Alice Brill: impressões ao rés do chão


Apresentação de Giovanna Bragaglia

Curadora da exposição

Filha do pintor Erich Brill e da jornalista Marte Brill, Alice nasceu em Colônia, na Alemanha, em 1920. Aos 14 anos de idade, ela migrou para o Brasil para escapar do nazismo. Em São Paulo, participou de sessões de modelo-vivo no Grupo Santa Helena, onde conviveu e selou amizade com os artistas Mario Zanini, Paulo Rossi Osir e Alfredo Volpi, entre outros. Em 1946, com uma bolsa de estudos, seguiu para os Estados Unidos, onde frequentou a University of New Mexico, em Albuquerque, e a Art Students League, em Nova York. Lá, optou por cursar aulas de desenho, pintura e fotografia – esta última escolhida por ser uma possível profissão quando retornasse ao Brasil. Sua verdadeira paixão, dizia, era a pintura, técnica que apresentou na I e na IX Bienal Internacional de São Paulo (1951 e 1967) e em diversas exposições individuais e coletivas ao longo da vida.

Salvador, Bahia, 1953. Foto de Alice Brill / Acervo IMS

 

De volta ao Brasil, em 1948, surgiu a oportunidade de acompanhar a comitiva da Fundação Brasil Central em uma inspeção de obras pelo Centro-Oeste do país, que viria a ser um excelente início para sua carreira fotográfica. No entanto, apenas algumas de suas imagens foram publicadas na revista Habitat, na qual ela passaria a colaborar regularmente com fotos de arquitetura, retratos de artistas e reproduções de obras. Alice também trabalhou como fotógrafa para o Museu de Arte de São Paulo (Masp) e para o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-sp), registrando obras de arte e exposições. Mas sua obra teve maior destaque nos retratos de famílias da elite paulistana, mostrando-se pioneira da fotografia espontânea de crianças. Por essa via, a artista modernizava o gênero, indo na contramão da fotografia de estúdio posada daquele período.

Esta exposição apresenta uma dimensão que, apesar de ainda pouco conhecida, está presente em toda a trajetória da fotógrafa Alice Brill. São as impressões de um mundo isento de eufemismos. Um olhar humanizado e despretensioso que fez não apenas fotos oficiais de deputados visitando comunidades indígenas, mas captou a índia constrangida e incomodada; não captou as belas panorâmicas da Cidade Maravilhosa, mas registrou o descontentamento e as queixas de seu povo maltratado; não valorizou o avanço monumental da São Paulo quatrocentona, mas expôs seu lado “não saudável”, como descreveu Lévi-Strauss em Tristes trópicos. Desviando sua câmera para um cotidiano sem disfarces, as imagens de Alice ajudam “a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas”, como uma crônica, para não deixar de citar Antonio Candido, ou a vida ao rés do chão.