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O braço direito, um livro cult

04 de fevereiro de 2014

Otto Lara Resende publicou seu único romance, O braço direito, em 1963, mas ele seria apaixonadamente discutido no ano seguinte. Além do artigo escrito especialmente para Em 1964 pela romancista Ana Miranda, o site também apresenta em duas imagens abaixo (ao lado da capa da edição original) uma folha datilografada por Otto dando conta da gênese do livro e um datiloscrito seu com um extrato do final da obra. Na página seguinte (clicar no número 2 ao fim do texto de Ana Miranda), há dois comentários críticos publicados na época em jornais, por Homero Senna e Octávio de Faria.

 

1. Capa da primeira edição do romance O braço direito, de Otto Lara Resende. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963. Capa de José Medeiros. Biblioteca Decio de Almeida Prado / Acervo IMS 2 e 3. Datiloscritos de O braço direito, de Otto Lara Resende. Ao centro: fragmento de uma das cinco versões de O braço direito, com anotações manuscritas e assinatura do autor. À direita: apontamentos iniciais sobre o enredo, de 1957. Arquivo Otto Lara Resende / Acervo IMS

 

Ana Miranda

“O mundo foi criado por Deus. Mas quem o administra é o Diabo”… Essa frase, que está nas primeiras páginas de O braço direito, é típica de Otto Lara Resende. Ele era admirado por suas sentenças, e muitas ficaram guardadas, andam por aí. Elas surgiam naturalmente, no meio de um discurso fecundo. Otto fazia passeios maravilhosos pelos enredos da memória, inteligência e imaginação. Quando começava a falar, e raramente ficava em silêncio entre amigos, todos o cercavam, e ouviam, deliciados, sua brilhante fala jorrando como uma fonte inesgotável. Arrancava lágrimas e risadas. Usava de ironia, humor, travessura, gentileza, para tratar de tudo, desde uma trivial ida ao barbeiro da esquina até uma complicada questão da política. Não havia quem ficasse imune à sedução de tal eloquência, graça e vivacidade.

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Otto conhecia um número incalculável de pessoas. Fazia questão do trato pessoal. “Falo a língua de todo mundo. Não há vida humana que não me interesse”, escreveu. Visitava-as, aceitava seus convites. O mundo era irresistível. Levava uma vida social ampla, era disputado por amigos. Rubem Braga chegou a dizer que Otto era como um passarinho, quem o pegava primeiro, botava na gaiola. Otto sabia infinitas histórias que aconteciam com aquelas pessoas, a maior parte nascida de seu próprio testemunho, de sua convivência, em diversas épocas, e as narrava como se fossem contos que se passavam dentro de contos, na sua arte de bem falar.

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Homem também das cartas, foi um dos mais “fulgurantes corações epistolares do Brasil”, como disse seu amigo Armando Nogueira. Quem teve a sorte de receber correspondência de Otto Lara Resende sabe o quanto ele registrava ali seus extraordinários dotes de oratória e sua visão de mundo. Seus textos jornalísticos são antológicos, quase sempre relatando reminiscências, com suntuosidade linguística, numa erudição natural, recriando uma história brasileira, contando minúcias que só sabe quem estava presente, atento; e escreveu crônicas para jornais como um mestre, num crescente despojamento, quase lírico, mantendo ali a sua narrativa irreverente, conhecedora do outro, falando do outro, mas, no fundo, falando de si mesmo.

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Mas era a literatura a arte que mais o comovia e inquietava. “Sua verdade está na sua ficção”, disse-lhe Afonso Arinos, referindo-se decerto à verdade mais profunda, aquela que nasce conosco e se estabelece na infância. E a ficção de Otto revela um homem comedido, sombrio, pessimista, profundamente religioso, beirando o trágico. Ele mesmo disse que, ao escrever literatura, tendia para a tragédia.

“Quer coisa mais deprimente do que o meu Braço direito? Engraçado, escrevi isto agora, mas não acho. Acho o Braço direito um livro engraçado, de rolar de rir. Me lembro que eu ria pra burro ao escrevê-lo. Um dia, de madrugada, o Luis meu irmão chegou em casa e me encontrou sozinho, no escritório, rindo à toa, feito maluco. Era do meu romancinho. A personagem, uma só vez cito o seu nome, o Laurindo Flores é um tipo muito engraçado, visto de fora, e pungente, na sua sanha errada de ser santo pela contramão.”

Creio que Otto se referia a algo comentado por este antigo dito: para quem sente, a vida é uma tragédia; e para quem pensa, uma comédia. E é isto mesmo, O braço direito pode ser lido pelo viés do sentimento e pelo da razão. Há um mundo oculto, que assusta, suspende, e nos leva por catacumbas da Igreja e catacumbas do tempo colonial, percorridas por fantasmas. Um labirinto sem saída. Um horizonte sinuoso, intransponível. Por outro lado, há no Braço direito uma linha contínua de graça, senso de humor, enlevo; e o fascínio da narrativa, quando ouvimos a confiável voz de Otto por trás de tudo, com seu jeito de rir e chorar ao mesmo tempo. Por sua ficção, vemos uma concepção da humanidade como um bando de opressores e oprimidos, que se oprimem mutuamente. Em O braço direito, usa como símbolo um orfanato.

Ele conta que escreveu esse romance sem nunca ter entrado num orfanato. Mas, quando menino, na sua cidade serrana de São João d’El Rei, ficava do lado de fora olhando um orfanato de meninas, as janelas fechadas, imaginava as órfãs vestidas de camisolão, como num poema de Manuel Bandeira. Foi o que mais permaneceu em suas lembranças da infância: o primeiro e único romance de Otto tem origem nas fantasias daquele menino olhando um orfanato de meninas, vendo-o como um enigma poético.

O braço direito se passa no Asilo da Misericórdia, num antigo arraial que ele chama de Lagedo, na área de mineração do ouro. Quem conhece a história da Misericórdia sabe o peso que tem. Era uma irmandade que, desde os tempos coloniais, reunia poderosos e ricos para um trabalho de caridade – cuidar de órfãos, viúvas, prisioneiros e enfermos – mas com a intenção de tomar da Igreja o domínio de alguns privilégios e se apossar de parte do poder social dos padres. Num casarão prestes a ruir, a ser vendido, a se acabar, o orfanato “guarda risos e lágrimas”, diz o narrador do livro. “Abrigou vidas felizes, mais ou menos públicas, e desgraças ocultas sufocadas no silêncio”. Ali vivem meninos desventurados, tratados aos safanões, surras e cascudos, que recebem assistência, mas sofrem da hostilidade de famílias locais. Passaram por tragédias ou dramas, como a de Boi Manso, que assistiu à morte da própria mãe após se envenenar e atear fogo às vestes. Ou Zeferino, que caiu numa fossa aos três anos de idade e ficou corcunda. Vivem num ambiente regrado com rigidez, sempre descumprindo as normas. Têm uma existência dolorosa, mas, ao contrário da orfandade na literatura de Dickens ou Victor Hugo, não são protagonistas, aparecem quase como espantalhos desamparados, mas opressivos, sombras que vagam no asilo e nas ruas.

A cidade imaginária de Lagedo possui características de aldeia mineira – isolamento entre montanhas, sentimento de solidão, um jeito desconfiado, o guardar segredos, o dever de ajudar os necessitados, a religiosidade intensa e constante, o sentimento do mundo. Lagedo está dominada por uma camaradagem entre o coronelismo e o clericalismo. Ali ocorrem disputas de poder, ódios, humilhações, hipocrisias, avarezas, injustiças, crueldades, doenças, mortes, o mal, enfim, num tom levemente gótico. Impressiona, no correr da leitura, como o livro vai penetrando nos segredos daqueles moradores, de um em um, e nos levando por um mundo espantoso, dilacerado entre o pecado e a virtude. O conflito maior é entre católicos e maçons; estes, tomados como hereges amigos do Diabo, pretendem acabar com o orfanato, conforme pensamentos do protagonista.

Laurindo Flores, narrador na primeira pessoa, zelador do abrigo, vai contando o dia a dia dos moradores de Lagedo, e de sua própria vida cuidando daquelas crianças e jovens órfãos. Parece estar pagando inconscientemente o fato de não ter podido salvar um menino de afogamento, lembrança antiga que o atenta. O zelador não se comove, nem pretende comover quem lê seu diário. Tudo aquilo faz parte da vida, rotina, tradição. A pobreza dos órfãos, que andam com um pé calçado e outro descalço, ou de botinas cambaias, paletó e calça desencontrados, usam pijamas andrajosos, cabeças rapadas, lhe causa revolta, mas sua vida entre meninos pobres e feiosos é tomada como “matéria-prima para a ascese e a mortificação”, diz Flores. Mais do que o desígnio de amar a Deus, estendendo esse amor aos humanos, o zelador busca a redenção de sua alma. O sofrimento é caminho da santidade.

Tudo parece marcado pelo passado. O arraial nasceu no ciclo do ouro, conserva aqueles antigos sobrados com balcões e sacadas, igrejas barrocas, o sino que toca, praça, jardins, neblinas e solfejos. O casarão do asilo é desse tempo, e está prestes a desabar – como se desabasse a tradição vinda desde os primeiros desbravadores, uma horda de aventureiros, ambiciosos, funcionários, fidalgos, escravos e destituídos. Um influente sentimento religioso orienta a trama do livro; até mesmo o tempo, que segue na marcação de um calendário cristão: Advento, Dia de Reis, Natal, Cinzas, Quaresma… O material literário é uma exegese do Evangelho, da teologia, de Teresa de Ávila, santo Agostinho, são Jerônimo, Teresa de Jesus e João da Cruz, el brazo derecho de la santa, e da história religiosa. Flores gosta de contar as vidas de santos nas quais tenta se espelhar, resultado dos flos-santórios que Otto costumava ler. Traz à baila assuntos como jansenismo, numerologia, espiritismo, assombração, magia, agouro, vidência, superstição, anticlericalismo, possessão demoníaca, quebranto. “Sem um olhar sobrenatural, não dá para entender a existência de tantos destinos rotos e obscuros”, diz Laurindo Flores – um nome tão leve e lírico para tal personagem.

As histórias que Flores conta nos vão mergulhando num mundo tenebroso, como a de um homem que come um rato vivo para que um desafiante pague a sua cachaça; a de um gato selvagem que é morto diante de muita gente, preso numa armadilha de pregos que o despedaça aos poucos, enquanto estrebucha, envenenado; ou aterradores processos de exorcismo. São causos da infância de Otto, que registra no Braço direito uma outra Minas Gerais, a que sobrou do auri sacra fames, tão fascinante e violenta quanto a do sertão rosiano, e bem mais misteriosa e soturna. O medo de pecar, a ameaça do inferno, a ascese, dominam as mentes, como nos tempos áureos da Inquisição. Mas existe a bênção da vida, do sonho humano, da fé, da manifestação divina, em um cotidiano de melancolia, com o costume das demoras, o prazer das pequenas coisas, de conhecer toda a gente da cidade e saber seus segredos, e, acima de tudo, o prazer de ler e escrever; tanto para o narrador, que é um leitor incansável e de amplitude, como para o próprio leitor do livro, que desfruta da palavra narrada com arte.

“Quem não é filho de Deus é enteado do Demônio”, diz o narrador. Mas, no segredo inviolável daquelas almas, os personagens contêm em si as duas, ou mais entidades. Também guardam traços de pessoas que marcaram a infância de Otto passada nas ladeiras e igrejas e colégios serranos. O protagonista e narrador, Laurindo Flores, é um filósofo angustiado, observador, que se entrega aos mais graves pensamentos. Se por um lado tem uma disposição firme e constante para a prática do bem, por outro é capaz de matar gatos afogados, descarregar tiros em uma porca que comeu os próprios filhotes, apossar-se de um crucifixo que pertence ao acervo do asilo, permanecer frio diante do infortúnio dos meninos órfãos, sem nenhum gesto de afeto, mostrando uma crueldade incompatível com o sonho de ser santo. Santidade encomendada por sua mãe, Sá Jesusa. Com uma lucidez extraordinária, percebe o mundo e a si mesmo em minúcias, sem compaixão, e essa consciência ele transforma em palavras escritas que desvendam os abismos de uma “realidade”.

O coronel Antônio Pio, chefe político da região e Benfeitor do asilo, lerdo para falar e andar, surdo, desfigurado, “encalhado em si mesmo”, que viola uma menina na fazenda Concórdia; o Provedor ambicioso, dono de terras; o padre Bernardino, caçador, com um fraco por armas de fogo, hipnotizador, sempre envolvido em rusgas e pequenas desavenças; a Marieta do Riachinho, que dá as notícias da cidade e frequenta uma tenda espírita; a bela personagem Calu, que fala sozinha, se desnuda na praça diante do chafariz, entra em transe de madrugada na rua e desempenha a função do coro grego; dona Matilde, uma virtuosa dama de linhagem, baronesa que mora num palacete e se dedica à benemerência; esses e tantos outros personagens compõem um universo intenso, num tom sem nenhum excesso de lirismo ou imaginação, que contrasta com a irrealidade das situações. São inquietantes, perturbadores, inesquecíveis.

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O braço direito é o único romance de Otto Lara Resende, que publicou quatro livros de contos e uma antologia. Um livro “poderoso e estranho”, como disse Antonio Candido. Veio a público em 1963, e Otto, numa busca obsessiva da perfeição, durante quase trinta anos o reescreveu. Era espantoso abrir seu baú e ver ali uma infinidade de páginas datilografadas e anotadas a lápis com uma letra delicada, cheias de rabiscos feitos durante repetidas revisões, versões e versões do romance que iam se acumulando num emaranhado de possibilidades. Ali ele deixava os rastros das angústias de todo escritor diante das infinitas opções que um romance apresenta. Nunca lhe faltou coragem para enfrentar a natureza humana. Mas era um passado do qual ele talvez não quisesse se esquecer, se libertar.

Havia também no baú uma coleção de papéis onde Otto anotava frases, palavras, expressões montanhesas antigas, desenhos de algo que ele recordava ou via, receitas, frutas, comidas, um altar, uma cruz, alguma característica para um personagem… Uma infinidade de apontamentos que faziam parecer o plano da construção de uma linguagem. A maioria da coleta existia como uma revoada imaginativa, servia como um fundamento invisível, porque a linguagem do livro é mineira, porém universal, adequada a um narrador letrado, com clareza e penetração de inteligência, que encontrava nas leituras uma fuga ao confinamento. As frases curtas, lapidadas como diamantes, demonstram o senso prático de um homem que precisa organizar o mundo, dizer com nitidez o que vê e pensa. A impressionante atmosfera do romance exala também das expressões que às vezes soam tão singulares, e da dicção criada por Otto, que brilha em cada frase.

O livro parece a todo instante perguntar: por que fomos feitos assim? Uma criança certa vez definiu a igreja como um lugar onde as pessoas vão perdoar Deus. Foi o que almejou Otto, em seu romance. Se pretendia escrever uma obra-prima, ele o conseguiu, plenamente. O braço direito é um romance precioso, livro de uma vida inteira, um livro cult, único, originalíssimo, repleto de significados, construído com o mais pungente amor pela literatura. Pela vida. E pela humanidade.

 

Correio da Manhã, 11 de janeiro de 1964 / Biblioteca Nacional

 

Folclore de O braço direito

Homero Senna

Referimo-nos outro dia ao adagiário que é possível extrair do último romance de Otto Lara Resende. Nem só de sentenças morais é feito, porém, O braço direito. Há ali também, difusa, muita sabedoria popular, que o escritor naturalmente recolheu na São João del Rei da sua meninice e fez bem em registrar no romance. São itens de uma medicina caseira de puro sabor folclórico, que servem, aliás, para mostrar como se interpenetram as várias regiões culturais do Brasil, pois as mesmas mezinhas costumam ser receitadas, por pessoas do povo, em outras cidades e zonas do país. Para enxaqueca – chá de losna, de macela, de carqueja, de mané-turé, de erva-de-são-joão ou de melão-de-são-caetano (págs. 29 e 137). Para acalmar os nervos – chá de flor de laranjeira (pág. 33). Ainda para enxaqueca: molhar uma folha de laranjeira no vinagre e amarrá-la na testa, com um lenço bem apertado (pág. 91). Para tosse – chá de poejo (pág. 149). Para inflamação causada por espinho ou felpa – chá de pé-de-perdiz ou de folha de santarina (pág. 151). Para furúnculo – chá de orelha-de-coelho. O chá é bom para puxar (pág. 171). Para limpar o sangue – chá de flor de chaga (pág. 172). Para insônia – chá de papoula (pág. 214). Para pneumonia não há mezinhas especiais, mas convém ter cuidado, pois dizem que a doença “mata no sétimo, no décimo quarto ou no vigésimo primeiro dia” (pág. 51). Para abreviar os sofrimentos de um moribundo: misturar gema de ovo com farinha de trigo e lambuzar o umbigo do moribundo. “É uma simpatia que, dizem, é tiro e queda. Dá logo forças ao doente para morrer.” (pág. 141).

 

Correio da Manhã, 5 de janeiro de 1964 / Biblioteca Nacional

 

Testemunhos

O melhor romance do ano

Octávio de Faria

Quando, no início deste ano, me referi a O retrato na gaveta (Editora do Autor, 1962), de Otto Lara Resende, fiz questão de salientar que dois aspectos do livro me pareciam particularmente interessantes: o “progresso técnico” de Otto Lara Resende em relação aos seus muito notáveis volumes de contos (O lado humano, 1952 – Boca do inferno, 1956) e a revelação de seu “talento novelístico”, que via concretizado numa das peças que compunham O retrato na gaveta: a quase novela O carneirinho azul. Aproximando, então, à sombra da indagação de suas possibilidades como romancista, o seu caso literário daquele do Joel Silveira de Alguns fantasmas (face à novela: Desaparecimento da Aurora) terminava o meu “testemunho”, de 03/02/1963, perguntando: “Trata-se, é evidente, num caso como no outro, de duas ótimas e autênticas novelas. Apenas, isso, porém? Os animadores de Otto Lara Resende, como os de Joel Silveira, têm o direito de colocar o problema. Caberá ao futuro responder”.

Se, até o presente momento, Joel Silveira ainda não nos deu nenhuma resposta positiva frente à indagação proposta – mas, longe de mim duvidar de que o venha a fazer, amanhã ou depois – eis que a resposta de Otto Lara Resende acaba de nos ser dada. E, confesso, jamais a imaginei mais positiva, mais total, mais irrespondível. O braço direito (Editora do Autor, 1963) não é apenas um romance, autêntico, inequívoco. É, sim, e não hesito em afirmá-lo, um grande romance.

Não sei, é verdade, se na minha euforia de saudá-lo como tal, não entra um pouco de impureza crítica, de vaidade. Não pelo ângulo profético pessoal – não pretendendo fazer concorrência a ninguém, nesse disputado setor – mas, simplesmente, pelo lado da vaidade masculina. Explico-me: com o encerramento do ano, estava já me impressionando muito o predomínio qualitativo feminino, em 1963, no terreno do romance.  Não que não houvesse bons romances masculinos. Bastaria lembrar, entre outros (e por ordem de publicação), os de Otávio Melo Alvarenga (Doralina), Permínio Asfora (O amigo Lourenço), Moacir C. Lopes (Cais, saudade em pedra), Nelson de Faria (Cabeça-Torta). Mas, em plano numérico igual, os romances femininos logo se enfileiraram: Verão no aquário, de Lygia Fagundes Telles; Muro de pedras, de Elisa Lispector; Um simples afeto recíproco, de Maria Alice Barroso; Madeira feita cruz, de Nélida Piñon. E, por que não o confessar: sentia que o naipe feminino brilhara mais, brilhara como nunca, em 1963, enquanto a “gente do meu país” fora bem parcimoniosa em livros de qualidade.

Assim, encontrava-me já fortemente disposto a reconhecer que, no tocante ao romance, o ano de 63 fora inapelavelmente “feminino”, quando me chegou às mãos o romance de Otto Lara Resende. Naturalmente, não pretendo que sua inegável importância, suas grandes qualidades, possam ensombrar, no que quer que seja, o brilho das contribuições femininas. Livros como Verão no aquário, ou Madeira feita cruz, Muro de pedras ou Um simples afeto recíproco, não são romances que outros romances possam ofuscar. Apenas, pretendo que a aparição de O braço direito veio restabelecer um equilíbrio que me parecia perturbado pelo excesso de fulgurações femininas. Julgando-o, de todos os romances do ano, o melhor – independentemente de qualquer cogitação do sexo de seu autor – destruiu um mal-estar que minha vaidade masculina já começava a sentir.

O braço direito, como romance, ainda pretendo voltar. Mas, em próximo “testemunho”, pois, aqui, já o espaço começa a faltar.

 

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