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Para Cecília Meireles

09 de novembro de 2014

Como falar de uma grande paixão? De que palavras nasce um poema? Quantos miligramas de suor ele exige? Quanto tempo se leva para esboçar uma dedicatória?

Respostas a estas poucas e essenciais perguntas se encontram no manuscrito do poeta Mario Quintana, até agora inédito, que deu origem ao poema “Extraterrena”, dedicado a Cecília Meireles. O documento, descoberto no arquivo do escritor sob a guarda do Instituto Moreira Salles, atesta não só a dimensão do seu esforço ao escrever os versos, como guarda a admiração que ele nutria pela poetisa, cujos 50 anos de morte se completaram neste 9 de novembro.

Mario Quintana conheceu Cecília Meireles em 1935 e não fugiu à regra: encantou-se com sua beleza. Em entrevista para o programa “As músicas que fizeram a sua cabeça”, da rádio FM Cultura, de Porto Alegre, no dia 2 de janeiro de 1990, Quintana respondeu sem meias-palavras a pergunta sobre quem teria lhe inspirado os versos iniciais de “Solau à moda antiga” (“Senhora, eu vos amo tanto/ Que até por vosso marido/ Me dá um certo quebranto…”): “Foi a Cecília Meireles, ela era muito bonita, todo mundo era apaixonado por ela, todos nós. Ela era muito minha amiga, foi quem publicou meus sonetos e poemas lá no Rio”.

Referia-se ao início de sua carreira literária, quando Cecília publicou alguns de seus poemas no Diário de Notícias. Anos mais tarde, em 1946, por ocasião dos quarenta anos do poeta e do lançamento de seu segundo livro de poesia, Canções, viria dela uma das homenagens mais emocionantes: o poema “Quintanares”, neologismo criado para designar os versos tão singulares de Quintana.

 

Quintanares

O Natal foi diferente
porque o Menino Jesus
disse à Senhora de Sant’Ana:
“Vovozinha, eu já não gosto
das canções de antigamente:
cante as do Mario Quintana!”

Viram-se então os anjinhos
de livro aberto nas mãos
deslizar no ouro dos ares.
Estudaram nova solfa
pelos celestes caminhos
e ensaiaram quintanares.

Deixaram cair os versos
que já sabiam de cor
pelos telhados das casas.
E o milagre das cantigas
foi que até seres perversos
amanheceram com asas.

O termo, usado por Manuel Bandeira no poema “A Mario Quintana”, com o qual saudou o gaúcho em sessão da Academia Brasileira de Letras em 1966, aparece também em um poema do próprio Quintana, “Canção de barco e de olvido”, dedicado a Augusto Meyer: “Que eu vou passando e passando,/ Como em busca de outros ares…/ Sempre de barco passando,/ Cantando os meu quintanares…”. Tornou-se, por fim, título de uma antologia de sua poesia publicada em 1976.

Para o poeta gaúcho, Cecília Meireles era a representação da poesia pura. Foi o que ele disse à radialista Ivete Brandalise, na entrevista já referida, quando perguntado sobre qual poeta considerava o mais representativo da poesia brasileira: “Eu acho que a Cecília Meireles é a maior poeta brasileira da primeira metade do século, porque para nós outros, para disfarçar um pudor de sentimentalismo, a gente se refugia no humor, e ela nunca. Ela sempre foi poeta puro”.

Nas linhas tortas do manuscrito de “Para Cecília Meireles”, poema em gestação, o que se sobressai é a letra trêmula e oscilante de um Quintana que provavelmente teria cerca de 80 anos de idade quando do esboço do poema. Em alguns momentos, a escrita é quase indecifrável, hieroglífica, mas nela sempre presente a imagem dos belos olhos claros da poetisa. Afinal, como anuncia o poema “Guardar”, de Antonio Cícero, é para isso que se escreve um poema: “Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:/ Guarde o que quer que guarda um poema:/ Por isso o lance do poema:/ Por guardar-se o que se quer guardar”.

 

 

Diferente da homenagem que Cecília prestou ao amigo em “Quintanares”, esta talvez nunca tenha chegado às mãos da autora do Romanceiro da inconfidência, que morreu em 1964, muitos anos antes da publicação de Preparativos de viagem (1987), no qual foi incluída a versão final sob o título “Extraterrena”. A morte, palavra inexistente no manuscrito, aparece então nos versos definitivos do poema:

 

Extraterrena

Para Cecília Meireles

Nós colhíamos flores de hastes muito longas
E cujos nomes nem ao menos conhecíamos…
E nem sequer, também, sabíamos os nossos nomes…
E para quê, se um para o outro éramos Tu, apenas…
Ou quem sabe se a Morte nos houvera bordado
numa tapeçaria
A que o vento emprestasse a vida por um momento?
E por isso os nossos gestos eram ondulantes como as
plantas marinhas
E as nossas palavras como asas suspensas no vento…

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