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De olho no século XXI

20 de abril de 2018

Guardião de um excepcional acervo que conta com aproximadamente 2 milhões de imagens, o Instituto Moreira Salles é uma referência inequívoca da memória fotográfica do Brasil. Os registros feitos por nomes como Marc Ferrez, Marcel Gautherot, Luciano Carneiro, Hildegard Rosenthal, Alice Brill, e Otto Stupakoff, entre muitos outros, que começam no século XIX e avançam pelo século XX, formam um amplo retrato do país sob diversos aspectos, da arquitetura às festas populares, das paisagens naturais aos flagrantes urbanos. Mais que guardião dessa memória, entretanto, o IMS também vem investindo no papel de ponte para o século XXI, promovendo projetos que agregam ao acervo recortes da novíssima produção de artistas como Mauro Restiffe, cujo trabalho pode ser visto na exposição São Paulo, fora de alcance, no IMS Paulista, e dos integrantes da mostra Corpo a Corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, em cartaz no IMS Rio.

Thyago Nogueira, coordenador da área de fotografia contemporânea do IMS – os milhões de imagens do acervo dos séculos XIX e XX ficam sob a responsabilidade do coordenador Sergio Burgi –, lembra que o desejo da instituição de ser também uma forte referência para a produção mais recente começou a tomar forma em 2010, com as primeiras ideias sobre a construção de um novo centro cultural em São Paulo – o IMS Paulista, inaugurado em setembro de 2017 –, e da criação da ZUM, publicação semestral do IMS sobre fotografia, da qual Thyago é editor.

“Quando fui chamado para desenvolver a revista (o primeiro número saiu em 2011) foi um momento de estudo, de conversar com fotógrafos, visitar várias instituições dentro e fora do Brasil, para pensar não apenas qual seria a cara da publicação, mas também a atuação do instituto na área da fotografia contemporânea”, conta Thyago. “E ficou visível ali que havia uma demanda dos próprios fotógrafos. Eles diziam ‘puxa, mas vocês só vão publicar os trabalhos, não vão expor, não terão acervo de artistas ainda vivos?’ Então fomos mapeando aos poucos”.

Copacadema, 2009. Fotografia de Caio Reisewitz. / Acervo IMS

A coleção de fotografia contemporânea, que tem hoje 1114 obras, é fruto de várias frentes de trabalho. Uma delas são as parcerias, como a promovida com a X Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 2013 (que legou ao IMS 20 imagens de Brasil: o espetáculo do crescimento, de Tuca Vieira); com o Arq.Futuro, plataforma de discussão sobre cidades, da qual resultou o trabalho Água Escondida, de Caio Reisewitz, desenvolvido no momento da crise hídrica de São Paulo; ou o projeto Magnum Offside Brazil (2014), no qual dez fotógrafos (quatro estrangeiros da mítica agência internacional e seis brasileiros) percorreram o país de norte a sul durante a Copa do Mundo, produzindo material diariamente. O IMS abriga parte dessas imagens feitas tanto pelos estrangeiros (os americanos Susan Meiselas e David Harvey, o italiano Alex Majoli e o norueguês Jonas Bendiksen), como pelos brasileiros Bárbara Wagner, Pio Figueiroa, André Vieira, Breno Rotatori e pelos coletivos Garapa e Mídia Ninja.

Outras obras da coleção vêm dos projetos feitos pelos artistas com a Bolsa de Fotografia ZUM/IMS (são duas concedidas a cada ano), como as séries Zoo, de João Castilho, e Microfilme, de Letícia Ramos, vencedores da primeira edição, em 2013. “O prêmio dá uma bolsa de R$ 65 mil para cada projeto, que é desenvolvido pelo artista durante um ano, e depois eles selecionam qual parte do trabalho fica no acervo do IMS”, conta Thyago, lembrando que desde o início o prêmio se preocupa em contemplar artistas de todas as vertentes, incluindo audiovisual. “A bolsa é um programa regular de acervo, um modo de conjugar um programa expositivo com o de fomento. No fundo o acervo é a coisa mais valiosa que uma instituição tem, e é importante achar formas de ampliá-lo e fazê-lo ganhar outros sentidos”.

No conjunto há ainda as obras criadas especificamente para exposições (como Corpo a Corpo), além daquelas encomendadas para publicação na ZUM, como as de Restiffe em São Paulo: fora de alcance, que se transformou em mostra em 2013, a primeira comissionada pelo IMS.

“Encomendar ensaios foi algo que surgiu logo na segunda edição da revista, porque na primeira já percebi que tínhamos que apresentar alguma coisa nova”, lembra Thyago. “Com o Mauro foi assim. Em 2012 São Paulo estava no meio da transformação drástica da área da Cracolândia, o governo naquele processo de expulsar moradores. Ele fez um primeiro ensaio para a revista e depois, superdedicado e animado, voltou à área quando começaram as reformas para a Copa do Mundo. O projeto ganhou mais corpo, já pensando numa exposição, que apresenta a paisagem urbana de São Paulo em transformação. Queríamos fazer uma relação com temas que já estivessem presentes no acervo do instituto”.

Uma outra característica da coleção contemporânea está na concepção da fotografia como objeto único de arte. Diferentemente de adquirir acervos de negativos que podem ser multiplicados em diversas cópias, por exemplo, o que se compra são as obras individuais escolhidas pelos artistas, incluindo tipo de suporte e moldura. “Adquirimos um objeto que é específico, não podemos ficar reimprimindo como se tivéssemos a matriz daquela imagem”, observa Thyago. “O artista está vivo, e ele define sua obra”.

Em todas as frentes, desde os projetos das bolsas até as exposições, o importante, como salienta o coordenador, é o trabalho ser desenvolvido em conjunto com os fotógrafos. É uma forma de incentivar novas ideias e proporcionar ao artista o apoio necessário até para eventuais mudanças de rumo no planejamento inicial, que costumam acontecer durante o processo. “Acho mais rico para a instituição participar da produção desse jeito, com a mão na massa. Trabalhamos com uma curadoria ativa, que discute cada projeto, para aproximar o artista da instituição e permitir que a instituição aprenda com ele”.

Entre múltiplas ações, o IMS vai exercitando o olhar sobre o novo, fazendo apostas, como no caso dos integrantes da mostra Corpo a Corpo, alguns deles vencedores da Bolsa de Fotografia ZUM/IMS. Bárbara Wagner, uma das contempladas em 2015, com o projeto Mestres de cerimônia, foi selecionada por Thyago em 2014 para o Magnum Offside Brazil e, na época, ele chamou a atenção da artista para a questão dos evangélicos no Brasil, algo que as pessoas olhavam “com certo desdém”, como ele lembra. “Ela gostou tanto da ideia, e o projeto foi crescendo tanto que virou o documentário Terremoto Santo (feito em parceria com Benjamin de Burca), que pode ser visto na exposição”. Sofia Borges, presente na mostra com a instalação A máscara, o gesto, o papel, que reúne imagens produzidas dentro do Congresso Nacional, em 2017 (mesmo ano em que ganhou a bolsa), vai expor seus trabalhos no MoMa, em Nova York, e será uma das artistas-curadoras convidadas da Bienal de Artes de São Paulo 2018.

Sem título. Série A Sônia, 1971. Fotografia de Claudia Andujar / Acervo IMS

Olhar o novíssimo, porém, não significa ignorar o trabalho de profissionais já consagrados e em atividade. Revisitar acervos importantes de grandes nomes da fotografia é uma das vertentes da coleção contemporânea, que já resultou em uma exposição de Claudia Andujar (No lugar do outro, apresentada no IMS Rio em 2015, com as fotos incorporadas ao acervo do instituto). Há outra dela a caminho, também organizada por Thyago, prevista para dezembro, no IMS Paulista. Em todos os casos, o objetivo não é montar uma mera retrospectiva, mas buscar, dentro da produção do artista, ângulos ainda pouco explorados, mesmo que sobre temas mais conhecidos, como o longo trabalho de Claudia com os índios Yanomami, desenvolvido entre os anos 1950 e 1970. “Nosso interesse é ampliar a pesquisa sobre a fotografia contemporânea brasileira. A exposição é o final dessa pesquisa, como uma apresentação de uma tese”, compara o curador.

Por tudo isso, Thyago acredita que hoje o IMS é visto mesmo como uma instituição parceira pelos fotógrafos, que sugerem cursos, projetos, e mantêm um diálogo vivo com a instituição. Um desejo manifestado há alguns anos por Flávio Pinheiro, superintendente executivo do IMS, como lembra o curador. “Quando ele me chamou para conversar, lá em 2010, ele disse que gostaria que os fotógrafos vissem o instituto como a casa deles. Está sendo um desafio bacana”.


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