Fotografia e violência política no Brasil 1889-1964

Apresentação de Heloisa Espada

Curadora da exposição

Em um retrato um tanto atípico do Brasil, esta exposição reúne fotografias de conflitos políticos – revoltas, revoluções, insurreições e guerras civis – que tiveram desfechos violentos envolvendo as Forças Armadas. Entre o golpe que deu origem à República e o de 1964, trata-se de um período fundamental na formação do país, que antecedeu duas décadas de ditadura. O que se vê são fragmentos de uma história de disputas e balas: o olhar ingênuo do jovem soldado em contraste com mortos e feridos; cenas de escombros e depredações; expressões de desolação, perplexidade e fúria.

Toda imagem realizada num conflito é interessada e abordá-la é analisar também os fatores que moldam seus significados: a tecnologia fotográfica disponível em cada período; os retratados e suas poses; os enquadramentos; as formas de circulação; a posição política dos periódicos; a censura; os textos, os projetos gráficos e as legendas que as acompanharam. A exposição procura mostrar como as fotografias cumpriram o papel de arma na disputa por opiniões, ao mesmo tempo que apresenta um panorama heterogêneo do percurso da imagem documental ao longo de 75 anos. Foram reunidas cópias em papel de albumina, típicas do fim do século XIX, imagens projetadas, impressas sobre vidro, estereoscópios, álbuns, cartões-postais, cinejornais, impressões em papel de gelatina de prata que pertenceram à redação de jornais e imagens em movimento, originalmente captadas em 16mm.

Fotografia e história nem sempre andam juntas. As imagens de conflitos falam também daquilo que lhes falta, e conservam ao mesmo tempo o potencial de sempre revelar algo novo. O recorte vai do retrato posado de um grupo prestes a degolar o prisioneiro inimigo na Revolução Federalista, em 1894, ao depoimento do político comunista Gregório Bezerra sobre a violência a que foi submetido nas ruas do Recife, em 1964. No segundo caso, a brutalidade do que é narrado dispensa imagens. Seu testemunho é pessoal, parcial e politicamente comprometido, como, ademais, cada fotografia desta mostra.

 

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