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Contraste
um retângulo na mão

Apresentação de Agnès Sire

Curadora da exposição

“Uma boa imagem nasce de um estado de graça”

Fotógrafo pelo gosto da vadiagem, pelo desejo profundo de estar no mundo e na pureza do gesto, o chileno Sergio Larrain apesar de tudo passou a maior parte de sua existência em retiro, praticando meditação, ioga, escrita e desenho. Deixou uma obra brilhante, uma espécie de meteorito cujo trajeto ele teve a sabedoria de interromper no momento em que concluiu que já não lhe proporcionava a liberdade esperada. Depois de muito tempo em busca de si próprio, foi num despojamento voluntário que o homem que também aspirou a ser escritor finalmente se encontrou.

Pertencente a uma família da alta burguesia chilena, desde cedo Sergio Larrain (1931-2012) se esquivou à vida mundana praticada na casa do pai, um arquiteto e colecionador renomado. Apesar das relações difíceis entre os dois, o filho reconheceria mais tarde que, graças à riqueza da biblioteca familiar, pôde educar o olho e ter acesso à fotografia.

As crianças abandonadas de Santiago seriam objeto do primeiro trabalho consequente do aprendiz de fotógrafo, rebelde a todo tipo de integração social. Essas crianças são ao mesmo tempo o espelho de sua personalidade e a expressão de seu desejo de viver em uma sociedade diferente. Decidido a escapar de seu meio social, em 1958 Larrain conseguiu uma bolsa do British Council para trabalhar em Londres, seguindo os passos de Bill Brandt, que o chileno admirava. O inverno frio e enevoado da antiga capital de um império extinto representava, para o fotógrafo chileno, uma espécie de desolação dominada pelo poder do dinheiro.

Foi durante essa viagem pela Europa que suas aspirações se concretizaram: Cartier-Bresson, ao ver seu trabalho, convidou-o a tornar-se membro da cooperativa Magnum. Em pouco tempo, porém, Larrain passou a desconfiar dos malabarismos necessários para encontrar temas que as revistas quisessem publicar. Viajou com frequência, a partir de Paris, fazendo reportagens para a agência; depois tomou rapidamente a decisão de voltar para o Chile e lá permanecer, afastando-se, com isso, do comércio das imagens.

Valparaíso, cidade que já havia fotografado muito, ganharia toda a sua atenção. Ao longo dos anos, Larrain produziria na cidade um ensaio fotográfico fundamental, que marcaria seus pares de diversas gerações.

Esta exposição refaz seu percurso de forma bastante cronológica: das crianças errantes aos satoris e desenhos que o ocuparam ao longo de quase 30 anos. Os termos que utiliza para descrever o estado de graça no qual é indispensável encontrar-se para “acolher” uma boa imagem são os do misticismo e − por que não? − do espiritismo, como se as imagens já habitassem o cosmos, e o fotógrafo tivesse uma função de médium.

Larrain se identifica com a pedra assim como se identifica com as crianças – as das ruas, que perambulam como anjos surgidos de lugar nenhum. Seu olhar magnético decupa fragmentos de realidade; ele não teme o que é externo ao campo, o tempo ainda por vir, as diagonais audaciosas, o impreciso, o sol batido ou a escuridão. Suas imagens não são fechadas; aliás, os personagens muitas vezes saem delas resistindo, como ele, à reclusão.

Depois de um percurso sinuoso, de rupturas penosas, a glória ao alcance da mão, Sergio Larrain deitou raízes em uma terra acolhedora para transmitir o que aprendeu, escrever e multiplicar seus alertas sobre a destruição do planeta Terra pelas mãos do homem. Que suas raízes produzam nos outros a consciência que ele invocava com seus votos de vagabundo pacificado.

Tradução de Heloisa Jahn


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