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Quarenta anos depois

31 de outubro de 2017

Em 31 de outubro de 1977, o poeta Armando Freitas Filho decidiu que seu presente de aniversário para Carlos Drummond de Andrade iria além da tradicional carta que enviava ao querido amigo todos os anos, sem falta. Além dela, já despachada pelo correio dias antes, Armando também escreveu, no dia do aniversário do poeta mineiro, um breve poema. Este, entretanto, jamais foi enviado, permanecendo inédito por exatos quarenta anos, até ser redescoberto pelo poeta carioca há poucos dias, durante o minucioso processo de organização de seus arquivos, que serão doados ao Instituto Moreira Salles.

Ao se deparar, no meio de jornais antigos, com os versos datilografados numa folha de papel já desgastada pelo tempo, o poeta carioca tentou pescar na memória os motivos pelos quais não enviou o presente. E só conseguiu pensar que, naquele momento, talvez tivesse achado excessivo ir além da carta. “Acho que o que se deu foi isso, só pode ser. Eu já havia mandado uma carta, aí no dia exato do aniversário dele eu estava em Itaipava e me veio o poema”, conta Armando, que conheceu pessoalmente Drummond em 1963, quando tinha 22 anos, e foi apresentar a ele seu primeiro livro, Palavra. “Sempre procuro não ser excessivo, e aí pensei ‘já mandei a carta, vou mandar também o poema?’ E ele ficou perdido no meio dos jornais! Incrível achá-lo agora, foi escrito há 40 anos exatamente.”

Poema que Armando Freitas Filho escreveu, e nunca enviou, para o amigo Drummond

O poema, um dos muitos que dedicou ao amigo mineiro – e que compara a obra drummondiana a “uma mão de amor aberta/ como uma árvore” –, faz parte do acervo que será doado ao IMS. A organização e a catalogação já estão em andamento, e Armando já tem prontas, por exemplo, três pastas com toda sua fortuna crítica, publicada em jornais e revistas. Há também cartas, fotografias, entrevistas, dissertações e teses feitas sobre a obra do poeta (“selecionei umas seis ou sete que valiam a pena”, diz ele), além dos cadernos nos quais ainda registra seus poemas à mão. “Sempre escrevo à mão, depois bato à máquina, e aí fica um pouco sobre a mesa, descansando, feito um bicho. Sinto como se tivesse que amansar esse bicho primeiro, porque se eu publicar do jeito que está ele morde, a mim e aos outros. Só depois é que vai para o computador, que para mim é uma máquina de escrever, não sei fazer quase nada nele além disso”, confessa Armando, que tem 17 livros publicados e diversos prêmios como Jabuti, Portugal Telecom, APCA e Rio Literatura.

São mais de “50 anos de papel”, lembra o poeta, que para botar a casa em ordem está contando com a experiência de uma especialista em arquivos. “Sem a Guida não conseguiria ir adiante, sou muito desorganizado, e a Cristina, minha mulher, é alérgica a poeira. Não daria certo”, brinca ele.

Além do arquivo com sua própria obra, Armando também doará itens deixados sob sua guarda pela poeta e amiga Ana Cristina Cesar, cujo acervo já está no IMS. “São coisas que ficaram aqui em casa depois da morte dela, porque ela quis assim. Só consegui mexer dois anos mais tarde e fiz cinco livros póstumos a partir do material”, conta o poeta. “Algumas coisas não posso doar ainda, porque são muito íntimas, tivemos uma relação longa, então vou esperar mais um tempo. De resto, tudo o que é da Ana estou mandando para o acervo dela no IMS.”

O poema inédito dedicado a Drummond, autor pelo qual Armando se encantou aos 15 anos, quando ganhou do pai um disco que trazia dois poetas lendo suas obras (de um lado estava o mineiro, e do outro o pernambucano Manuel Bandeira, outra “paixão da vida inteira”, como lembra ele), fará parte de um futuro livro, que está pronto e já tem até título: Arquivo.  Antes desse, porém, Armando planeja publicar outro, em 2020, quando ele fará 80 anos. Está sendo escrito desde 2013, e tem aproximadamente 200 poemas. “Esse livro não tem título ainda, mas terá um peso grande, não só de papel como também para mim. É como começar a fechar uma porta. E Arquivo será o livro do recolhimento”, acredita Armando que, pelo entusiasmo e pela intensa produção, ainda parece bem distante de aposentar as rimas.

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