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Há 90 anos no caminho do poeta

18 de julho de 2018

É possível que o paulista António de Alcântara Machado tenha vislumbrado o impacto no leitor ao publicar, na capa da Revista de Antropofagia, de julho de 1928, o poema “No meio do caminho”, de um então obscuro poeta mineiro de 26 anos de idade: Carlos Drummond de Andrade.

Se há 90 anos o editor teve faro suficiente – e é provável que o teve – para divulgar os versos estranhamente repetitivos e intrigantes na primeira página do periódico modernista, não passou pela cabeça do poeta o escândalo que provocariam os seus hoje antológicos “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra”.

Primeira página do terceiro número da Revista de Antropofagia, julho de 1928

Anos depois, já em 1954, em longa entrevista à jornalista e amiga Lya Cavalcanti para o programa “Quase memórias”, da Rádio Ministério da Educação e Cultura, Drummond, àquela altura o poeta consagrado de A rosa do povo e Sentimento do mundo, conseguia avaliar os estragos e ganhos da publicação de 1928. Confessava a Lya, sem esconder perplexidade: “Como podia eu imaginar que um texto insignificante, um jogo monótono, deliberadamente monótono, de palavras causasse tanta irritação, não só nos meios literários como ainda na esfera da administração, envolvendo seu autor numa atmosfera de escárnio?”

“Pobre poeta”, derretia-se Lya, em uma das sessões da série de oito entrevistas que, em 1969, seriam reunidas em Tempo, vida, poesia: confissões no rádio, livrinho despretensioso e rico – uma dessas pepitas que escapam aos olhos dos apressados e cujo conteúdo atesta a inteligência superior de entrevistado e entrevistadora.

Na mesma ocasião, Drummond lembra que os ataques ao poema vieram de todos os lados, a ponto de o atingirem no seu pacato cargo de funcionário público, quando, em 1934, veio para o Rio nomeado chefe de gabinete de Gustavo Capanema, então novo ministro da Educação e Saúde Pública. Não foi uma só vez que o poeta ouviu lhe dizerem: “Engraçado, eu pensava que o senhor fosse débil mental” – continua ele –, “mas agora, vendo que providencia o andamento dos processos e faz as coisas normalmente, vejo que me enganei. Desculpe: foi por causa da pedra no caminho”.

Quando incluiu o poema em seu primeiro livro, Alguma poesia, de 1930, portanto, dois anos depois da publicação na Revista, não faltaram as críticas de um Medeiros e Albuquerque, por exemplo, que, em artigo de 8 de junho do mesmo ano, no Jornal do Comércio, disparou: “O título diz: alguma poesia; mas é inteiramente inexato: não há no volume nenhuma poesia...”

Está claro que inteligências como as de Mário de Andrade e Manuel Bandeira já reconheciam, desde 1926, a grandeza de Drummond. Pois foi nesse ano que, estando em Passa Quatro, em Minas Gerais, Drummond pegou um trem da Rede Mineira de Viação e desembarcou numa casinha cor de rosa, na cidade vizinha, Pouso Alto, onde morava o poeta e romancista Ribeiro Couto, que naquele momento hospedava Manuel Bandeira, de quem era amigo-irmão.

Em torno de uma galinha ensopada e vinho tinto, Drummond esteve, pela primeira vez, face a face com o poeta de Pasárgada, até então “indivíduo mitológico”, diria o itabirense mais tarde. Como um dos integrantes do grupo de rapazinhos de Belo Horizonte amantes da poesia, antes do encontro só conversava com Bandeira por carta.

Depois do jantar, Drummond voltou a Belo Horizonte e, de lá, enviou três poemas aos amigos: “Ouro Preto”, “Cantiga de viúvo” e “Infância”. Bandeira considerou-os “deliciosos, perfeitos, definitivos”, e, em carta a Mário de Andrade, de 7 de fevereiro de 1926, concluía: “Ele é feinho, mas é de fato”.

Tivesse sido o jantar em 1928, ou pouco depois, e certamente o “No meio do caminho” teria sido tema discutido. Mas, não, o espanto demoraria ainda dois anos para chegar.

Dali em diante, o que fez Drummond, além de boa poesia? Deu asas a seu espírito arquivístico e passou a colecionar, com todo o método, tudo o que saía na imprensa sobre “o poeminha da pedra”, nome com que os versos caíram na boca do povo. De besteira a genial, de idiota a símbolo, o poeta guardou tudo o que foi publicado a respeito. O resultado foi a edição, em 1967, do singularíssimo Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema, livro em que reuniu e montou a história desse marco da poesia brasileira.

Na apresentação que fez para a edição, o crítico português Arnaldo Saraiva ressalta que a tão falada monotonia dos versos não era do poema:

[...] era da vida. Graças à sábia repetição de palavras simples, mas cuidadosamente selecionadas, o poeta não fizera mais do que onomatopeizar a sua obsessão, a sua neurose, ferindo olhos e ouvidos, mas criando também um novo tipo de dicção dentro da poesia brasileira: cuja beleza era a de não ser bela (no sentido tradicional: harmônica, melódica, “tonal”) e cuja significação resultava sobretudo da não significação ou de nonsense.

Em 2010, com organização do também poeta Eucanaã Ferraz, o Instituto Moreira Salles lançou a segunda edição do livro, dessa vez acrescida de mais uma seção, intitulada “Ainda a pedra”, em que são incorporadas novas interpretações do poema, referências e apropriações. Ficou igualmente divertidíssimo, adjetivo com que o próprio Drummond definiu a primeira edição.

No mesmo ano, para marcar o lançamento do livro, o IMS gravou a leitura do poema, em 12 idiomas, feita por 12 convidados. O resultado mostra que a composição resiste, com sua força e mistério, ao tempo e às traduções – é o que o ouvinte pode constatar ao assistir a No meio do caminho – biografia de um poema.

  • Elvia Bezerra é coordenadora de Literatura do IMS

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