BOLSA IMS DE PESQUISA EM FOTOGRAFIA


Edição 2018: edital

O Instituto Moreira Salles, entidade cultural sem fins lucrativos, institui o presente edital, que regulamenta o concurso para a seleção de um projeto eleito à BOLSA IMS DE PESQUISA EM FOTOGRAFIA, edição 2018.

As inscrições vão de 16 de julho a 31 de agosto de 2018 e o resultado final será divulgado em outubro no site do IMS (ims.com.br).


1. Objeto

1.1. Constitui o objeto do presente edital a seleção de um projeto para o estudo das coleções de fotografia conservadas no IMS.

1.2. A bolsa tem por objetivos:

  1. a) Contribuir para a capacitação de pesquisadores que desejem investigar a história da fotografia no Brasil;
  2. b) Fomentar pesquisas que contribuam para promover e disseminar o conhecimento sobre autores, obras, conjuntos e coleções de natureza fotográfica, sob a guarda do Instituto Moreira Salles e de outros arquivos, bibliotecas, coleções e museus brasileiros.

2. Condições gerais

2.1. Estão aptas a se inscrever pessoas físicas, brasileiras ou estrangeiras, radicadas no Brasil há, no mínimo, 01 (um) ano, que possuam o título de mestre ou superior, com ou sem vínculo acadêmico ou institucional.

2.2. Não poderão se inscrever as pessoas físicas que sejam funcionários do Instituto Moreira Salles ou que tenham vínculo de parentesco com funcionários do Instituto Moreira Salles.


3. Condições específicas

3.1. O Instituto Moreira Salles concederá uma bolsa de pesquisa para projetos que proponham estudos sobre os seguintes eixos temáticos, os quais se encontram detalhados no Anexo I deste edital:

- Ferrovias na obra de Marc Ferrez;

- Marc Ferrez, empresário da imagem;

- Marc Ferrez, anos de formação e início de trajetória (1863-1875).

3.2. Os candidatos deverão apresentar um único projeto de pesquisa inédito, assim entendido como um projeto de pesquisa não apresentado publicamente nem resultante de dissertação ou tese para conclusão de curso de graduação ou pós-graduação universitária.

3.3. Para a realização da pesquisa, o bolsista terá acesso ao banco de dados e à documentação produzida pelo fotógrafo Marc Ferrez, sob a guarda do Instituto Moreira Salles.

3.4. O bolsista terá direito ao uso do espaço e da infraestrutura do Instituto Moreira Salles durante a duração da bolsa.


4. Inscrições

4.1. As inscrições estarão abertas no período de 16 de julho a 31 de agosto de 2018.

4.2. As inscrições serão realizadas em duas etapas:

- Preenchimento do formulário de inscrição online, no endereço: https://goo.gl/forms/aBIpokKoUkFiVaWx2;

- Envio do material de inscrição (descrito no item 4.3), exclusivamente por e-mail, até o dia 31 de agosto, para o endereço bolsadepesquisa@ims.com.br.

4.3. O material de inscrição a que se refere o item anterior compreende os seguintes documentos impressos:

- Formulário de inscrição online preenchido;

- Cópia de RG e CPF;

- Para estrangeiros, documento que comprove residência no Brasil há, no mínimo, 01 (um) ano;

- Cópia do diploma de mestrado;

- Currículo do candidato, incluindo formação acadêmica, atividades profissionais, publicações e trabalhos técnicos realizados (arquivo em word e pdf);

- Cópia do projeto de pesquisa (arquivo em word e pdf) com, no máximo, 10 páginas, especificando:

  • Tema da pesquisa;
  • Objetivos;
  • Metodologia;
  • Pertinência do projeto;
  • Fontes e materiais documentais e iconográficos a serem pesquisados nos acervos do IMS e em outras instituições;
  • Resultados previstos.

5. Seleção

5.1. O processo seletivo será realizado em três etapas:

- Habilitação dos candidatos, com o objetivo de verificar o cumprimento das exigências previstas neste edital;

- Avaliação do currículo e do projeto dos candidatos, segundo os critérios previstos neste edital, por uma Comissão de Seleção, a ser constituída por três profissionais do Instituto Moreira Salles; e

- Eventuais entrevistas, presenciais ou por Skype, que poderão ser requeridas pela Comissão de Seleção.

5.2. A Comissão de Seleção levará em consideração as seguintes diretrizes:

- Qualificação do candidato e sua experiência em projetos de pesquisa correlatos;

- Qualidade e pertinência do projeto apresentado;

- Identificação, no projeto, da utilização de fontes primárias e de documentação complementar às coleções fotográficas do Instituto Moreira Salles, existentes nos arquivos do Instituto Moreira Salles ou em outras instituições de memória, tais como bibliotecas, arquivos, hemerotecas e museus.

5.3. A análise dos currículos e entrevistas ocorrerá no período de 03 de setembro a 30 de setembro de 2018.

5.4. O resultado final com o nome do bolsista selecionado será divulgado no site do IMS (https://ims.com.br/), em outubro de 2018.

5.5. A pesquisa deverá ser iniciada no prazo de 5 (cinco) dias após a formalização dos documentos referidos no item 6.4 a seguir.


6. Bolsa

6.1. A Bolsa IMS de Pesquisa em Fotografia – edição 2018 terá duração máxima de 01 (um) ano.

6.2. O valor bruto da bolsa será de R$ 30.000,00 (trinta mil reais).

6.3. O pagamento da bolsa será efetuado em 12 (doze) parcelas mensais ​no valor bruto de R$ 2.500,00 (dois mil e quinhentos reais)​, sobre o qual serão descontados o imposto de renda à alíquota estabelecida pela Receita Federal do Brasil na ocasião do pagamento e eventuais tributos instituídos durante a vigência da bolsa​.​

6.4. O bolsista selecionado deverá entregar ao Instituto Moreira Salles, no prazo de até 7 (sete) dias úteis a contar da data da publicação do resultado, os seguintes documentos:

- Dados bancários (banco, agência e conta-corrente);

- Comprovante de residência; e

- Contrato assinado.

6.5. Não serão aceitos pedidos de reconsideração do resultado final da seleção.

6.6. O material de inscrição dos projetos de pesquisa não selecionados será inutilizado.


7. Obrigações

7.1. O bolsista selecionado deverá realizar as atividades de pesquisa do acervo sob guarda do Instituto Moreira Salles presencialmente, no Centro Cultural do Instituto Moreira Salles, na cidade do Rio de Janeiro.

7.2. Para acompanhar o desenvolvimento do projeto, serão realizados encontros bimensais entre o bolsista selecionado e a coordenação da Bolsa IMS de Pesquisa em Fotografia.

7.3. O bolsista deverá entregar três relatórios parciais, um a cada 90 (noventa) dias, a começar pela data de início da pesquisa. A continuação das atividades e a vigência da bolsa serão condicionadas à aprovação do relatório pela Comissão de Seleção.

7.4. Após a conclusão do projeto de pesquisa, o bolsista deverá apresentar os seguintes resultados finais: (i) relatório final, (ii) artigo de conclusão da pesquisa, e (iii) palestra aberta ao público sobre os resultados de sua pesquisa, em local a ser definido pelo Instituto Moreira Salles.

7.5. Eventuais mudanças no projeto de pesquisa deverão ser discutidas com a coordenação da Bolsa IMS de Pesquisa em Fotografia.

7.6. O pagamento da última parcela da bolsa está condicionado à entrega do relatório final, aprovado pela Comissão de Seleção, e do artigo referidos no item 7.4 acima.

7.7. O pesquisador selecionado licenciará ao Instituto Moreira Salles o direito de exclusividade para divulgar, reproduzir, publicar, traduzir e/ou utilizar os resultados finais do projeto pelo prazo de um ano, a contar da data de pagamento da última parcela da bolsa.

7.8. Após o prazo referido no item 7.7 acima, o Instituto Moreira Salles terá o direito de exibir, divulgar, reproduzir, publicar, traduzir e/ou utilizar, por qualquer meio ou forma, os resultados finais do projeto em todo e qualquer evento, atividade e projeto de natureza comercial, institucional e/ou cultural do Instituto Moreira Salles;

7.9. Após o prazo referido no item 7.7 acima, o bolsista selecionado poderá dispor integralmente dos resultados finais do projeto, observada a disposição do item 8, a seguir.


8. Créditos

Toda e qualquer divulgação dos resultados finais ou parciais do projeto deverá ser sempre acompanhada do seguinte crédito: “Realizado com incentivo da Bolsa IMS de Pesquisa em Fotografia – edição 2018”.


9. Disposições gerais

9.1. O ato da inscrição implica a plena aceitação das normas constantes no presente edital.

9.2. Os casos omissos serão apreciados e resolvidos pela Comissão de Seleção, ficando desde logo eleito o Foro Central da Comarca do Rio de Janeiro para dirimir eventuais questões relativas a este edital.

9.3. O Instituto Moreira Salles não se responsabiliza pelas licenças e autorizações necessárias à realização do projeto selecionado, sendo estas de total e exclusiva responsabilidade do bolsista selecionado.

9.4. A inexecução total ou parcial do projeto contemplado neste edital implicará a adoção de medidas judiciais cabíveis e a devolução, por parte do bolsista selecionado, dos recursos recebidos, atualizados de acordo com a legislação vigente à época em que se realizar a respectiva quitação.

9.5. O bolsista selecionado será o único e exclusivo responsável pela realização do seu projeto, isentando o Instituto Moreira Salles de qualquer responsabilidade sobre o mesmo.


Anexo I

Eixos temáticos

1. FERROVIAS NA OBRA DE MARC FERREZ

As estradas de ferro foram, ao longo do século XIX, os ícones por excelência da revolução industrial e do capitalismo. Em poucas décadas, as ferrovias transformaram não apenas os transportes, mas as comunicações, a economia, a geografia e, sobretudo, a percepção humana. Não seria possível ansiar ao progresso material e social de uma nação sem atrelá-lo à instalação e à expansão de sua malha ferroviária.

Apesar de contar com a Lei Feijó, que autorizava a construção de ferrovias desde 1835, o Brasil assistirá ao nascimento de sua rede ferroviária somente a partir da segunda metade do século XIX. Sua implantação e seu crescimento estão intrinsecamente ligados à expansão da cultura e da economia do café.

Marc Ferrez (1843-1923) é hoje considerado o mais importante fotógrafo brasileiro do século XIX. Conhecido, sobretudo, por seus panoramas e suas vistas de paisagens urbanas, com ênfase no Rio de Janeiro, e pelo trabalho junto à Comissão Geológica do Império, Ferrez é, sem dúvida, quem mais deu visibilidade, em sua época, aos processos de modernização em curso no país, como as grandes obras de abastecimento de água, a reurbanização do centro do Rio de Janeiro, as fazendas de café e as estradas de ferro, Brasil afora. Não é exagerado afirmar que Ferrez foi talvez o fotógrafo que mais registrou, em amplitude geográfica e em quantidade, a construção e a expansão da malha férrea brasileira.

O estudo detalhado da produção de Ferrez sobre as estradas de ferro no Brasil poderá revelar diversos aspectos ainda pouco estudados de sua obra. O mapeamento dessa produção; a datação e a identificação dos trajetos das estradas e das viagens realizadas pelo próprio Ferrez; a relação entre as fotografias de ferrovias e a economia do café e da mineração; a estética por ele criada, em relação à fotografia contemporânea; as relações do fotógrafo com o Clube de Engenharia, instituição que pensava a modernização do país, e com os engenheiros que lideravam a construção das estradas de ferro: são algumas das questões que podem ser reveladas pela pesquisa e que trarão importante subsídio para a compreensão da obra de Ferrez e da fotografia brasileira.

O IMS possui em seu acervo, além de um conjunto significativo de negativos de vidro e de fotografias que integram alguns álbuns de ferrovias de Ferrez, um caderno com o catálogo de fotografias realizadas pelo fotógrafo, que inclui as estradas de ferro. A relação das fotografias de ferrovias está organizada por companhia férrea e contém listagens de imagens, especificando título e outras informações de localização de cada foto. Esse caderno pode ser um valioso documento auxiliar na identificação e na compreensão dos conjuntos fotográficos sobre ferrovias existentes na obra de Ferrez.

2. MARC FERREZ, EMPRESÁRIO DA IMAGEM

A obra de Marc Ferrez talvez possa ser considerada, em seu conjunto, o maior documento fotográfico sobre a segunda metade do século XIX no Brasil. Ao seu olhar, não escaparam as instituições imperiais e as republicanas; as paisagens naturais e as vistas urbanas; a economia do café e da mineração; a Marinha; os processos de modernização urbana e os projetos de infraestrutura que colocavam o Brasil na rota da modernidade. Suas fotografias são apuradas construções técnicas e estéticas, já bastante analisadas por estudiosos e admiradores.

Ferrez foi também um pesquisador dos processos fotográficos, dos equipamentos que surgiam e das invenções que cotidianamente eram apresentadas nas reuniões das sociedades de fotografia e nas feiras mundiais. Era, sem dúvida, um entusiasta do progresso técnico e experimentou todos os processos fotográficos e de reprodução da imagem que teve a seu alcance, assim como tangenciou, de forma direta, ou indireta, novos usos da fotografia em sua época, como o raio-X, as projeções de lanterna para apresentações de conferências e os aparelhos para visão astronômica.

Ferrez não foi, entretanto, apenas fotógrafo. Grande comerciante, ligado em seu círculo familiar e social aos comerciantes franceses no Rio de Janeiro de seu tempo, fundou a firma Marc Ferrez & C, em 1867, transformada posteriormente na Casa Marc Ferrez. Na década de 1890, com o crescimento do mercado para fotografia, tornou-se importante incentivador da prática da fotografia amadora, ultrapassando o âmbito de autor e ocupando um papel ainda a avaliar na difusão da prática fotográfica no Brasil.

A partir da década de 1880, incursionou também em projetos como a Galeria Contemporânea Brasileira, e o jornal A Estação, onde, além de fotógrafo, passou a atuar como editor de imagens.

Com o surgimento do cinematógrafo, Ferrez identificou um novo e promissor nicho e, com seus filhos Julio e Luciano, abriu a firma Marc Ferrez & filhos, que se dedicaria à distribuição e à comercialização de equipamentos, material e filmes para cinema. Tornou-se também proprietário do terceiro cinema do Rio de Janeiro, o Cine Pathé, e em pouco tempo seria responsável pela difusão do cinema Brasil afora.

Analisar os diversos aspectos de Ferrez como empresário da imagem é fundamental para a compreensão não apenas da atuação de Marc Ferrez, mas do próprio crescimento e difusão da fotografia, do mercado editorial para a fotografia e do cinema no Brasil.

Os cadernos de Marc Ferrez, atualmente conservados no Arquivo Nacional, e a correspondência que manteve com os filhos, de 1915 e 1922, guardados no mesmo Arquivo, são algumas fontes relevantes para a pesquisa.

3. MARC FERREZ. ANOS DE FORMAÇÃO E INÍCIO DE TRAJETÓRIA (1863-1875)

A primeira referência a Marc Ferrez como fotógrafo estabelecido no Rio de Janeiro apareceu no Almanak Laemmert em 1868, na seção Fotógrafos, como “Marcos Ferrez & Cia., r. de São José 96”. Nesse endereço, havia figurado, até o ano anterior, a Photographia Brazileira, estabelecimento dirigido pelo alemão Revert Henrique Klumb (c. 1826-c. 1886), um dos principais fotógrafos do seu tempo, que ostentava o título de Fotógrafo da Família Imperial. Atribui-se a Klumb, entre outros méritos, a introdução da estereoscopia no Brasil.

Desde sua chegada ao país, provavelmente entre 1860 e 1863, vindo da França, até o seu estabelecimento como fotógrafo profissional no Rio de Janeiro, Ferrez aprofundou seus conhecimentos em fotografia, provavelmente trabalhando na Casa Leuzinger, fundada pelo suíço Georges Leuzinger (1813-1892), importante oficina litográfica e editorial que, a partir da década de 1860,se tornou, também, um ateliê fotográfico.

Ferrez teria também estabelecido relações com Augusto Stahl (1828-1877), de origem francesa e Fotógrafo da Família Imperial, como Klumb, autor de importantes paisagens panorâmicas do Recife, onde residiu na década de 1850, e posteriormente do Rio de Janeiro. Um retrato do jovem Ferrez, produzido em 1864, levaria a assinatura de Stahl.

Embora diálogos com a obra de Klumb, Stahl e Leuzinger possam ser percebidos nas fotografias que Ferrez produziu a partir do fim dos anos 1860, as possíveis relações de trabalho e a contribuição desses experientes fotógrafos na formação da obra de Ferrez ainda carece de levantamentos cuidadosos e de uma sistematização mais rigorosa.

A pesquisa aprofundada sobre a formação de Ferrez e os primeiros anos de sua produção, relacionada à produção dos três fotógrafos citados, seus antecessores, contribuirá ainda para iluminar a produção fotográfica no Rio de Janeiro nas décadas de 1860 e 1870, sobretudo de paisagens, temáticas que os quatro fotógrafos consagraram com seu trabalho.