alfredo Mesquita, para ser gerente da Livraria Jaraguá, projetada nos moldes franceses, com salão de chá integrado. Não se envolveu nem um pouco com o ambiente do salão sempre cheio, onde circulavam “senhoras emperiquitadas, enchapeladas, enluvadas”, conta Mesquita em “No tempo da Jaraguá”, incluído em Esboço de figura: homenagem a Antonio  Candido. Por pouco Iglésias não encontrou Mário de Andrade, morto um ano antes de sua chegada. Era hábito do autor de Macunaíma entrar no prédio da rua Marconi 54, às 15h30 em ponto, para tomar o primeiro chá do dia – conta Mesquita. Naquele mesmo endereço onde circulavam as enchapeladas à tarde, reunia-se, à noite, entre 1942 e 1948, o Grupo de Teatro Experimental (GTE), dirigido por Alfredo Mesquita, um marco de inovação no teatro brasileiro.

O curioso é que nas 171 cartas que Iglésias escreveu a Otto não há qualquer notícia do frisson vesperal na Jaraguá. Assim como pouco o atingem a vida mundana e o clima paulistanos. Não sofreu do azul que tanto oprimiu Paulo Mendes Campos quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1945. Para o cronista e poeta, o azul de Belo Horizonte, que ele também viu no Rio, era o de Mallarmé, aquele azul que “não define, antes amplia o segredo, enriquecendo-o de nuanças emocionais, tão mais abstratas quão mais real o seu vigor encantatório”, escreveu ele em “Azul da montanha”.

Diferentemente de Paulo, a paisagem não importava tanto para Iglésias. As tonalidades menos ainda. Tudo nele se realizava no mundo interno. Todos os sismos nesse mineiro feroz são rigorosamente interiores. Muitos dos abalos por que passou durante o período paulistano podem ter sido desencadeados nas conversas que se prolongavam noite adentro, na casa de Antonio Candido, na Aclimação, onde firmou sua mais funda admiração pelo mestre. Ali os dois conversavam sobre política, economia e literatura, e foi também nessa casa que a mulher do amigo, Gilda de Mello e Souza, lhe contou que o marido, grande imitador de cacoetes alheios, tinha entre suas interpretações mais perfeitas a dele, Iglésias – é o próprio historiador quem conta, ternamente desapontado, em “Antonio Candido, Minas e os mineiros”. 1

Mas nem mesmo a amizade de Antonio Candido foi suficiente para que Iglésias ficasse em São Paulo. Em outubro de 1946, ele escreveu a Otto: “Volto para o ninho antigo. Não sei agora o que fazer. Que fazer em Minas? Não sou jogador de futebol, não sei tocar piano ou cantar em cabarés. Que fazer, Lenine? [...] Aqui me tem você, Francisco Iglésias, de 23 anos de idade, mineiro de nascimento e de caráter”.

Este foi apenas o início do dilema de toda uma vida. Iglésias cogitou morar no Rio de Janeiro, pensou numa bolsa em Paris, até num período na Nova Zelândia, mas, de onde imaginava estar, temia a volta a Belo Horizonte: podia não encontrar a cidade que deixara. Autor de “Pensamento político de Fernando Pessoa”, um de seus mais notáveis ensaios, incluído em História e ideologia, não podia esquecer os versos de Álvaro de Campos, heterônimo do poeta ortuguês: “Partir!/ Nunca voltarei,/ Nunca voltarei porque nunca se volta./ O lugar a que se volta é sempre outro”.

Um ano e quatro meses depois, Iglésias deu por terminada a temporada paulistana. Voltou para Belo Horizonte, onde seguiria carreira de professor de história econômica geral e do Brasil e história social e política do Brasil na Faculdade de Ciências Econômicas – FACE/ UFMG. Aos 36 anos, admitia a Otto: “Não me posso imaginar longe por mais de seis meses, a rachar um ano. Tenho raízes, doutor. Sou brasileiro: mais ainda, mineiro, de Belo Horizonte e de Pirapora”. Tem-se a impressão de que estava de fato apaziguado. Não estava. Indignava-se com a descaracterização por que passava a cidade, e Drummond, nos versos de “Triste Horizonte”, foi mais uma vez o tradutor de seu desencanto. Em carta a Otto de agosto de 1976, ele despejava a amargura sobre a capital mineira:

Se ela foi amor para alguém, é hoje um destroçado amor... [...] Acho-a feia, sem graça; quando mais jovem, tinha certo encanto de jovem, que perdeu de todo. [...] Bem dizia o Jacques [do Prado Brandão], mineiro que saiu de Minas depois dos quarenta anos, que mineiro que fica em Minas é que tem algum defeito de fabricação. Deve ser o meu caso.

Reflexão histórica, devoção estética, amor e desamor a Minas, tudo se misturou para que Francisco Iglésias decretasse no Suplemento: “Feliz é Minas Gerais, que encontrou alguém que lhe captasse a essência, de ontem e de hoje, como se vê na poética de Drummond”.

1. In Maria Ângela D’Incao e Eloísa Faria Scarabôtolo (orgs.), Dentro do texto, dentro da vida: ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo: Companhia das Letras/ Instituto Moreira Salles, 1992.

Rosto de Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, visto de perfil

Elvia Bezerra é pesquisadora de literatura brasileira e colaboradora no IMS.