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O que se pode afirmar

08 de maio de 2020

A série Primeira Vista traz textos de ficção inéditos, elaborados a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Nesta edição, o escritor Daniel Galera se inspirou em uma imagem do fotógrafo argentino Horácio Coppola (1906-2012), na qual aparece o poeta Manuel Bandeira. Além de um conjunto clássico das fotografias de Buenos Aires feitas por Coppola na década de 1930, o IMS guarda também registros das esculturas de Aleijadinho e outras imagens do Brasil, produzidas sobretudo no Rio de Janeiro e em Salvador. 

Manuel Bandeira, década de 1930. Rio de Janeiro (Horácio Coppola/Acervo IMS)

Que anos atrás o filho mais velho dele tinha dirigido um automóvel popular a quase 160 km/h e capotado com quatro amigos distribuídos nos assentos, que somente esse filho e uma garota tinham sobrevivido, enquanto os pedaços dos corpos dos outros três foram encontrados em um raio de mais de cem metros, dentro de bueiros, nos ramos das floreiras, nos emaranhados de fios telefônicos e cabos ópticos. Que ele era um botânico que havia passado a maior parte da vida em campo, longe de casa, catalogando espécies, estudando a locomoção de raízes e sonhando com a descoberta de fitoterápicos milagrosos, e que o suposto respeito que tinha no meio não tinha evitado que sua vida desmoronasse. Que o homem vivia em isolamento social há tempos, muito antes disso tudo começar, não exatamente por escolha própria, mas é que anos depois daquele acidente de carro do filho, a esposa teve leucemia, e o filho tinha ido ser bem-sucedido e feliz em algum lugar bem longe daqui, deixando ao pai o legado de sua culpa. Que em certos anos ele recebia familiares no Natal, em outros não. Que uma sobrinha o visitava raramente, passava uns dias na sua casa, e nessas ocasiões se podia conhecer o seu sorriso e a sua disposição para brincadeiras: eles tocavam música alto e dançavam fantasiados por trás das janelas entreabertas.

Que ela tinha fugido de casa ainda menina, levando junto os três irmãos menores, por motivos que se pode imaginar. Que eles foram acolhidos por um casal idoso que administrava um pequeno sítio turístico na zona rural da cidade. Que ela trabalhava já havia algum tempo numa torrefação de cafés especiais, onde seu olfato e paladar extraordinários eram devidamente aproveitados. Que comprava seis garrafas grandes de cerveja toda segunda no mercadinho e saía de vez em quando na carona da moto de um rapaz nitidamente mais novo. Que não podia ter filhos.

Que ela veio lhe entregar um pacote de café moído, um catucaí amarelo, e quando ele abriu a persiana para receber a encomenda o aroma de nozes, pêssego e damasco do pacote ainda um pouco morno se misturou ao odor de pantufas de couro e desinfetante de pinho que imperavam no interior da casa. Que a pintura do parapeito era antiga, mas ainda aderia um pouco à pele, como se a tinta ainda precisasse secar um pouco mais. Que ele sentia um pouco de coceira por baixo da camisa de algodão, talvez porque o clima tivesse ficado repentinamente úmido, o que sempre lhe causava algum tipo de alergia leve e incômoda. Que ela sentia os dentes se empurrando no fundo da boca e as gengivas um pouco inchadas, e se perguntava, aflita, se era bruxismo, se tinha machucado a boca mastigando alguma coisa dura, se eram os sisos remanescentes resolvendo causar problema ou se, mais provável, não era nada.

Que os saltos dos sapatos de uma transeunte passaram batendo nas lajotas de concreto como cascos bovídeos, mas nenhum dos dois deu atenção à mulher cabisbaixa, pois um calafrio inesperado percorreu seus corpos, acompanhado de uma sensação que ele, recordando um dos romancistas russos que gostava de ler, chamaria de uma tristeza que parece uma esperança e, ao mesmo tempo, uma esperança que parece uma tristeza. Que ela deslizou o dorso da mão na parede crespa da casa, se arranhou de propósito e teve vontade de chorar.

O que mais? Que ela, pensando na morte, mas sabendo que esse assunto é um rochedo no qual não se atraca impunemente, perguntou a ele tão somente como andava a vida, se estava muito sozinho, se havia algo que ela podia fazer, e que em vez de responder ele lembrou de estar acordando com a luminosidade do dia numa cama ao lado da mulher ainda viva, do contato de seus corpos quentes enroscados entre si e com o edredom frio, grosso e macio, ao som dos piados compridos de algum pássaro que nunca se via e dos murmúrios da caixa d’água enchendo em cima do telhado, e que ela, ao ficar sem resposta, encolheu os dedos dos pés e teve a impressão de que as solas se retesariam em câimbras, o que não chegou a acontecer.

Que ele sentiu a pressão dos dedos dela na sua mão suja de ovo cozido e mel. Que ele sempre manuseava as coisas com displicência e agora as mãos já não eram muito firmes, se sujava e não tinha pressa de lavar. Que ela percebeu o toque pegajoso mas não se importou, porque estava mais interessada no calor e na moleza daquela mão enorme, tão maior que a sua, habituada a espinhos e seivas, e na sensação de que ao pegá-la estavam cometendo um crime ou profanidade. Que deixaram o tempo passar, um tempo regido — pois é preciso especificar sempre em relação ao quê elegemos mencionar o tempo — pelo ronco lacerante das motocicletas da avenida paralela, pela palpitação das têmporas, pelo hábito, executado inúmeras vezes ao longo da vida, de contar mentalmente os segundos.

Que, atrás de mim, meu bebê acordou e começou a chorar alto, como se acordasse de um pesadelo, ou melhor, como se acordasse da realidade para um pesadelo. Que o homem continuou com a cabeça baixa, que para ele no momento nada mais existia, exceto o que estava acontecendo com a sua mão, os dedos quentes dela repousados no dorso da sua mão. Que em sua mente galhos de árvores muito altas dançavam no vento como tentáculos de anêmonas, a terra sob os pés era mole como argila e imperava um cheiro de água salobra. E que ela, enquanto isso, ouviu o choro e se interessou. Que já estava pensando em soltar a mão do homem, aquilo não podia durar nem mais um segundo, havia um limite, um desconforto já nascia e as consequências do gesto já estavam em curso. Que antes de soltar a mão ela ergueu a cabeça na direção do choro e sorriu de leve, mas eu tinha me retirado da janela um instante antes, e ela não viu nada. Mais que isso, não sei.

Daniel Galera é escritor e tradutor literário, autor dos romances Barba ensopada de sangue (Companhia das Letras, 2012) e Meia-noite e vinte (Companhia das Letras, 2016), entre outros livros. (Foto: Arquivo pessoal)

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