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Poesia fora do papel

15 de maio de 2019

Há tempos eu queria comentar a crônica “Vida e poesia”, de Paulo Mendes Campos, publicada em 27 de novembro de 1954, na revista Manchete, mas não incluída em livro – foi o que consegui apurar.

Podia também ser intitulada “Portinari”, porque, nela, o cronista faz reflexões a respeito de poesia a partir de uma observação do pintor de Brodowski, na época em que desenvolvia os “seus grandiosos trabalhos da Pampulha” – escreve Paulo, referindo-se a 1944, ano em que, a convite de Oscar Niemeyer, Portinari contribuiu com sua arte para o projeto arquitetônico do bairro da Pampulha, em Belo Horizonte.

Conta ainda Paulo que, na opinião do artista, “a poesia não fica; a poesia passa. Mesmo nos poemas, a poesia apenas costuma passar de raspão. Ela é como um pássaro noturno que às vezes esvoaça diante de nossos olhos e desaparece”. Ele sentiu que, naquela noite em que ouvia Portinari, o “pássaro noturno esvoaçou” no saguão do Grande Hotel, na capital mineira, onde conversavam.

Recorde de jornal com a crônica "Vida e poesia", de Paulo Mendes Campos / Acervo IMS

Nascido em 1922, diz o mineiro que sua geração, que ficaria conhecida com a dos “vintanistas”, não dá importância aos poemas que acontecem fora do papel. É desses, especialmente, que ele trata na crônica: “E eu amo cada vez mais a poesia que acontece nas ruas, em nossa vida cotidiana” – segue, narrando o desencontro amoroso entre Mario Quintana e Manuel Bandeira. Afirma que o poeta gaúcho só veio ao Rio uma única vez e que, em certa ocasião, estando no Passeio Público, no centro da cidade, viu passar o poeta de Pasárgada, mas não teve coragem de lhe falar. Segue o cronista a contar que, quando Bandeira já ia longe, Quintana encheu o peito e gritou: – Manuel! –, e se escondeu atrás de uma árvore. Assim, quando o passante se virou para trás, não viu ninguém: e o cronista vê poesia no desencontro previsto.

Paulo Mendes Campos garante que os dois poetas nunca se falaram pessoalmente. O que causa espanto é que Mario Quintana morou no Rio entre 1935 e 1936, período em que trabalhou na Gazeta de Notícias. Teria sobrado tempo para um encontro. Não menos curioso é que, em seu arquivo, hoje sob a guarda do Instituto Moreira Salles, há um mapa do endereço de Bandeira na rua Morais e Vale, na Lapa. Mapa feito a mão em que, pela letra, conclui-se ser de autoria do próprio Bandeira – vê-se que ele quis explicar ao poeta gaúcho, solteiro de outra estirpe, o caminho para chegar à sua casa de morador sozinho, o que revela, pelo menos, o quanto a visita foi desejada. Mais poesia.

Mapa para o apartamento de Manuel Bandeira. Arquivo Mario Quintana / Acervo IMS

Talvez um dos melhores exemplos da emoção poética de que fala Portinari esteja em um fato relatado por Manuel Bandeira no ensaio “Poesia e verso”. Conta ele que sentia um “pequenino alvoroço” toda vez que passava em frente ao Hotel Península Fernandes, no Centro do Rio, e, certa vez, pediu a um primo que perguntasse ao proprietário o porquê do título, ao que o português respondeu, com a maior simplicidade: “F'rnandes porque é o meu nome, e P'nínsula porque é bonito”. O nome estava explicado, mas a emoção poética, não – conclui Bandeira, além de se referir ao episódio, também, nas crônicas “Fragmentos” e “Alguns versos”.

A leitura do texto de Paulo Mendes Campos não me faz duvidar da poesia que passou na casa de minha avó, Elvira, no dia em que ela, de pura raiva por ter sido contrariada em uma de suas vontades, jogou violentamente um vaso no chão. Sim, ela chegava a fazer isso; era muito geniosa. Na ocasião, meu primo, Júnior, tinha ido fazer-lhe companhia. Esse primo, hoje cinquentão, é meu afilhado, e tinha uma lógica muito pessoal para fazer o feminino dos substantivos, por isso, desde muito pequeno, me chamava de “padinha”, no que eu achava uma graça enorme. Até hoje me chama assim. Ele tem olhos pretos, grandes e tristes, cílios extraordinários que se destacavam na criança magra que foi. Estava por volta dos cinco ou seis anos de idade quando presenciou a explosão de nossa avó. Assistiu, atônito, ao ataque de fúria, e quando a vovó serenou, ele abaixou-se, juntou os cacos de vidro no chão, um a um. Recolheu-os cuidadosamente. Arrumou-os todos nas mãozinhas e, em respeitoso silêncio, sem ousar levantar o olhar, os devolveu à vó Elvira, como em oferenda.

Nos últimos dias tenho recebido visitas diárias de um passarinho que bica vorazmente o vidro da minha janela. Pus água no parapeito, ele bebeu. Desdenhou da laranja, mas comeu a pera. Se a minha funcionária doméstica se aproxima, ele não se espanta. Bem ao contrário, trocam olhares. No entanto, se eu apareço, ele foge instantaneamente para longe, em revoada sonora, ladeado por seus pares, que a ele se juntam como em um passe de mágica. O que pensa ele de mim para reagir desse modo? Não sei se combinaram previamente; desconfio que se divertem à minha custa.

Imaginei que meu visitante pudesse não estar com fome; não busca comida, quer apenas entrar no apartamento. Mas, desejaria ele voluntariamente se aprisionar? Nunca se sabe. Deixei a janela aberta; ele ignorou a larga abertura. Não entrou. Tem o peito amarelo e uma mancha branca na cabeça: é um bem-te-vi. Bica o vidro com tanta força que, se estou em casa, não posso deixar de vir à janela. Ele me chama, assim eu entendo. Mas por que sai quando chego? Ainda não sei o que ele quer. Ele, que agora já tem até nome, continua bicando o vidro, e eu, que mal o vejo, não posso deixar de sentir que a poesia passa de raspão toda vez que ouço suas bicadas.

Elvia Bezerra

 

Elvia Bezerra é coordenadora de Literatura do Instituto Moreira Salles

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