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Ocupação Eduardo Coutinho


Coutinho como nunca antes

Carlos Alberto Mattos*

Não chegamos a ser propriamente amigos, mas minha relação com a obra de Eduardo Coutinho é intensa. Começou em 1984, quando assisti à consagração de Cabra Marcado para Morrer no FestRio. Foi a partir dali que procurei conhecer seus muito diferentes filmes anteriores, longas de ficção e programas do Globo Repórter. Passei a acompanhar sua carreira, mesmo durante os 14 anos em que ela esteve restrita a um certo nicho, antes do revival com Santo Forte.

Na virada do século, lá estava eu cobrindo as filmagens de Babilônia 2000 para um jornal. Quando seu método de documentarista se consolidou com Edifício Master, fui convidado a escrever o livro Eduardo Coutinho: O Homem que Caiu na Real, com que ele foi homenageado num festival português. Um pouco mais tarde, preparei o material de imprensa para Peões e O Fim e o Princípio. Apresentei uma mostra de seus filmes no Canal Brasil e participei com ele das faixas comentadas dos DVDs de Jogo de Cena e Cabra Marcado para Morrer, esta gravada apenas quatro dias antes de seu trágico falecimento.
 

Eduardo Escorel, João Moreira Salles, José Carlos Avellar, Barbara Rangel, Eduardo Coutinho, Denilson Campos e Carlos Alberto Mattos na gravação do extra do DVD Cabra Marcado para Morrer, em 29/1/2014

 
Mas nada disso se compara ao mergulho que dei nos seus arquivos para a cocuradoria da Ocupação e a preparação do livro Sete Faces de Eduardo Coutinho. Para minha surpresa, sua célebre salinha no Cecip – Centro de Criação de Imagem Popular guardava muita coisa que Coutinho, com seu jeito despojado, não parecia preservar.

Lá estavam muitos documentos de filmagem, registros de pesquisa e seleção de personagens, rascunhos de projetos e até redações do seu tempo de colegial. Estavam, sobretudo, seus incontáveis cadernos de anotações, nos quais, desde sempre, dava asas a sua sensibilidade na observação humana e na garimpagem de pessoas com carisma para falar da vida. É bem verdade que sua caligrafia mais se aproximava dos hieróglifos egípcios do que da última Flor do Lácio. Mesmo sem entender a maioria dos garranchos, temos ali o substrato do seu cinema. Toda a gênese de um processo de criação.
 

Um dos cadernos de Eduardo Coutinho

 
Além desse acervo imprescindível, hoje sob a guarda do Instituto Moreira Salles, foram fundamentais as colaborações – memórias, documentos, fotos, objetos – da VideoFilmes, de cinematecas do Rio e de São Paulo, bem como de sua irmã Heloísa Coutinho e de vários amigos e companheiros de trabalho. Assim pudemos oferecer, na exposição e no livro, uma visão inédita de sua obra completa, desde os filmes realizados como aluno do Idhec francês em fins da década de 1950.

 

Eduardo Coutinho. Buenos Aires, 1966. Foto de Ricardo Aronovich

 
Foi nossa intenção – minha e da equipe do Itaú Cultural com que dividi a curadoria – apresentar um novo olhar sobre a trajetória do cineasta. Em lugar de uma cronologia linear, evidenciamos os diálogos entre diversas fases de sua filmografia. Pontuamos temas e constantes que atravessam sua produção em cinema, vídeo, televisão, teatro e textos. A forma como esses suportes se entrelaçam é uma das mais gratas revelações sobre seu trabalho.

Um Eduardo Coutinho múltiplo, sagaz, inovador e divertido é o que desejamos mostrar ao público com essa Ocupação.

 

* Crítico e pesquisador de cinema, cocurador (em parceria com a equipe do Itaú cultural) da Ocupação Eduardo Coutinho