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Um olhar muito sofisticado

24 de abril de 2017

Conhecido como um dos pioneiros da fotografia de publicidade no Brasil, Chico Albuquerque deixou sua marca em várias áreas, dos excepcionais retratos feitos em estúdio aos registros urbanos de prédios, ruas, instalações industriais. Sem esquecer os belos ensaios de paisagens de sua terra, o Ceará, que nesta terça-feira, data em que se comemora o centenário de nascimento do fotógrafo, inaugura a maior retrospectiva de sua obra. A exposição O fotógrafo Chico Albuquerque, cem anos ocupará o Museu de Arte Contemporânea do Ceará (MAC) do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, cidade onde ele nasceu em 25 de abril de 1917, e morreu em 26 de dezembro de 2000. São aproximadamente 400 fotografias, além de objetos, livros, filmes e documentários que darão ao público uma visão integral da trajetória do artista.

 

Edifício Louveira, 1951, São Paulo / Acervo IMS

 

Para conseguir dar conta das muitas décadas de atividade de Francisco Afonso de Albuquerque, a retrospectiva, que segue até dia 2 de julho, reúne acervos distintos. Um deles está representado na mostra O estúdio fotográfico Chico Albuquerque, realizada em 2013 pelo Instituto Moreira Salles, que desde 2006 detém a guarda de parte da produção do fotógrafo (aproximadamente 75 mil imagens), num convênio firmado com o Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Esta exposição ocupará um andar inteiro do MAC e traz fotografias que estão sendo vistas pela primeira vez em Fortaleza. Foram feitas entre 1947 e 1975, durante o período em que Chico morou em São Paulo, onde montou um bem equipado estúdio e laboratório na Avenida Rebouças, consagrando-se como um exímio retratista e trabalhando para as principais agências de publicidade do país. O segundo acervo, que permanece no Ceará, é formado pela produção feita a partir de seu retorno a Fortaleza, em 1975, como a série de naturezas-mortas “Frutas”, ou os ensaios “Jericoacoara” (de 1985) e “Mucuripe”, este duplamente representado: o fotógrafo registrou os tradicionais jangadeiros na praia de Fortaleza em 1952 (exibindo na época a série no MASP, com grande sucesso) e em 1988.

 

Praia do Mucuripe, 1952, Ceará / Convênio Instituto Cultural Chico Albuquerque e Imagem Brasil

 

Mucuripe, aliás, faz parte da vida profissional de Albuquerque de uma maneira bem especial. Em 1942, ele participou das filmagens, como fotógrafo de cena, do famoso documentário inacabado It’s All True, do diretor Orson Welles, que rodou parte do filme naquela praia. “A exposição traz um áudio do Chico falando sobre o que Welles representou para ele. Conta basicamente que até trabalhar com o diretor sua fotografia consistia em simplesmente botar a câmera em cima do tripé e disparar. A partir do contato e do convívio com Welles é que Chico diz ter entendido como se estrutura uma imagem, a questão dos pesos relativos, das diagonais, tudo”, lembra Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS, que divide a curadoria da retrospectiva com Patrícia Albuquerque, da editora cearense Terra da Luz, responsável pela publicação de algumas obras de Chico Albuquerque. “São detalhes de linguagem que, para ele, um cara absolutamente autodidata, foram muito importantes”.

 

Luiz Gonzaga, 1955, São Paulo / Acervo IMS

 

A ligação de Chico Albuquerque com a imagem começou de fato pelo cinema. Ainda muito jovem, sem qualquer formação profissional, o rapaz recebeu do pai, bancário e também fotógrafo e cinegrafista amador, que fazia pequenos documentários desde o final da década de 20, a tarefa de dirigir um curta-metragem, encomendado pelo governo, sobre obras realizadas para mitigar a seca na região. Com o dinheiro recebido pelo primeiro e bom trabalho de Chico, Adhemar Bezerra de Albuquerque montou então, para o mais velho de seus nove filhos, o estúdio ABA Films, em 1934. Ali, o rapaz de apenas 17 anos começou de vez sua carreira, aprendendo a arte da fotografia e particularmente a do portrait.

 

Campanha para o sabão em pó Rinso, 1960 / Acervo IMS

 

Na retrospectiva, o início da carreira do fotógrafo em Fortaleza está lembrado também por outro importante marco profissional: entre 1936 e 1937, Adhemar cedeu o equipamento de seu estúdio e o treinamento necessário para que Benjamin Abrahão pudesse documentar Lampião e seu bando, numa série de imagens que imortalizaram o cangaceiro. Abrahão, que fora secretário de Padre Cícero e nessa função havia conhecido Lampião, conseguiu sua permissão para acompanhá-lo nas andanças pela caatinga, mas não tinha qualquer experiência como fotógrafo e documentarista. Adhemar vislumbrou ali uma chance de ouro e, em troca da ajuda, incorporou todo o material à ABA Films. Pouca coisa sobrou do filme Lampião, o rei do sertão, montado por Adhemar – o governo de Getúlio Vargas censurou a produção, que ficou desaparecida durante anos, restando dela apenas 11 minutos. Já as fotos de Abrahão foram publicadas nas primeiras páginas dos mais importantes jornais da época e correram o mundo, irritando Vargas ainda mais, e incentivando-o a fechar o cerco ao bando, que foi exterminado pouco tempo depois.

 

Da série “Frutas”, 1978 / Acervo Família Albuquerque

 

“A série do cangaço é fundamental para a vida de Chico”, conta Burgi. “É um material excepcional. Antes do trabalho do Abrahão a iconografia do cangaço era escassa, mais restrita ao universo do cordel, do texto. Naquele momento o cangaço circulou nas páginas impressas dos grandes jornais. É um momento em que a imagem está em processo de amadurecimento, vai ganhando força, e Chico acompanha todo esse período de crescimento”.

 

Hilda Hilst, 1952, São Paulo / Acervo IMS

 

Com duas experiências tão marcantes na bagagem, que poderiam tê-lo levado a outros caminhos, Chico Albuquerque chegou ao Rio em 1945 para estagiar com dois fotógrafos alemães, Stephan Rosenbauer e Erwin von Dessauer, e especializar-se ainda mais na arte do portrait. Seguiu em 1947 para São Paulo, cidade que ofereceu a ele a possibilidade de amadurecer profissionalmente, e inscrever seu nome na história da fotografia brasileira. A exposição em Fortaleza abre com uma foto dele próprio feita na famosa casa da Avenida Rebouças, montada inicialmente como um estúdio de portrait, trabalho meticuloso e sofisticado pelo qual Chico conquistou imediato reconhecimento. Políticos como Jânio Quadros e Ulysses Guimarães; atrizes como Cacilda Becker e Odete Lara; escritoras como Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst; e artistas como Burle Marx e Victor Brecheret, entre tantos outros, ganharam do fotógrafo belíssimos retratos que também fazem parte da mostra.

 

Campanha para a máquina de costura Singer, 1959 / Acervo IMS

 

A fotografia de publicidade, área que teve em Chico um dos precursores no Brasil, chegou logo depois, alimentada pelo rápido crescimento da metrópole em sintonia com o projeto de modernidade que alavancava o país. Ao mesmo tempo em que trabalhava em projetos comissionados, o cearense também conseguia exercitar seu olhar mais autoral e experimental como integrante do Foto Cine Clube Bandeirante, instituição que, à época, reunia a nata da fotografia moderna, representada por nomes como Thomaz Farkas e Geraldo de Barros. “Quando ele chegou a São Paulo foi a uma reunião do Foto Cine Clube e se apresentou à diretoria para avaliarem o portfólio dele, mas não quiseram e ele ficou insistindo, insistindo”, lembra Burgi. “Finalmente, quando viram o que ele trazia da experiência dele de Fortaleza, e também do Rio, ficaram impressionados. Em seis meses ele virou diretor do Clube”.

 

Letreiro no edifício e galeria Califórnia, c. 1955, São Paulo / Acervo IMS

 

A exposição mostra ao público uma São Paulo moderna, urbana, registrada em composições gráficas requintadas. Avenidas, fachadas, interiores, prédios em construção e instalações industriais são enquadrados pelo olhar fascinado de alguém que ajudava a renovar a linguagem da fotografia no país, levando-a também para o circuito das artes. “A exposição mostra a trajetória curiosa de Chico Albuquerque, que ao mesmo tempo que se mantém muito próximo das questões de sua terra, como o cangaço ou a pesca de subsistência, também investe num outro caminho, já foi ao Rio muito jovem, monta um grande estúdio em São Paulo”, observa Burgi. “Ele era muito sofisticado do ponto de vista técnico, essa foi uma das marcas dele o tempo todo”.

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