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João Moreira Salles, o patriarca

09 de abril de 2018

No dia 2 de março de 2018 completaram-se 50 anos da morte de João Moreira Salles, fundador do que hoje é o maior banco privado do Brasil, o Itaú Unibanco. Até morrer foi presidente do Conselho de Administração e maior acionista do Banco Moreira Salles, da União de Bancos Brasileiros e do Unibanco, antecessores do atual conglomerado. Ocupou também cargos de direção em outras empresas do grupo Moreira Salles, tanto do setor financeiro como industrial, além de diversas organizações sem fins lucrativos.

 

João Moreira Salles com seu Cadillac. Poços de Caldas, MG, c. 1930 (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

Mas onde se destacou foi no comércio e na produção de café, base da fortuna do grupo. Chegou a ser dono da maior plantação de café em área contínua do mundo e maior exportador brasileiro em Santos. Não obstante, teve uma vida marcada pela discrição.

 
1888-1911: primeiros passos

João Moreira Salles nasceu João Theotônio Salles em Cambuí, sul de Minas, no dia 18 de fevereiro de 1888. Era filho de José Américo de Salles e Ana Moreira Salles,  pequenos agricultores no bairro do Portão. Trabalhou desde cedo na Casa Ideal, a maior da cidade, de seu padrinho Adriano Colli. Saiu-se tão bem que ainda adolescente assumiu a administração da loja.

 

João Moreira Salles. São Paulo, SP, 1906 | Casa Ideal. Cambuí, MG, 1909 (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

Em 1904  decidiu dar um passo adiante e foi para São Paulo. Munido de recomendações do padrinho, empregou-se na Casa Araújo Costa & Cia., armarinho na rua São Bento. Em 1905 ingressou na Escola Prática de Comércio de São Paulo e por quatro anos fez o curso de contabilidade, trabalhando de dia e estudando à noite.

Em 1909 o pai morreu e ele teve de retornar à cidade natal. Em 1911 casou-se com Lucrécia Vilhena de Alcântara – filha de Saturnino Vilhena de Alcântara, fazendeiro em Pouso Alegre oriundo de tradicional tronco paulista, e de Georgina Duarte – e foram morar em Guaranésia, cidade na região da Mogiana que despontava como produtora de café. Lá abriu loja de secos e molhados e, beneficiado pelo antigo patrão, também de artigos de armarinho recebidos em consignação. Estabeleceu-se também como representante bancário, pois a temporada paulistana abrira-lhe oportunidades para fazer este tipo de concessão de crédito, ainda em pequena escala.

Ao formar família e ao se iniciar no comércio de café, João Moreira Salles, aos 23 anos, definia suas principais dedicações.

 
1912-1917: comerciante, comissário de café, correspondente bancário

Em 1912 nasceu Walther em Pouso Alegre, mas em pouco tempo a família se separou. João voltou para Guaranésia, Lucrécia o acompanhou, mas o filho ficou em Pouso Alegre, onde, numa prática então comum, moraria com tios e avós maternos. Em Guaranésia iriam nascer mais dois filhos, Elza e Hélio.

 

Cidades importantes no começo da vida profissional de João Moreira Salles

 

Em 1917 o café levou-o a nova mudança e estabeleceu-se em Mococa, no estado de São Paulo, região ainda mais promissora. Lá abriu a Salles & Alcântara, em sociedade com o cunhado Pardal Vilhena de Alcântara. Seu campo de ação ampliou-se por toda a região da Estrada de Ferro Mogiana, logo multiplicando-se para  Guaxupé, Botelhos, Machado e outros lugares. Ele visitava as fazendas vendendo produtos, comprando café e fornecendo crédito dos bancos que representava.

O crescimento deste último negócio foi rápido. Começando como  correspondente do Banco Francês e Italiano e do Banco Alemão Transatlântico, passou a representar também o Banco do Brasil e o Banco Hipotecário e Agrário de Minas Gerais. A loja instalada em Mococa foi se tornando apenas uma face de seus negócios.

Aqui vale uma digressão para explicar como o comércio fiado de itens domésticos e agrícolas e o pagamento adiantado pelo café futuro se constituíram, por quase um século, em mecanismos de intermediação financeira na produção do café.

Numa primeira escala do mercado estavam os armazéns. A praxe era o fazendeiro receber das lojas os produtos de que necessitava para sua manutenção e para o trato , pagando apenas após a colheita, geralmente em café. Outra maneira tradicional ia além dos limites do que estava disponível nas lojas – recorrer às casas comissárias. Os comissários eram negociantes que adiantavam dinheiro a juros aos fazendeiros, recebendo, na colheita, uma certa quantidade de café, que vendiam aos preços correntes. Os compradores eram firmas que estocavam o café – os armazéns gerais, situados no interior ou nos portos – ou firmas exportadoras, em Santos ou no Rio de Janeiro.

A primeira parte desse circuito de distribuição acontecia sem muitos papelórios, acertos firmados com base na confiança e nas relações pessoais – no fio de barba, como se dizia. Já a segunda parte implicava em instrumentos formais de crédito, os conhecimentos de embarque (quando o café era posto em trens e levado aos portos) e os warrants, documentos que atestavam a entrada do café nos armazéns gerais ou nas firmas exportadoras.

 

1918-1924: de Poços a Santos

Voltando ao nosso personagem. Em 1918 tomou uma decisão importante: estabeleceu-se em Poços de Caldas, terminal de um dos ramais da Mogiana, e a maior cidade da região. Não era apenas produtora de cafés finos, mas também estação de águas cada vez mais renomada. Nas primeiras décadas do século passado Poços atravessava uma fase de desenvolvimento acelerado, construindo hotéis e cassinos, melhorando a infraestrutura urbana. Nas décadas de 1920 e 1930 a cidade estava na moda, ricos e poderosos (de presidentes da República a milionários da borracha), mas também remediados de todo o Brasil e de países vizinhos corriam para lá em busca do tratamento de suas águas. Eram atraídos também pela diversão dos cassinos e de sua intensa vida noturna. A vida social mais intensa trazia outro tipo de oportunidades, conectando os moradores e comerciantes locais aos poderosos de todo o país.

Corria o ano de 1919 e no dia 2 de abril foi aberta em Poços de Caldas a Moreira Salles & Cia., também em sociedade com o cunhado Pardal Vilhena de Alcântara. João tinha se capitalizado nos seis anos anteriores, era o sócio comanditário e logo fez construir um sobrado com residência para a família no andar de cima (com nove quartos) e loja no térreo, onde se vendiam gêneros de estiva, ferragens, artigos de armarinho, tecidos etc. –  além de continuar as atividades de correspondente bancário, chegando a representar 13 bancos.

Não teve dificuldades em se integrar na cidade e já em 1920 foi eleito diretor da Associação Comercial de Poços de Caldas. A loja cresceu, cresceram também os negócios com café e ainda nos anos 20 ele abria um armazém de café em Poços de Caldas.

Em 1922 nasceu seu quarto e último filho, José Carlos.

O crítico literário Antonio Candido, que morou em Poços de Caldas naquela época e concedeu uma entrevista ao Arquivo WMS/IMS, descreve “seu” João:

Estatura média, muito bem vestido, um homem muito distinto e de uma extrema cortesia. Ele tinha uma simpatia extraordinária. Sabia tratar as pessoas. Todo mundo gostava dele.

Com essa simpatia a Casa Moreira Salles logo se tornou “a loja” da cidade:

Como todo dono de loja [...] ficava na entrada. As pessoas chegavam, ele cumprimentava. As pessoas de mais respeito, ele acompanhava. Se minha mãe chegasse lá, aí o seu João ia com ela, acompanhava. Dizia ‘Seu Diaulas, atenda aqui a dona Clarice’.

Alceu Martins Parreira descreveu, no artigo In memoriam de João Moreira Salles, outra de suas características:

A suavidade de suas maneiras, a fidalguia no trato, fazendo da simplicidade, que era seu traço mais característico, uma permanente forma de diplomacia na convivência diária. Não recorria a arroubos verbais.

Mas se fôssemos procurar um adjetivo que melhor o defina, seria, talvez, morigerado, um homem moderado no modo de viver. Diversas matérias de jornal publicadas em sua homenagem por ocasião de seu falecimento insistem nessa definição. E é o que percebemos numa carta de 10 de maio de 1929 dirigida ao seu primogênito, Walther, então com 17 anos, prodigalizando-lhe conselhos:

Os negócios, ultimamente, dão pouco para todos e quem vive de trabalho, como nós, e precisa manter honradamente o nome, tem que equilibrar as despesas com as rendas.

[...] Quanto ao smoking, aconselho a não fazê-lo, não só por ser dispensável, como também por não ser bonito nem nobre um menino de família relativamente pobre sustentar desses luxos. Peço-te pois que varra isso do pensamento, porque se refletires um pouco, verás que é futilidade.[...]

Teu pai, que trabalha das 6 da manhã às 11 da noite, como ainda hoje aconteceu, fala com o único fito de conservar seu nome e de poder educar seus enternecidos filhos. Sabes bem que aquele que assim procede, estudou pouco e com dificuldades grandes. Confio muito em ti e preciso que me prometas que entrarás, desde já, no bom caminho, desprezado as más companhias e os luxos.

Adiantando um pouco as informações, nesse ano de 1929 esse homem que trabalhava 17 horas por dia era sócio da loja mais importante de Poços de Caldas, e de um armazém geral e de uma casa comissária em Santos, entre outros bens.

 

Lucrécia e João Moreira Salles com os filhos Hélio (primeiro à esquerda), Walther (de terno), Elza (à direita) e José Carlos. Poços de Caldas, MG, 1924 (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

Em 1923 João comprou a parte do cunhado e estabeleceu nova estrutura societária: passou a ter quatro novos sócios, com capital aumentado e âmbito de ação ampliado. Como veremos, a mudança societária era essencial para seus planos.

1924 foi um ano crucial. A historiografia destaca que foi o marco inicial na trajetória do grupo financeiro Moreira Salles, pois no dia 27 de setembro a Casa Moreira Salles recebeu autorização para abrir uma seção bancária. A casa comercial deixava de ser mera correspondente e passava a ter algumas das atribuições de um banco e a poder realizar diversas operações de crédito.

Mas essa mudança fundamental não impediu que menos de um mês depois ele se mudasse para Santos atraído por um convite para se associar à Casa Castro, Cardoso & Cia., armazém geral na cidade. A oportunidade de dar um novo salto fez João transferir-se com toda a família – exceto Walther, que era interno no Liceu Franco Brasileiro, em São Paulo.

Percorreu todos os passos na região produtora, começando como varejista que vendia fiado aos fazendeiros; tornara-se comissário que financiava e vendia café no atacado; ampliou os negócios para os primeiros serviços bancários. E agora, aos 36 anos de idade, saindo praticamente do nada, contando apenas com seu trabalho, seu talento para os negócios e sua capacidade de construir relações sociais, João Moreira Salles chegava a Santos, então o centro do mercado brasileiro de café.

A vida passou a ser um contínuo vai e vem entre essa cidade e Poços de Caldas. A documentação mostra que mesmo passando grande parte do tempo à frente dos negócios do café, ele continuava a se envolver na loja e nas transações com os fazendeiros da região.

E não era apenas a Casa Moreira Salles. João estava tão integrado à vida de Poços e das cidades vizinhas, que nesse período também se pôs à frente de outras atividades muito diversas. Era o concessionário das redes telefônicas de Poços de Caldas, Botelhos e Campestre, foi presidente da Companhia de Tração, Força e Luz de Botelhos, que construía a linha férrea entre essa cidade e Poços. Arriscou-se também num negócio de madeiras no Paraná e em Santa Catarina. E, surpreendentemente, foi nomeado, em 1928, delegado de Polícia em Poços de Caldas. Foi também membro do diretório local do Partido Progressista. Isso, para não falar na viagem oficial que realizou à Europa em 1927, onde visitou diversas estações de águas na França e na Alemanha para comprar todo o mobiliário e equipamento do Palace Hotel. Antonio Candido lembra:

Eu não sei bem essa história, mas aí o senhor João Moreira Salles foi uma espécie de conselheiro econômico. As grandes compras feitas na Europa, (tudo montado lá), ducha, banheiro, tudo da Europa. O senhor João foi o homem que fez todo esse negócio como colaborador, no caso, do senhor Chagas, e está diretamente ligado à modernização de Poços de Caldas. Foi isso.

 

1924-1931: do café à Casa Bancária

O período que João Moreira Salles escolheu para atuar em Santos não poderia ser mais propício. A partir de 1906 estava proibido o plantio de cafeeiros, em decorrência do Plano de Valorização do Café estabelecido pelo governo de São Paulo que, frente à enorme oferta, passou a regular a produção e o preço do produto. Só na Primeira Guerra Mundial, com a previsão de um novo ciclo de crescimento, foram autorizadas novas plantações. Em decorrência, o número de cafeeiros cresceu 56% entre 1915 e 1929 – e quase 30% desse número eram plantações posteriores a 1923.

João progrediu muito nesses anos. A Castro, Cardoso & Cia, com a entrada de João, passou  a se denominar Castro, Salles & Cia. e já em 1924 ele criou a Moreira Salles & Cia., comissária de café separada da casa comercial com o mesmo nome em Poços de Caldas. Em 1927 a Casa Moreira Salles de Poços passou por outra alteração societária: João comprou a parte dos demais sócios e João Affonso Junqueira, o Pelota, seu amigo por muitos anos e da mais tradicional família de todo o sul mineiro, foi convidado a entrar na sociedade.

 

João Moreira Salles. Local não identificado, c. 1930. | Interior da Casa Bancária Moreira Salles, Poços de Caldas, MG, anos 1930 (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

Mas então os mercados internacionais derreteram. A quebra da Bolsa de Nova York em novembro de 1929 espalhou o pânico por todo o mundo: produção e consumo,  vendas e preços desabaram. Para se ter uma ideia, as exportações brasileiras passaram de 94,8 milhões de libras esterlinas em 1928 para 36,6 milhões em 1932. O volume de exportações de café se manteve mais ou menos o mesmo (13,8 milhões de sacas em 1928 e 11,9 milhões em 1932), mas às custas de uma acentuada queda nos preços: 67,9 milhões de libras esterlinas em 1928 e apenas 26,2 milhões quatro anos depois.

O café carregava, ademais, um outro problema, enorme: ao mesmo tempo em que o preço despencava, a oferta crescia, graças às recentes plantações. Fazendeiros e  negociantes se arruinavam – só conseguiu resistir quem tinha patrimônio sólido.

Frente à penúria geral, o governo central (a essas alturas sob um regime ditatorial) resolveu intervir.

Mudanças radicais foram implementadas. O governo federal, que até então se comportara de maneira ausente, assumiu o controle total do mercado de café – produção, exportação, formação de estoques, oferta de divisas e definição de preços. Não só o plantio de novos pés voltou a ser proibido, como se promoveu a erradicação dos cafeeiros mais velhos e menos produtivos, coibindo assim a ampliação da oferta futura. A comercialização foi submetida a restrições rígidas, sendo criado um extenso aparato burocrático para regulamentar as vendas internas e externas. Os estoques foram drasticamente reduzidos – o governo federal comprou, a preço baixo, todo o estoque em poder do governo de São Paulo, que controlava  o mercado desde o Plano de Valorização do Café, e promoveu a queima de 80 milhões de sacas de café. O mercado de câmbio passou a ser burocraticamente controlado e a negociação de divisas passou a ser atribuição exclusiva do Ministério da Fazenda, que estabeleceu cotas e faixas de valores.

Após três anos, os preços pararam de cair e em 1932 o mercado voltou a ter um mínimo de equilíbrio. Nem todos os fazendeiros e comerciantes resistiram, apesar das medidas de socorro oferecidas, como uma moratória parcial, mas João Moreira Salles não só estava entre os sobreviventes, como, a despeito das crises que teve de enfrentar, ampliou muito os seus negócios na década de 1930.

Em 1931, um avanço importantíssimo: a autorização de funcionamento da Casa Bancária Moreira Salles. Não era mais a seção bancária de uma casa comercial, mas um estabelecimento autônomo, que se diferenciava de um banco apenas pelo volume de capital, podendo realizar todas as operações no mercado bancário de então. Era uma mudança tão importante que, a despeito dos tumultos no mercado do café, João Moreira Salles teve de se desdobrar e dar mais atenção ao que acontecia em Poços.

 

1931-1940: de casa bancária a banco, de armazém geral a firma exportadora

Mas foi por pouco tempo. Seu filho Walther aparentemente ouviu os conselhos dados anos antes e, ainda estudante de Direito em São Paulo, passou a trabalhar em Poços de Caldas, concentrando-se principalmente nas atividades da casa bancária, que aos poucos sobrepujou a casa comercial, que acabou por desaparecer. Com o filho à frente dos negócios em Poços, João pôde dar toda sua atenção ao café.

A desestabilização do mercado entre 1929 e 1932, que provocou a ruína de tantos, não o afetou tão drasticamente, tanto é que em 1932 a Castro Salles & Cia dobrou o  capital. Outra mudança, ainda mais importante, se deu três anos depois: em 1935 Aristides Castro vendeu sua parte na Castro Salles & Cia., que passou a se denominar Moreira Salles & Cia, tendo como sócios João, com 70% do capital, e Walther, com 30%.

Em 1936 a força da Moreira Salles & Cia. já chamava a atenção de Assis Chateaubriand, que em artigo no Diário da Noite em 7 de março daquele ano dizia:

Essa firma possui a bagatela de nada menos de um milhão de pés de café de produção fina. Compra e vende 300 mil sacas do produto de ótima bebida a essa potência e a essa notável força de estímulo à melhoria da produção cafeeira do Brasil que é a American Coffee Corporation.

Este parágrafo traz duas informações relevantes. Primeira, que a Moreira Salles não se limitava ao comércio de café, mas também se dedicava à produção: era dona, nessa época, de pelo menos duas fazendas em São Paulo, a Pouso Alegre, no município de Casa Branca, e a Pinhalzinho, no município de Pinhal. Segunda, a referência à American Coffee Corporation.

 

João Moreira Salles em seu escritório. Poços de Caldas, MG, anos 1930 (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

O contrato com essa firma, que viria a ser a maior exportadora/importadora de café no mundo,  teve consequências no longo e no curto prazo. No longo prazo, significou o início de uma relação da maior importância, já que a American Coffee pertencia à família Rockefeller, que por mais de 30 anos se associaria ao grupo Moreira Salles em inúmeros negócios. E a relação foi além do estritamente empresarial, já que os irmãos Nelson e David Rockefeller mantiveram com os Moreira Salles uma estreita amizade, especialmente com Walther.

Já no curto prazo, o contrato não teve resultados tão benéficos. Celebrado com a Casa Bancária Moreira Salles, durou pouco mais de um ano e resultou em grandes prejuízos. Consta do Arquivo WMS/IMS farta documentação a esse respeito, tanto relatórios internos descrevendo a  crise, como correspondência do Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais apontando os problemas de liquidez da Casa Bancária.  Os Moreira Salles, que haviam atravessado bem a crise do final da década de 20, por pouco não tropeçaram no final da década de 30.

A essa altura já havia um sócio seguro e experiente, como podemos ver pela carta que Walther escreveu ao pai e que vale a pena transcrever na íntegra:

28.3.938

Papai

Muitos abraços

Felizmente, liquidou-se o caso da Prefeitura e aquele outro pendente, e de seu longo conhecimento.

Assim, com essa grande entrada de numerário acho este momento oportuníssimo para, de vez, modificarmos o trabalho nosso ali em Santos. Sou de opinião que de hoje em diante não mais devemos arriscarmo-nos em negócios de compras. Com a entrada já referida, devemos nos dedicar somente a financiamentos, e nada mais, a não ser em casos excepcionalíssimos. É essa minha opinião, e como sei que é também a sua, apelo para não deixarmos passar o momento, que por todos os motivos, é o melhor.

Assim, devemos agir, pois já adiamos essa solução por longo tempo.

Estou certo que assim decidirá e que de vez deixemos o risco de compras para nos dedicarmos ao seguro negócio de financiamento.

Receba nossos abraços

Do seu filho

Walther

A primeira consequência dessa “grande entrada de numerário” foi que João Moreira Salles pôde expandir os negócios de café para além de Santos: fundou, em sociedade com Julio Avelar, exportador carioca, a Companhia Brasileira de Armazéns Gerais, com sede no Rio de Janeiro e filial em Santos. No mesmo ano de 1938 fundou também a Companhia Brasileira de Café, em Santos.

Enquanto isso, em Poços de Caldas, Walther, aos 26, 27 anos, desbravava outra frente, que teria importância ainda maior, tão maior que não se poderia então prever todos os seus desdobramentos. Convicto, como dissera ao pai, que o melhor negócio eram os financiamentos, para ele a Casa Bancária Moreira Salles não bastava e pôs-se em campo em busca de maneiras de ampliar o negócio. Como resultado de suas investidas, em 1939 João Moreira Salles tornou-se acionista do Banco Machadense, de uma cidade próxima, e em 1940, acionista e presidente do Conselho de Administração do Banco do Distrito Federal, do Rio de Janeiro. Mas no mesmo ano João Moreira Salles assumiu o controle acionário do Banco Machadense e o banco carioca deixou de ser importante para a transação pretendida. As negociações avançaram nas cercanias mesmo de Poços de Caldas, com a participação da Casa Bancária de Botelhos, também cidade próxima. Em 1940 aconteceu a fusão entre o Banco Machadense, a Casa Bancária de Botelhos e a Casa Bancária Moreira Salles. Nascia o Banco Moreira Salles, com João como principal acionista e presidente do Conselho de Administração.

A partir de então os caminhos se abriram ainda mais. O Banco Moreira Salles, com sede em Poços, em breve tempo abriu diversas agências nas principais regiões cafeeiras e também no Distrito federal. O sócio Pedro di Perna, antigo proprietário da Casa Bancária de Botelhos, assumiu a chefia executiva  do banco, cargo que ocupou  por mais de duas décadas.

 

1940-1950: o auge em Santos

Isso permitiu que  Walther Moreira Salles se mudasse para o Rio de Janeiro, já que aí estabelecera, a partir dos veraneios de Poços, uma ampla rede de relações. Estendendo os laços para Nova York, onde já tinha ido a negócios do café em 1939, ampliou o leque de atuação do grupo através de várias  sociedades com empresas nacionais e americanas no ramo da mecânica pesada, importação de medicamentos e outros, além de abrir frentes financeiras para o banco.

João Moreira Salles também ficou livre para voltar a Santos, onde continuou expandindo seus negócios. Já em 1941 se associou à firma Teixeira, Martins & Cia. Ltda., de exploração comercial do café, algodão e sacaria. Em 1943 o Banco Moreira Salles abriu aí uma agência. E em 1944, vinte anos depois de chegar à cidade, alcança uma das mais altas posições entre os comerciantes de café: foi escolhido representante da praça de Santos no conselho do Departamento Nacional do Café, o órgão federal que então definia a política cafeeira.

 

Getúlio Vargas (ao centro, sentado no balanço). À direita, José Soares Maciel Filho (fumando), Juscelino Kubitschek (de terno escuro) e Arnon de Mello. Poços de Caldas, MG, 1943 (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

Defendeu tão bem os interesses da praça que no ano seguinte foi eleito presidente da Associação Comercial de Santos para o biênio 1945-1946, no período difícil do imediato pós-guerra. Mais uma vez revelou-se bom negociador, sendo responsável pelo restabelecimento da Bolsa Oficial de Café.

O restante da década foi mais adverso para o comércio do café. A política brasileira de comércio exterior passou por sucessivas mudanças: nos primeiros anos do pós-guerra as divisas acumuladas no período foram liberalmente gastas para satisfazer a demanda reprimida durante o conflito. Com seu rápido esgotamento, seguiu-se um rígido controle cambial, a supervalorização do cruzeiro e um conjunto de regras burocráticas tanto para a importação como para a exportação.

 

Reunião da Associação Comercial de Santos, com João Moreira Salles ao centro, sentado. Santos, SP, 1946 (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

A comercialização do café perdeu muito de sua atração e a praça de Santos enfrentou uma crise, de que não escaparam as empresas do grupo Moreira Salles. Mesmo com uma grande alta de preços em 1949, a política governamental tornou o mercado do café muito instável – fortunas se perdiam do dia para a noite. João Moreira Salles decidiu que era hora de mudar de foco e passou a priorizar a produção, onde já estava presente.

1950- 1960: de grande cafeicultor a nome de cidade

No começo da década de 1950 as terras roxas do oeste paranaense chamaram sua atenção. Na fronteira com o estado de Mato Grosso havia imensas extensões de matas disponíveis para quem se propusesse a desbravá-las, tarefa que exigia muitos anos (os cafeeiros produzem após cinco anos ) e muitos recursos: derrubar árvores, abrir estradas, construir pontes, dividir terras, organizar fazendas, semear, cultivar – e esperar. A legislação estadual, para estimular os empreendimentos, permitia inclusive que fossem criadas cidades, mantidas algumas condições. Com pouco mais de 60 anos, João Moreira Salles resolveu que era hora de bancar o bandeirante e decidiu colonizar uma parte daquele ermo.

Através da Companhia Exportadora e Importadora União foram adquiridos cerca de 370 mil hectares nos municípios de Goio-Erê e Campo Mourão e o desbravamento começou.  Não estava sozinho, é claro, e nessa empreitada contou não apenas com seus sócios e companheiros de trabalho – Julio de Souza Avelar, Antonio Teixeira Junior, Benedito Mendes Ribeiro – como também com os filhos Helio e José Carlos, além do neto Fabio Valim, filho de Elza.

 

Localização da cidade Moreira Salles, no Paraná

 

O empreendedor reservou para si duas fazendas, a Moreira Salles e a Santana, onde iniciou a plantação de um milhão de pés de café. O restante foi loteado e em pouco tempo mais de 400 sítios e fazendas estavam sendo implantadas, mais de 6 milhões de pés de café sendo plantados. Foi definida uma área extensa para a construção de uma cidade e a Companhia União promoveu algumas benfeitorias essenciais, como hospital, hotel, campo de pouso, construídos em volta do que antes era um armazém. Foi traçado um plano urbanístico e, no ritmo acelerado em que as coisas aconteciam naquele lugar e naquele tempo, menos de dez anos depois era criado um novo município.  Por decisão de seus habitantes, recebeu o nome de Moreira Salles.

No mesmo período em que desbravavam o oeste paranaense, outro grande negócio na área do café também tinha lugar. Em 1951 Walther Moreira Salles e seu associado Homero de Souza e Silva compraram a empresa inglesa Brazilian Warrant Company. A BW era controladora da E. Johnston  & Cia. Ltda., fundada em 1842, que, por sua vez, era proprietária da Companhia Paulista de Armazéns Gerais, primeira do gênero em Santos, criada em 1908, e da fazenda Cambuí, em Matão, com 57 mil hectares e, na época, 2,5 milhões de pés de café e 15 mil cabeças de gado.

 

João Moreira Salles em suas terras no Paraná, s.d. (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

A compra se fez através da Bolsa de Valores de Londres, resultou na aquisição de 90% do capital e exigiu o contato direto com centenas de pequenos acionistas ingleses. A negociação envolveu uma operação de compra de libras esterlinas em diversos países, aproveitando as diferentes taxas de câmbio então vigentes e o custo final foi de um terço do valor dos ativos. A empresa alterou seu nome para Brasil Warrant, Companhia de Comércio e Participações e se tornou a empresa holding do grupo Moreira Salles.

Em consequência dessa grande operação, ocorre a fusão de empresas semelhantes. A Companhia União de Armazéns Gerais, que já havia incorporado a Moreira Salles e a Companhia Brasileira de Armazéns Gerais, fundiu-se, por sua vez, com a Companhia Paulista de Armazéns Gerais, dando origem à Companhia União Paulista de Armazéns Gerais. João Moreira Salles era o presidente.

1960-1968: últimos anos

Não havia grupo maior no comércio de café em Santos. No entanto, este negócio perdia cada vez mais sua importância, e as atenções dos Moreira Salles estavam voltadas para a produção. Em Matão, a fazenda Cambuí foi loteada, reservando-se uma parte para os donos originais. Em Moreira Salles, prosseguia o crescimento da cidade e das fazendas Moreira Salles e Santana, sob a direção de João Moreira Salles e de seus filhos. Pelo restante de seus dias – é o que se lê em mais de um documento – era o lugar onde ele se sentia melhor.

São poucas, no entanto, as referencias no Arquivo WMS/IMS a seus últimos anos de vida, talvez por ter se dedicado principalmente às terras paranaenses. Com a discrição de sempre, continuou ocupando cargos importantes no grupo especialmente no ramo do café, mas era também presidente do Conselho de Administração do banco comercial e de outras empresas, como a BW, a Refinaria de Petróleo União, além de  se dedicar a diversas organizações da sociedade civil.

Já as companhias santistas criadas por ele e que continuavam funcionando sob direção profissional, foram vendidas em meados da década de 1960, quando o grupo, diante da reforma do mercado de capitais então ocorrida, decidiu sair da comercialização do café e investir nas nascentes oportunidades do mercado financeiro que então se apresentaram.

 

Inauguração da agência do Banco Moreira Salles na cidade Moreira Salles. João Moreira Salles, Benedito Mendes Ribeiro e Helio Moreira Salles | João Moreira Salles. Local não identificado, 1960 (Arquivo WMS/Acervo IMS)

 

Embora escassas, as referências a João Moreira Salles mostram que não foi esquecido. Os cargos que ocupava, as dimensões de seu patrimônio, sua personalidade marcante faziam com que aquele homem de hábitos simples, que até bem avançado em idade ainda engraxava os próprios sapatos, fosse sempre alvo de atenção e admiração. Assis Chateaubriand, que dedicou-lhe mais de um artigo ainda na década de 1960, chamava-o de “mineiro do Tejo”, pois sua maneira comedida e elegante de negociar e de se comportar lembravam-lhe os de um aristocrata português. Era um homem por quem todos tinham respeito.

Não pôde ver inaugurada sua última obra, o hospital Ana Moreira Salles, em Cambuí, cujas obras e equipamentos ele patrocinou. Teve também o cuidado de construir uma usina elétrica para fornecer luz à cidade e cujos rendimentos se destinavam à manutenção do hospital. Em 16 de fevereiro de 1968, dois dias antes da data prevista para a inauguração, e que seria seu aniversário, ele sofreu um infarto, vindo a falecer em 2 de março, ao 80 anos. As homenagens que recebeu, os artigos escritos na ocasião, a atribuição póstuma de seu nome a logradouros em Poços de Caldas, Cambuí e Santos registram a importância dada a ele pelos contemporâneos e o desejo de que sua memória fosse preservada. É mais do que justo.

 

Sergio Goes de Paula é coordenador do Acervo Walther Moreira Salles do IMS.

(Com a colaboração de Maria Silvia Gomes e Vinicius Rodrigues de Oliveira).

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