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Livro de Paz Errázuriz retrata amor sob a loucura

 3 DE novembro DE 2020 |
Infarto 23, Putaendo, da série O infarto da alma, 1994. Coleções Fundación MAPFRE © Paz Errázuriz, cortesia da artista.

Numa das fotos, um casal está de mãos dadas, olhar atento para a câmera. Em outra, de enquadramento mais fechado, o rosto de uma mulher repousa sobre o ombro de um homem. Numa terceira, um par está deitado numa cama estreita, ela com a face sobre o peito dele. Há gestos de carinho, olhares que poderiam ser definidos como de cumplicidade, como costumam ser os dos enamorados. Mas as fotos de Paz Errázuriz não têm nada que possa se enquadrar na expressão "como de costume". Os casais descritos aqui não vão ao cinema, não marcam encontros, não passeiam na praia. Estão eternamente emoldurados pelos contornos do Hospital Psiquiátrico Philippe Pinel, em Putaendo, cidadezinha chilena 200 quilômetros ao norte de Santiago, na região turística de Valparaíso. Vivem num cenário cru, destacado pelo registro em preto e branco, alguns por décadas. São excluídos da sociedade, alheios, invisíveis, mas humanizados pelo olhar respeitoso da fotógrafa chilena, autora dos registros descritos acima, parte dos 38 reunidos no livro O infarto da alma.

Lançado no Chile em 1994, O infarto da alma é publicado pela primeira vez no Brasil, pelo Instituto Moreira Salles, por ocasião da retrospectiva da fotógrafa no IMS Paulista, em cartaz até 2/1/2021. A exposição foi organizada pela Fundación MAPFRE com a colaboração do Instituto Moreira Salles, e exibida originalmente em Madri, em 2015.

Capa de O infarto da alma

O infarto da alma é  um livro de fotografias singular. Foi realizado ao longo de dois anos, e Paz inclusive alugou um apartamento, a três quilômetros do hospital, para poder ir repetidas vezes ao local, por períodos extensos. Ela já havia avançado bastante nas visitas e no registro dos casais quando, conversando com a escritora Diamela Eltit, um dos nomes mais importantes da literatura contemporânea de seu país, contou do projeto. Diamela, que já esteve no Brasil como participante da programação oficial da 15ª Flip, em 2017, ficou fascinada, e Paz a convidou para acompanhá-la, de modo a produzir uma narrativa literária sobre o amor que brotava em condições extremas de reclusão e alienação.

A obra publicada agora no Brasil e já disponibilizada na loja do IMS é fruto dessa parceria. "É um livro que mistura fotografia e literatura de um jeito muito particular. Não é uma ilustração de texto, ou vice-versa. As narrativas se cruzam, é muito contundente", diz Miguel Del Castillo, escritor e curador da Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista e coordenador editorial da publicação, junto com Samuel Titan Jr.

"As pessoas retratadas por ela estavam totalmente abandonadas pelos familiares, de certa forma também pelo Estado, que tenta despersonificá-las. E ao falar da loucura, ela fala da nação, como estava descuidada, e posta em reclusão, meio reprimida. Tem muitas questões aí, a gente achou que seria relevante lançá-lo neste momento", observa Castillo.

A nação "descuidada" a que ele se refere  é o Chile pós-ditadura militar. Paz Errázuriz começou a fotografar, de forma autodidata, num momento particularmente sinistro da história do país, durante o regime do general Augusto Pinochet, iniciado em 1973. Chegou a registrar manifestações contra a ditadura, mas seu foco logo seria outro: pessoas à margem da sociedade, excluídas, invisíveis ou desprezadas. É assim que se dedicou a grandes séries, nas quais retratou profissionais de circos precários, transexuais que trabalham em bordéis (O pomo de Adão), o cotidiano de um grupo indígena em extinção (Os nômades do mar), lutadores de boxe (A luta contra os anjos), uma comunidade de cegos, idosos nus (Corpos). Em todas elas, o que sobressai é o profundo respeito pelos personagens fotografados, fruto de aproximações pacientes e duradouras, que promoveram a confiança e a intimidade de lado a lado.


Atáp/Ester Edén, Puerto Éden, da série Os nômades do mar, 1995. Coleções Fundación MAPFRE © Paz Errázuriz, cortesia da artista.

O infarto da alma foi produzido em 1992, dois anos depois do fim do governo Pinochet, e contou com o mesmo cuidado. "É isso que torna ela uma fotógrafa tão especial, hors concours", diz Castillo, que também assina o posfácio da edição brasileira. "Não é uma fotógrafa que vai chegar em algum lugar, fazer uma foto e sair rápido. Quase todas as suas séries demandam um tempo, investimento de conhecer as pessoas. Paz consegue deixar a humanidade delas aparecer de fato, e isso fica bem claro nas fotos", diz ele. Leia a seguir o texto de Miguel Del Castillo publicado no posfácio do livro.

 

Sobre O infarto da alma

MIGUEL DEL CASTILLO

Esta primeira edição brasileira de O infarto da alma, livro incontornável na carreira de Paz Errázuriz, em parceria com sua conterrânea, a escritora Diamela Eltit, é publicada pelo Instituto Moreira Salles por ocasião da retrospectiva da fotógrafa chilena, em cartaz no IMS Paulista de março a julho de 2020.

Os retratos que Errázuriz realizou dos casais apaixonados que se formaram dentro do hospital psiquiátrico Philippe Pinel, na cidadezinha de Putaendo, no Chile, são fruto, como em todas as suas séries fotográficas anteriores, de anos de investimento numa relação com os retratados. A intimidade que a fotógrafa estabeleceu com eles possibilitou a construção de uma narrativa conjunta, calcada no respeito mútuo. Depois de produzir boa parte das imagens, Errázuriz convidou Diamela Eltit para fazerem uma visita ao hospital. No diário dessa viagem, a escritora anota: “Quando atravessamos o gradil, vejo os asilados. Nem seus corpos nem seus rostos me espantam (não me espantam, pois, como já disse, dias antes vi as fotografias), mas me desconcerta a alegria que os percorre quando gritam: ‘Tia Paz’. ‘Chegou a tia Paz.’ Gritam repetidas vezes, como se não conseguissem acreditar, e a beijam mais e mais, e a abraçam mais e mais.” Em 1994, dois anos após essa visita, o livro seria publicado  pela editora Francisco Zeggers. 1

Trata-se de uma obra que resiste a classificações. Se pensarmos em sua forma, isto é, em sua composição básica – textos e imagens intercalados ao longo das páginas –, podemos dizer que é um livro fototextual, termo cunhado recentemente (e que começa a aparecer também na produção acadêmica) para designar esse tipo de publicação, em que fotografias e textos têm igual peso, e sua interação produz a narrativa. Na América Latina, parece haver um apreço especial pelo formato – basta lembrar que no estudo seminal de Horacio Fernández, que resultou na publicação de Fotolivros latino-americanos, há um capítulo inteiro sobre o tema (“Palavra e imagem”). Se em algum momento tal categoria for estabelecida como um gênero narrativo, não seria difícil dizer que O infarto da alma é uma de suas obras-primas.

 Infarto 30, Putaendo, da série O infarto da alma, 1994. Coleções Fundación MAPFRE © Paz Errázuriz, cortesia da artista.

 

As imagens de Errázuriz destoam das tradicionais representações da “loucura” na história da fotografia, recusam clichês, conseguem driblar o sentimentalismo banal (mesmo que seu tema seja casais enamorados) e passam longe de intentos classificatórios. Comovem profundamente por uma singeleza de gestos, que se mistura à aspereza da condição dos asilados, pelas poses ora calculadas, ora mais espontâneas, e pela riqueza emocional sem par que Paz Errázuriz conseguiu captar. São, nas palavras de Diamela Eltit, “imagens que comprovam, inclusive para eles próprios [os asilados], que estão vivos, que mesmo depois de tudo conservam um pedacinho de ser, embora habitem como doentes crônicos o hospital mais lendário do Chile”. Elas ajudam, portanto, a dar corpo e voz a indivíduos que beiram o esquecimento e que, ao se entregarem ao amor, resistem a toda despersonificação que já lhes foi imposta.

O texto, por sua vez, multiplica essas vozes e as complexifica, extraindo delas outros sentidos para falar, em última instância, do amor. “A forma da loucura é sua tendência a se fundir, a se confundir com o outro”, escreve Eltit, e o mesmo pode ser dito do amor. Um transbordamento que também se vê na escrita da autora, que mistura e subverte gêneros, alternando passagens poéticas com outras mais objetivas: além do relato de viagem citado acima, há trechos ficcionais em forma de carta (com o subtítulo “O infarto da alma”), outros em versos (“A falta”), ensaios sobre a construção do sujeito (“O outro, o meu outro”) e sobre a enfermidade (“O amor à doença”, que. parte do fato de o hospital ter sido, antes, dedicado ao tratamento da tuberculose), o testemunho de uma paciente (“O sonho impossível”) e um breve perfil dela (“Juana, a louca”). Eltit constrói essas diferentes primeiras pessoas, fazendo-as surgir, ao longo do livro, numa “estrutura reiterativa”. 2

O tom da primeira recepção crítica de O infarto da alma foi muito influenciado pelo contexto pós-ditatorial no Chile, que só em 1990 se viu livre do regime de Pinochet. Para a professora Nelly Richard, por exemplo, o livro operava como um objeto artístico disruptivo em meio a uma paisagem social forçosamente pacificada por um pacto tácito entre a política e neoliberalismo econômico herdado da ditadura; um país em que os poderosos buscavam apagar o passado e a militância sentia a apatia decorrente de anos de intensa luta em torno de ideais sociais que agora pareciam esgotados. Um livro como este circulando “no Chile da Transição”, diz Richard, obrigava também os cidadãos a se perguntar se ainda havia lugar naquela sociedade para esses “corpos desamparados, uma vez que um olhar prepotente e estandardizante recobre e hegemoniza os parâmetros da visão no campo social, deixando de fora do quadro tudo que é sub-representado ou irrepresentável, tudo que ameaça desfigurar o rosto autocomplacente de uma sociedade que se contenta em reverberar brilhos publicitários”.3 Como reiterou a pesquisadora Carmen Hernández 4, o espaço psiquiátrico poderia ser considerado uma metáfora da nação chilena de então.

O infarto da alma segue como testemunho de uma resistência e como exemplar de uma arte cuja alteridade é real, profunda e, portanto, poderosa. E tudo isso falando, por incrível que pareça, sobre o amor. Pois, ao fim e ao cabo, este é um livro sobre o amor, cuja complexidade exala das imagens e é investigada pelo texto, conformando “uma foto-e-grafia que interpela a condição do homem a partir do homem amoroso” 5 e que, por isso mesmo, abarca também a política, a vida em sociedade, a loucura e o coração.

1. A editora fez uma segunda edição em 1999, com mesmo projeto gráfico. Em 2010 e 2017, respectivamente, Ocho Libros e Hueders publicaram novas versões do livro, com design próprio e pequenas alterações de imagens e sequenciamento. A presente edição traz as mesmas fotografias e sequência da original, com exceção da imagem na página 77.

2. Ver Hernández, Carmen. “El infarto del alma: la locura de la nación”.In: Insubordinación: Diamela Eltit y Paz Errázuriz – Urgencia y emergencia de una nueva postura artística en el Chile postgolpe (1983-1994).Caracas: Monte Ávila, 2009, p. 182.

3. Richard, Nelly. “Por amor al arte: rupturas críticas y fugas de imaginarios”. In: Residuos y metáforas: ensayos de crítica cultural sobre el Chile de la Transición. Santiago: Cuarto Propio, 1998, p. 251.

4. “A loucura, com suas implicações, permite a Diamela Eltit e Paz Errázuriz exercer uma crítica aos princípios da ordem social que reativaram o modelo de nação desde o período ditatorial. A imagem do confinamento atua como metáfora de um espaço no qual é permitido falar, embora se esteja condenado à solidão.” Hernández, Carmen. Op. cit., p. 179.

5. Caimi, Claudia Luiza. “A linguagem do amor: considerações políticas sobre El infarto del alma”. In: Cunha, Andrei dos Santos, Ferreira, Cinara, Neuman, Gerson Roberto e Bittencourt, Rita Lenira de Freitas. Ilhas literárias: estudos de transárea. Porto Alegre: Editora do Instituto de Letras da UFRGS, 2018, p. 417.


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