Sessão Mutual Films
As transformações de Utako Koguchi
A Sessão Mutual Films de agosto de 2026 traz como destaque a obra da cineasta experimental japonesa Utako Koguchi (nascida em Tóquio em 1961) com dois programas que celebram os primeiros anos de sua produção artística. A passagem da puberdade para a vida adulta – uma metamorfose que flui em um universo paralelo, secreto e onírico – foi o tema de A chuva (1981), primeiro filme da artista, realizado em 8 mm quando estudava cinema na Universidade de Waseda. A exploração de imagens oníricas acompanhadas de uma narração poética deu forma a outra obra em 8 mm, o curta O lar do Dr. Axolote (1987), inspirado na particularidade do anfíbio axolote de manter sua forma larval, mesmo depois de desenvolver o sexo, uma condição que a cineasta interpretou como infantil, amável e livre. A mesma sensação de liberdade embasa seu primeiro média-metragem Diário de O-DE-KA-KE 1 (1989), uma construção coletiva que Koguchi realizou com a ajuda de colegas incumbidos de filmá-la perambulando descalça e desapegada de si pela cidade de Tóquio. A animação Um dente-de-leão, Rosaceae (1990), filmada em stop-motion com uma câmera 16 mm, trata de duas irmãs que desenvolvem uma relação incestuosa após sofrerem uma mutação e despertarem com um pênis no lugar da vagina, o que as levam a travar uma batalha de dominação uma pela outra. Da comédia erótica, a artista segue para A flor adormecida (1991), obra mais singela e pessoal na qual propõe à sua avó a encenação de seu velório, tratando a morte como evento natural e sem sentimentalismo e trazendo para frente da câmera diferentes gerações de mulheres que se relacionam entre si de uma forma delicada e amorosa. A programação encerra com Diário de O-DE-KA-KE 2 (1993), no qual a artista retorna à sua personagem andarilha, desta vez, com um ponto de vista mais subjetivo. Koguchi utiliza a mesma metodologia de realização coletiva, porém manipulando ela mesma a câmera com mais frequência. A sessão conta ainda com um curta do também cineasta experimental japonês Shirouyasu Suzuki (1935-2022), Mãos metafóricas (1990), que Koguchi ajudou a filmar. Nele, Suzuki traça uma breve e poética investigação sobre as mãos, partindo do próprio uso que ele faz delas ao filmar, escrever e fumar um cachimbo. Todos os filmes vão passar em suas estreias brasileiras e em cópias digitais de alta-resolução.
Sessões especiais
IMS PAULISTA
Programa 1: Utako Koguchi em 8 mm
11/8/2026, terça, 18h
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard
Programa 2: Utako Koguchi em 16 mm
11/8/2026, terça, 20h
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard

Filmes
Classificação indicativa da sessão: 14 anos
A chuva
Ame
Utako Koguchi | Japão | 1981, 23’, DCP (Acervo da cineasta) | Classificação indicativa da sessão: 14 anos
O lar do Dr. Axolote
Ahorōtoru Ūpārūpā no sumika
Utako Koguchi | Japão | 1987, 10’, DCP (Acervo da cineasta) | Classificação indicativa da sessão: 14 anos
Diário de O-DE-KA-KE 1
Koguchi Utako no ODEKAKE nikki
Utako Koguchi | Japão | 1989, 47’, DCP (Acervo da cineasta) | Classificação indicativa da sessão: 14 anos
O programa apresenta três filmes que foram realizados por Utako Koguchi em 8 mm ao longo dos anos 1980. Eles têm como temas a linha tênue entre realidade e fantasia e a comunhão entre o ser humano e a Natureza. Os filmes, traduzidos do japonês pela primeira vez, passarão em novas cópias digitais em alta-resolução que foram confeccionadas pela cineasta neste ano.
O filme de estreia de Koguchi, A chuva, foi feito quando ela era uma aluna na Universidade de Waseda, em Tóquio, e segue uma adolescente que pratica rituais mágicos dentro de casa durante uma tempestade, ao som da “Dança da Fada Açucarada”, de Tchaikovski. Ele passou no Festival Pia de Cinema, um evento importante para o cinema independente e experimental no Japão, e assim colocou sua diretora entre as artistas cinematográficas japonesas mais interessantes da sua geração. Koguchi relembra: “Durante meus anos de universidade, impulsionada por um forte desejo de me expressar, explorei diversos meios artísticos: poesia, romances, música, composição, performance corporal, mangá e cinema. Foi nessa época que fiquei fascinada pelo Surrealismo. Eu queria criar uma obra na qual imagens exageradas, fragmentárias e oníricas costurassem uma noção de tempo, mantendo, ao mesmo tempo, uma sensação subjacente de inquietude. Embora a protagonista do filme não se baseie em nenhuma pessoa específica, ela reflete meus próprios sentimentos daquela época, inclusive, um desconforto com a personalidade feminina estereotipada e banal que eu me sentia compelida a representar no dia a dia”.
O virtuoso curta-metragem O lar do Dr. Axolote, feito seis anos depois, toma como fio condutor uma jornada pelas águas de Tóquio, com a câmera na mão adotando a perspectiva de uma protagonista misteriosa. Aos poucos, ouvimos o texto de uma carta amorosa, sensual e escatológica escrita pela mulher Tsuruya Kame para o estranho doutor do título, que busca uma mariposa em terras estrangeiras enquanto sua amada o persegue. Koguchi comenta: “O nome do axolote deriva de Xolotl, uma criatura da mitologia. Trata-se de um ser capaz de se regenerar enquanto permanece em sua forma juvenil. É um anfíbio, mas vive quase inteiramente na água e, aparentemente, existem casos raros de indivíduos que sofrem metamorfose para a fase adulta e saem para a terra firme. Sempre me interessei muito por criaturas que, embora possuam sexos masculino e feminino, mantêm sua forma larval mesmo após atingirem a maturidade sexual. Em comparação com os humanos — que crescem e vivem limitados e à mercê do sexo designado —, a existência de criaturas que permanecem eternamente infantis, adoráveis e livres parece algo corajoso e inspirador”.
Algumas cenas de O lar do Dr. Axolote reaparecem no média-metragem Diário de O-DE-KA-KE 1, que Koguchi filmou ao longo de um ano em 8 mm e depois ampliou para 16 mm. O híbrido de documentário e ficção ganhou o prêmio principal no Festival Image Forum (outro showcase importante para o cinema independente japonês) e teve várias exibições no exterior ao longo dos anos seguintes. A trama episódica de Diário de O-DE-KA-KE 1 (cujo título contém uma palavra japonesa para o ato de explorar ou viajar) acompanha uma jovem mulher desabrigada enquanto ela explora as ruas de Tóquio no verão e eventualmente se desloca até as montanhas. Quando ela morre, sua alma volta para a cidade e tenta levar o corpo consigo para a casa da família num gesto de ressurreição. A própria Koguchi filmou algumas cenas, mas principalmente se deixou ser filmada por diversos colaboradores. Ela comenta: “A mulher que atua no filme sou eu. Eu fiz o filme para me alegrar, e para dar a mim mesma uma prova de que eu estou viva”.
PROGRAMAÇÃO
IMS Paulista
11/8/2026, terça, 18h
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard
23/8/2026, domingo, 16h
Classificação indicativa da sessão: 18 anos
Mãos metafóricas
Anyu no Te
Shirouyasu Suzuki | Japão | 1990, 14’, DCP (Nonoho Suzuki) | Classificação indicativa da sessão: 18 anos
Um dente-de-leão, Rosaceae
Baraka Tanpopo
Utako Koguchi | Japão | 1990, 9’, DCP (Acervo da cineasta) | Classificação indicativa da sessão: 18 anos
A flor adormecida
Nemuru Hana
Utako Koguchi | Japão | 1991, 7’, DCP (Acervo da cineasta) | Classificação indicativa da sessão: 18 anos
Diário de O-DE-KA-KE 2
Zoku ODEKAKE nikki~dai 2 shou~ Kusa no Ie
Utako Koguchi | Japão | 1993, 52’, DCP (Acervo da cineasta) | Classificação indicativa da sessão: 18 anos
O programa apresenta três filmes experimentais que foram realizados por Utako Koguchi em 16 mm durante os anos 1990, período durante o qual a artista japonesa também trabalhou muito com o vídeo analógico. O curta-metragem caricato Um dente-de-leão, Rosaceae, filmado em stop-motion, tem como protagonistas as irmãs gêmeas Lulu e Lala, que são interpretadas por bonecas até eventualmente se transformarem na figura da própria cineasta. Ao assistir na madrugada a um filme sobre homens bonitos, Lala, por acidente, vê seu pai aparecer nele. O choque da cena a leva a repentinamente se transformar em um menino. Ela vai ao encontro da irmã para exibir seu pênis e se dá conta de que Lulu também passou pela mesma transformação. As duas então entram em um combate feroz por dominação. Koguchi comenta: “a produção de Um dente-de-leão, Rosaceae foi um processo contínuo de tentativa e erro, razão pela qual a espontaneidade era fundamental. Enquanto a animação convencional exige um trabalho minucioso e detalhista, priorizamos a velocidade e o realismo para expressar o improviso e sensações intuitivas em tempo real. Essa aspereza que desafia a lógica eventualmente gera um efeito cômico”.
O curta-metragem documental A flor adormecida também se concentra na relação bem-humorada entre duas parentes femininas, desta vez, a diretora e sua avó, Ume Koguchi, cujas preparações para a morte são desenvolvidas ao longo de uma série de cenas teatralizadas. A montagem impressionista das imagens é conectada pelo som de uma conversa entre as duas mulheres sobre a própria existência. Segundo a diretora, “realiza-se o funeral fictício da avó, que um dia morrerá. Ela é sepultada em meio a flores de papel branco, de olhos fechados, embora ainda esteja viva. No entanto, o semblante adormecido que ela exibe no cotidiano é a própria imagem da morte. Uma conversa entre três mulheres de gerações diferentes — neta, avó e mãe — evolui de um teor trivial para o tema sério da morte, tratado em sussurros”.
O média-metragem Diário de O-DE-KA-KE 2 continua a narrativa do primeiro filme da sequência O-DE-KA-KE ao focar em uma jovem mulher em Tóquio (novamente interpretada pela diretora) cuja alma sai de seu corpo e vai em busca de um ex-amante, antes de voltar para a casa da mãe. Enquanto Diário de O-DE-KA-KE 1 se passa principalmente durante dias de verão, o segundo filme se passa na maior parte à noite durante o fim do ano. A cineasta comenta: “acredito que o motivo pelo qual decidi fazer um segundo filme foi simplesmente o fato de que a alma daquela mulher queria deixar o corpo e sair para mais um ‘passeio’. Na época, eu trabalhava na Universidade de Arte de Tama, em Tóquio. O professor Shigeo Hiyama — que havia adquirido uma câmera portátil AATON 16 mm para suas pesquisas — gentilmente me emprestou, e eu estava cercada por alunos e professores que ajudaram nas filmagens e na pós-produção. Assim como em Diário de O-DE-KA-KE 1, tudo o que eu precisava era me colocar como protagonista para realizar o ‘passeio’, as pessoas queridas que participariam comigo, um pouco de equipamento e uma quantia modesta de dinheiro”.
O programa também inclui um filme dirigido pelo poeta, cineasta e professor na mesma Universidade, Shirouyasu Suzuki, que operou a câmera em Um dente-de-leão, Rosaceae e ensinou Koguchi como usar a câmera Bolex 16 mm. O filme Mãos metafóricas (filmado parcialmente por Koguchi no mesmo ano de Um dente-de-leão, Rosaceae) segue o estilo pessoal de boa parte da obra do diretor ao focar na potência das mãos durante uma noite silenciosa em casa, através de uma série de imagens que mostram seus diversos usos. Suzuki (falecido em 2022) escreveu sobre seu filme: “embora cada pessoa leve uma vida diferente, senti que as mãos eram uma metáfora para a vida em geral. Em outras palavras: pensei que a vida de uma pessoa é determinada pelo que ela segura nas mãos. Eu seguro uma caneta-tinteiro e carrego película na câmera com as mãos, e isso reflete a minha vida. Criei o filme com base nessa ideia – embora, hoje em dia, tudo seja feito com teclado e mouse, e as ‘mãos’ tenham sido substituídas por um cursor na tela”.
PROGRAMAÇÃO
IMS Paulista
11/8/2026, terça, 20h
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard
23/8/2026, domingo, 18h
IMS PAULISTA
11/8/2026, terça
18h - Programa 1: Utako Koguchi em 8 mm
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard
20h - Programa 2: Utako Koguchi em 16 mm
Sessão apresentada por Aaron Cutler e Mariana Shellard
23/8/2026, domingo
16h - Programa 1: Utako Koguchi em 8 mm
18h - Programa 2: Utako Koguchi em 16 mm
IMS Paulista
Entrada gratuita. Sujeita à lotação da sala.
Distribuição de senhas 60 minutos antes de cada sessão. Limite de uma senha por pessoa.
Não é permitido o consumo de bebidas e alimentos na sala de cinema.
Sessão Mutual Films é um evento bimestral com o propósito de criar diálogos entre as várias faces do meio cinematográfico, trazendo para o público, sempre que possível, filmes, restaurações e eventos inéditos em sessões duplas.
