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Tempo e placar do Maracanaço

13 de julho de 2020

Maracanã, 16 de julho de 1950. Há setenta anos. Setenta anos estiveram estes três instantâneos metidos numa das dezenas de pastas do assunto 'futebol' no arquivo fotográfico dos Diários Associados no Rio, atualmente incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles. E aqui se publicam pela primeira vez.

Toda foto publicada em O Jornal, no Jornal do Commercio ou no Diário da Noite, os três periódicos que se serviam do arquivo, estampa no verso da ampliação em papel o carimbo da publicação e sua data. Às vezes em mais de um jornal. O mesmo para cada republicação e, frequentemente, com a(s) legenda(s) com que saiu, recortada(s) de cada jornal e colada(s) ao lado do(s) carimbo(s). Pois bem, estas três fotos foram arquivadas com uma simples linha datilografada numa fita de papel-jornal colada no verso: COPA DO MUNDO DE 1950. Só e pronto. Arquivadas e esquecidas. Soterradas, afastadas, como se sua mera visão pudesse comunicar febre alta imediata, ou tifo.

Na verdade, pode-se ter pensado em publicá-las, ou os negativos não teriam sido mandados para o laboratório fazer as ampliações. Mas alguma instância superior na redação, o editor de esportes, o secretário, o chefe de reportagem, o diretor, talvez a unanimidade, terá decidido não botar outro dedo na imensa ferida aberta.

Alguém poderia ter se lembrado delas oito anos depois, no 30 de junho de 1958, dia seguinte à redenção que foi a vitória na Suécia. Ou vinte anos depois, no 18 de junho de 1970, dia seguinte à semi-final da copa do México, 3 a 1 contra o mesmo Uruguai. Ou em setembro de 1993, quando Romário com dois gols classificou o Brasil para a copa dos Estados Unidos contra o próprio Uruguai e no mesmo cenário do Maracanaço. Mas não. O registro silencioso daquela genuína tragédia, nosso mais dramático desastre esportivo, dormiu setenta anos no fundo de um gavetão, nos arquivadores de aço da rua do Livramento, na Gamboa, no Rio, detrás do morro da Favela, no edifício sede dos Diários  Associados.

As três fotos estão em foco. A mão não treme. A câmara devia estar instalada sobre um tripé. Todos os fotógrafos da empresa, ou quase – quantos seriam? – estavam seguramente no estádio e seu entorno. A maioria, é lógico, atrás do gol de Máspoli, goleiro do Uruguai. Um de cada jornal ou agência do mundo por via das dúvidas cuidando do gol de Barbosa. No segundo tempo, vira tudo, todo mundo se cruzando no centro do gramado. Para o autor anônimo destas três fotos, o pauteiro ou o chefe de fotografia, ou quem sabe se por iniciativa própria, teve a ideia de deixar a máquina de costas para o jogo. Com certeza na expectativa de fazer, virado para o placar, o registro de um massacre.

De sete dias a esse domingo, o responsável pelo placar manual do Maracanã tinha se levantado 15 (quinze) vezes para fazer-lhe as alterações. No domingo anterior, 9 de julho, oito vezes, Brasil 7, Suécia 1. E na quinta-feira, 13, outras sete vezes, Brasil 6, Espanha 1. Enquanto o outro participante do quadrangular final do torneio, o Uruguai, empatava com a Espanha, no Pacaembu, em São Paulo, e ganhava e ganhava da Suécia com as calças na mão, de virada, depois de estar perdendo de 2 a 0. Quer dizer, ninguém queria conceber a não ser novo atropelamento, embora só precisássemos de um mísero empate para levantar a taça. Ninguém quis se lembrar de que ainda dois meses antes o Uruguai tinha derrotado o Brasil aqui dentro, em São Paulo, por 4 a 3, na primeira partida da copa Rio Branco daquele ano.

E aí está. Às 4:15 está Brasil 1 a 0, Friaça marcara a 1 minuto e meio do segundo tempo. Aos 20, Schiaffino empatou, placar às 4:29. E três minutos depois Ghiggia tinha posto o 2 lá em cima. Fazendo o que se orgulhava de só ele, Frank Sinatra e João Paulo II terem conseguido: calar o estádio que vaiava até minuto de silêncio.

A história da Final da Copa de 1950 contada pelo placar do Maracanã. Fotos: arquivo Diários Associados-RJ/Acervo IMS)

 

A fila intermediária de gente de pé desmoronou, está toda sentada na terceira foto. A da frente criou mola, quase todo mundo de pé. A geral não se altera muito, parece meio mesmerizada com o cenário e a solenidade que testemunha, não ter ainda realizado completamente o que se passa; os dois de camisa xadrez, o soldadinho todo abotoado, de quépi; aquele ali levantou o braço, está ajeitando o chapéu; a única mulher que se vê com clareza, no canto inferior direito, ficou de perfil, estaria dizendo alguma coisa a alguém. No relógio Eterna faltam 12 minutos infindáveis para o inglês George Reader apitar o final.

O que aconteceu depois, já na boca da noite, a gente vê em Fotografia falada [2].

E nos dias e décadas que viriam esteve todo mundo o tempo todo empenhado em achar um "culpado" pelo desastre. De cara, os dois negros, Barbosa e Bigode. Depois, Flávio Costa, o técnico. E o oportunismo dos políticos, e o oba-oba da imprensa, e o já-ganhou do país inteiro. Ivan Soter, autor da Enciclopédia da Seleção, sabe que algum dia se chegará ao óbvio: que o responsável pela derrota foi o Uruguai.

Cássio Loredano é caricaturista e consultor do IMS.

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